A Pomba, de Patrick Süskind

Sensual deleite

Maria João Cantinho
A Pomba, de Patrick Süskind
Tradução de Teresa Balté
Presença, 1987, 92 pp.

Sem ser um estranho entre nós, Süskind é sobretudo conhecido pelo seu fabuloso romance O Perfume. Depois do sucesso ímpar dessa obra, Süskind caiu um pouco no esquecimento, como é frequente acontecer nos casos dos "fenómenos" literários. Quando isso ocorre, o autor sofre a injustiça de ser conhecido por um único romance. Essa é uma das razões que me leva a escrever a recensão, para que não se esqueça o inimitável talento de Süskind, já sem referir a obra O Verão do Senhor Sommer, também publicada entre nós. A outra razão é o próprio conto, A Pomba. Sem querer ferir a susceptibilidade dos amantes de Kafka, eu colocaria A Pomba ao mesmo nível de A Metamorfose.

Quando Noel, protagonista central da obra, se prepara para começar mais um dia na sua vida, um dia igual a tantos outros, encontra uma pomba, que o observa, esperando-o. Esse facto desencadeia uma queda do homem no universo do inumano, precipitando a tragédia de Noel, que poderia ser qualquer um de nós. Eis que o horror e o caos, sob a forma do absurdo, nascem inexplicavelmente da mais inocente realidade: um dia normal que acaba de começar. E se, em A Metamorfose, a tragédia do protagonista principal reside na sua transformação física num ser abjecto, sob a forma de um repugnante insecto, a tragédia de Noel não reveste uma forma física e exteriorizada, mas sim, uma metamorfose interna e igualmente inumana. E, tal como em A Metamorfose, o absurdo rompe, instalando uma fissura no plano da realidade, conduzindo-nos à impossibilidade de um regresso à normalidade.

A aparente ingenuidade com que Süskind nos conduz no patético percurso de Noel pelas suas desventuras, mascara uma visão cínica e aguda da sociedade em que vivemos, alertando-nos para as suas armadilhas. Ninguém se encontra a salvo. É tudo seguro enquanto não nos aparece uma pomba, ou seja, um olhar que nos revolva as entranhas de tal forma que sejamos obrigados a rever toda a nossa visão sobre o mundo. E esse olhar pode surgir a qualquer momento, revelando-nos a frivolidade e a vacuidade da nossa existência, o seu lado inumano e, por isso, insustentável. No entanto, o tom de paródia que Süskind imprime à sua obra transforma-a num objecto de puro e sensual deleite, propício às leituras de Verão, aligeirando o seu lado mais sombrio.

Maria João Cantinho
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte