O Ponto de Vista da Cegueira, de Paul De Man
Livros

A suspensão da cegueira

Maria João Cantinho
O Ponto de Vista da Cegueira, de Paul De Man
Trad. de Miguel Tamen
Angelus Novus & Cotovia, 1999, 311 pp.

Apesar da importância de um autor como Paul de Man, no âmbito da crítica e teoria literária, é confrangedora a ausência de obras traduzidas deste autor em Portugal. Existe uma tradução da sua obra A Resistência à Teoria (Edições 70, 1989) e, desta vez, é a chegada desta obra, cuja tradução foi levada a bom porto por Miguel Tamen. A prosa demaniana, com efeito, não é fácil, exigindo um domínio da sua obra para que a tradução possa ser fiel. A razão também parece dever-se à escassa influência que este autor exerce sobre o meio literário nacional, mais disponível para acolher autores como Roland Barthes, Todorov e outros pertencentes às escolas francesas da crítica e estética literárias.

Expoente máximo do New Criticism, Paul de Man tornou-se conhecido, sobretudo, em solo norte-americano, onde chegou a ser um crítico de grande influência nos circuitos literários. Porém, a sua importância decresceu e sofreu um sério sobressalto quando, após a sua morte, em 1983, foi descoberta a existência de uma série de artigos contendo ideias anti-semitas, publicados em jornais belgas, entre 1939 e 1943. Nos Estados Unidos, a descoberta fez estalar a controvérsia e uma forte contestação à sua obra. No entanto, tal como aconteceu com outros autores, como Heidegger, em nada esse facto pode retirar a importância objectiva da sua obra.

A tradução de Blindness and Insight converte-se num desafio ao tradutor, devido à dificuldade da tradução do termo "Insight". Revela-se, desde logo, a oposição dialéctica do título, entre cegueira e ponto de vista. É de acordo com a perspectiva da suspensão da cegueira, que a obra demaniana nos é apresentada. Trata-se de perceber a leitura como acto essencial, guiada pela ascese, reduzindo e depurando a obra e os autores, procurando delinear um esquema que é marcado pelos seus elementos essenciais. Porém, para realizar essa ascese, procura localizar-se um "ponto cego" do texto, aquele que organiza o espaço da visão que nele se encontra contido, definindo as suas figuras esquemáticas, os processos operatórios utilizados, as galerias de personagens e os géneros literários em questão.

Quanto aos artigos que constituem o cerne da obra, todos eles são notáveis e importantes para a compreensão da história dos géneros literários, pois De Man guia-nos a leitura do romance e da poesia lírica moderna, facilitando-nos determinadas chaves de compreensão que se tornaram incontornáveis na crítica e análise literária actuais. Conceitos como o de retórica, de símbolo, alegoria, analogia, ironia, por exemplo, convertem-se em focos de sentido, a partir dos quais irradia a compreensão dos géneros literários, das várias obras e autores por ele analisados.

Abrindo com o artigo Crítica e Crise, Paul de Man confronta-nos com a questão da utilidade e da pertinência da crítica literária, bem como do seu valor. A constante aparição do termo "crise" faz suspender a legitimidade dos critérios para a avaliação das obras, minando o fundamento da sua possibilidade. A subjectividade da crítica literária e a disparidade de "críticas" e de perspectivas/correntes emergindo no seio da história da literatura e da crítica arrasta, com efeito, a discussão ao nível do que é válido ou não estabelecer-se. Para analisar esta questão, De Man atravessa as principais correntes, distinguindo-as na sua natureza e avaliando-as. E conclui pela necessidade de um ecletismo fértil, aquele que permite descobrir a existências das obras. Esta crítica é sempre genuína e válida, tornando-se indispensável, quer se concorde ou não com ela. Essa ideia atravessa também o segundo ensaio, Forma e Intencionalidade no New Criticism Americano. No artigo Ludwig Binswanger e a Sublimação do Eu, De Man procura analisar as implicações, no campo da crítica e estética literárias, suscitadas pelos estudos de Ludwig Binswanger, famoso psiquiatra alemão e filósofo ligado ao pensamento existencialista. Partindo da análise dos pressupostos fundamentais estabelecidos por este autor num texto sobre Hendrik Ibsen, Paul de Man perspectiva o problema da consciência, comparando o referido autor com outros como Foucault, Luckács e Heidegger, para citar três casos paradigmáticos da crítica contemporânea. Lança mão, igualmente, de poetas que marcaram e subverteram os códigos e cânones da literatura e da própria crítica, como em Mallarmé e Baudelaire, bem como alguns casos igualmente importantes na poesia inglesa e americana.

Com a mesma erudição e acutilância de espírito, Paul de Man atravessa paradigmas literários, autores e correntes estéticas como Lukács, Blanchot, Poulet e Proust, demonstrando-nos, não apenas o à-vontade com que se move na diversidade dos géneros literários, como também enriquecendo substancialmente as nossas leituras desses autores, não deixando o nosso olhar indiferente.

Incontornáveis são, sem dúvida, os ensaios que De Man consagra a Proust, a Rousseau e aos protagonistas da modernidade literária, como no ensaio Poesia Lírica e Modernidade, A Rétorica da Temporalidade, abrindo "portas de acesso" à compreensão, quer da lírica moderna (Yeats, Eliot, Pound), quer do romance moderno. O autor procura, a cada momento, abrir passagens, pontos de comunidade e de afinidade, a partir de conceitos como rememoração, esquecimento, aura, niilismo, conceito de experiência e a sua perda, da linguagem como correlato dessa perda e consequente instrumentalização, alegoria e símbolo, ironia, etc. Tal como Walter Benjamin, presença tutelar e constante em De Man, defende o autor que é com Rimbaud e Baudelaire (ainda pertencentes ao século XIX) que se terá iniciado o movimento da despersonalização e da fragmentação, que se apresentam na lírica moderna subsequente. Esta posição, como é sabido, não é partilhada de modo consensual pela crítica literária e pela história da literatura.

O penúltimo artigo da obra é consagrado às exegeses de Hölderlin, levadas a cabo por Heidegger, confrontando-se este com a questão dos limites da linguagem e do próprio pensamento, constatando (e mostrando-nos) De Man a falência dos estudos de Heidegger sobre Hölderlin, tese que é observada de forma polémica pelos acérrimos defensores de Heidegger.

Ainda que alguns idólatras nos afirmem que antes de Paul de Man não sabíamos ler, é preciso reconhecer não apenas o carácter excessivo dessa afirmação, como sobretudo, a abertura (e isso é importante) que os ensaios deste autor vieram trazer para uma alteração do panorama da crítica literária, procurando realizar uma fértil fusão entre o domínio da estética filosófica e a análise literária, levada a cabo pelas várias escolas da linguagem e pelas diversas correntes da crítica literária. Paul de Man contribuiu decisivamente, juntamente com outros autores, para uma decisiva viragem do campo da estética e crítica literárias e esse facto não pode nem deve ser ignorado, sobretudo num país em que a crítica literária continua a alimentar-se e a beber a sua influência nas escolas francesas da linguagem, empobrecendo inevitavelmente o campo da análise das obras literárias e da literatura universal. Por essa razão, esta obra é claramente recomendável, a todos aqueles a quem interessa a literatura e a sua história.

Maria João Cantinho
mjcantinho@hotmail.com
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