Filosofia da mente

Monistas e dualistas

Leônidas Hegenberg
Philosophy of Psychology, de Mario Bunge e Rubén Ardila
Berlin, Springer, 1987
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Em geral, as pessoas (quase todas?) não têm paciência nem tempo disponível para cogitar do problema do corpo e da mente. Algumas terão pensado no assunto, vez por outra, em certos momentos de inquietação filosófica. Umas poucas registraram, quem sabe, certa idéia julgada interessante, sem lhe dar, no entanto, a atenção eventualmente merecida. Apenas filósofos profissionais costumam enfrentar esse delicado problema, dedicando-lhe, talvez, meses de meditação e dezenas de horas de labor "escrevinhatório".

Várias pessoas — é o meu caso — preocupam-se com a questão corpo-mente, sem atribuir, contudo, mérito especial às suas lucubrações. Essas pessoas terão feito, quero crer, o mesmo que eu: terão lido (perfunctoriamente) quatro ou cinco livros, meio ao sabor do acaso, e guardado, para uso ocasional, o "núcleo" dessas obras. É possível, mesmo, que hajam comentado (com amigos e colegas) esse núcleo, deixando-o "à mão", nas lembranças.

Pois bem, Mario Bunge, no livro Philosophy of Psychology, escrito em parceria com Rubén Ardila, elaborou um "quadro" que me agradou de modo especial e ficou na memória, para uso reiterado. (É oportuno registrar que, no ano seguinte, apareceu a edição espanhola desse livro, distribuída pela Editora Ariel, de Barcelona.) O quadro contém uma "bem composta" descrição de dez maneiras de abordar o problema corpo-mente. Em síntese, usando títulos sugestivos e citando nomes dos principais defensores, Bunge sublinha que o problema é abordado por monistas e dualistas. No monismo encontramos (cito um autor, em cada caso, para melhor identificação das correntes):

  1. idealismo (tudo é psíquico; W. James)
  2. monismo neutro (o físico e o psíquico são "aspectos de uma substância neutra"; Russell)
  3. materialismo eliminador (nada é psíquico; B. Skinner)
  4. materialismo fisicista redutor (os estados psíquicos são estados físicos; I. Pavlov)
  5. materialismo emergentista (o psíquico é uma biofunção especial; A. Luria)

Paralelamente, no dualismo, há:

  1. autonomismo (o físico e o psíquico são independentes; Wittgenstein)
  2. paralelismo (o físico e o psíquico são síncronos; o jovem Freud)
  3. epifenomenalismo (o físico produz o psíquico; não há "reação" de volta; Ayer)
  4. animismo (o psíquico "afeta" o físico; não há reação contrária; Platão)
  5. interacionismo (o físico e o psíquico interagem; Descartes).

Para aqueles que desejarem um comentário acessível, essas idéias foram reformuladas no livro Mente y Sociedad(Bunge, Madrid, Alianza Editorial, 1989).

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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