Philosophie des Sciences II Philosophie des Sciences I
9 de Dezembro de 2003 ⋅ Filosofia da ciência

Ciência e filosofia

Leônidas Hegenberg
Philosophie des Sciences I & II, de Daniel Andler, Anne Fagot-Largeault e Bertrand Saint-Sernin
Paris: Gallimard, 2002, 2 vols., 1334 pp., 10,50 € + 10,50 €
Comprar: Vol. 1Vol. 2

Começo apontando o defeito principal desta obra — as notas de pé de página. Note-se que o texto ocupa 570 + 465 = 1035 páginas. Há 920 notas (520 no final do primeiro volume e 400 no final do segundo), em 84 + 60 = 144 páginas. Algumas são curtas (duas, três linhas), algumas têm mais de página, a maioria consome de 10 ou 12 linhas até meia página. Aborrece acompanhá-las. Exemplifico. Na p. 567, está a nota 116. Obriga-nos a buscar a p. 657, onde se lê "D. C. Campbell, in Radnitsky & Bartley III, 1987, p. 57". Para saber do que se trata, é preciso passar para o segundo volume, folheá-lo até achar, nas referências (p. 1173), a obra em tela. Aí ficamos sabendo que se alude ao livro editado pela dupla Radnitsky G. e Bartley W., distribuído em 1987 pela Open Court. Depois dessa longa "viagem", voltamos, naturalmente, ao primeiro volume — para retomar a leitura... Fatigante.

Compensando os aborrecimentos provocados pelas notas, temos, por sorte, três aspectos muito agradáveis. I) Ampla bibliografia (42 páginas), com numerosas obras inglesas, alemãs e americanas — ao lado, é claro, das francesas. Apenas por curiosidade, registre-se que as obras mais citadas são de K. Popper (cinco) e P. Duhem, P. Feyerabend, H. Poincaré e C. H. Waddington (quatro, de cada um deles). Observe-se que Bertrand Russell (citado em onze locais) não tem obra mencionada na bibliografia. A propósito, entre os autores mais citados estão Aristóteles, Chomsky, Comte, Cournot, Darwin, Descartes, Goethe, Kant, Mill, Newton, Popper, Quine e Whitehead. II) Ótimo índice de nomes (25 p.) e III) excelente minucioso índice de assuntos (58 p.), facilitando sobremaneira a localização de qualquer item desejado. Este índice de assuntos tem cada qual das "entradas" subdividida, abrangendo, às vezes, dúzia ou mais de sub-temas, de modo a tornar realmente simples a tarefa de encontrar os pontos desejados. Para exemplificar, eis apenas alguns poucos itens que comparecem junto ao termo "ontologie": biologique; coût ontologique; de la nature; du devenir; ... et Aristote; ... et monisme; ... et realisme; ... et transition du non-vivant au vivant;... relationelle; ... Percebe-se que, de fato, é realmente simples localizar autores e idéias neste longo texto.

Uma palavra a respeito dos autores parece oportuna. Andler chegou à filosofia através da matemática. Leciona teoria do conhecimento (Sorbonne) e temas ligados à cognição (École Normale Supérieure). Fagot-Largeault ensina filosofia da biologia e da medicina (Collège de France). Saint-Sernin é professor emérito (Sorbonne) de teoria do conhecimento e filosofia da ciência. Vale a pena observar que o trabalho dos três alcançou bom resultado, em livro de especial valor para quem deseja informar-se a respeito de como andam os estudos nas áreas focalizadas.

O livro, além da Introduction (25 p.) e da breve Conclusion (6 p.), contém três grandes partes, "Gnoseologie", "Ordres de la nature" e "Concepts transversaux".

A primeira parte (gnoseologie), desdobra-se em três capítulos. Principia com capítulo intitulado "Lês philosophies de la nature", elaborado por Sernin. Destina-se a comparar a "natural philosophy" inglesa, a "naturphilosophie" alemã e a "philosophie de la nature" francesa. Apresenta, a seguir (cap. 2), a "construção intersubjetiva da objetividade científica", em que Largeault, começando com Aristóteles, passando por Kant, Comte e Husserl, chega a Popper e autores menos conhecidos, como Evelyn Fox Keller (que debate a neutralidade científica). Andler encarrega-se do terceiro capítulo, "processos cognitivos", analisando a "naturalização do conhecimento" (Quine), o projeto das ciências cognitivas, e a "arquitetura" do órgão cognitivo.

Em "ordens da natureza", segunda parte da obra, há uma análise da "ordem físico-química" (Sernin) e uma análise da "ordem do vivente" (Largeault), que se desdobra em filosofia das ciências da vida, filosofia da biologia e da medicina, para falar da vida como fenômeno regional — geosfera, biosfera e tecnosfera.

A discussão prossegue no segundo volume da obra, onde se acha a "ordem humana" (Andler). O Autor indaga das razões pelas quais as ciências humanas se põem depois das naturais. Diz ele (p. 712) que há perguntas a responder, em seqüência. 1) As ciências humanas são realmente ciências? Se a resposta for negativa, temos o ceticismo. Se for afirmativa, surge a segunda escolha. 2) São ciências no mesmo sentido em que o são as ciências naturais? Se a resposta for afirmativa, tem-se o monismo; se negativa, tem-se o dualismo (ou pluralismo). Andler rejeita o monismo, com base nas noções de liberdade e de intencionalidade. Procura aproximar as diversas ciências umas das outras para sugerir adoção de um naturalismo heurístico — em que se tenha cabal consciência dos limites de cada ciência.

A terceira parte da obra abrange, de novo, três capítulos, um de cada qual dos autores. Sernin discute a "La causalité", chegando à causalidade humana e aos modelos jurídicos do conhecimento. Largeault estuda "L'emergence", discutindo a escola francesa (Lachelier, Boutroux, Bérgson, Boussinesq) e a escola inglesa (Alexander, Morgan, Broad). Efetua algumas curiosas análises dos fenômenos emergentes, para encerrar com uma visão genérica da emergência, pelos prismas das hierarquias, dos níveis de integração e do aumento da complexidade. Cabe a Andler encerrar a obra, com amplo exame de "La forme". Partindo de "formas da forma", Andler discute percepção e reconhecimento das formas; formalização, estruturalismo e informação e encerra a análise comentando como atingir uma teoria das formas naturais.

A "Conclusion" é muito interessante. Registra que a obra se tornou possível graças aos seminários interuniversitários de filosofia da ciência, realizados entre 1991 e 2001, em diversos locais, até se fixarem na École Normale Supérieure. Acima de tudo, porém, ressalta alguns pontos que convém mencionar e enumero a seguir. 1) Não tem sentido opor "filosofia" e "ciência". 2) Não há uma correta maneira de fazer filosofia da ciência — embora haja muitas incorretas maneiras de praticá-la. 3) Os problemas epistemológicos serão melhor investigados mediante formação dupla, filosófica e científica. 4) No século XX, a pesquisa tornou-se coletiva, apoiada por grandes planos militares e civis, exigindo análises de ordem filosófica. Este ponto é mais minuciosamente comentado, lembrando-se que a Segunda Guerra Mundial colocou problemas de aceitabilidade social das pesquisas científicas, exigindo reflexões a respeito dos limites a fixar para a pesquisa, em nome da dignidade humana. 5) Avanços científicos sempre tiveram reflexos sobre o pensamento filosófico. (Recorde-se o dito na entrada da Academia de Platão, "Aqui não entre quem ignore geometria.") A filosofia dos tempos clássicos foi erigida sobre visão do mundo transformada pela ciência de Galileu e Newton. No século passado, as conquistas da ciência redundaram em nova cosmologia, afetando a antropologia, a moral, a religião e as ações políticas.

Efetivamente, são notáveis os avanços da ciência — caos e determinismo; Gödel e formalismo; neuropsicologia e corpo-mente, genoma e transgêncos... A realidade dos congressos científicos internacionais refuta as teses radicais dos relativismos culturais. Todavia, é preciso lembrar que a geração do "mundo" (em que seres humanos devem sobreviver) requer mais do que ciência. A especulação filosófica é a "respiração" da ciência.

Leônidas Hegenberg
Instituto Brasileiro de Filosofia
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte