Dicionarizar Popper

Leônidas Hegenberg
La Mia Filosofia: Dizionario Filosofico, de Karl Popper
Org. de Massimo Baldini
Roma, Armando Editore, 1997, 159 pp.

As idéias de Karl Popper conquistaram inúmeros intelectuais italianos. Muitas obras do conhecido filósofo austro-inglês — lidas e discutidas há alguns anos — passaram a ser traduzidas com certo cuidado e distribuídas em edições variadas e de preços acessíveis.

No começo de 1997, os italianos dispunham de pelo menos uma dúzia de livros de Popper, começando com Logica della Scoperta Scientifica (LSS, publicada pela Enaudi, em 1970) e culminando com Tutta la Vita è Risolvere Problemi (TVRP, da editora Rusconi, 1996).

Obras como The Open Society and its Ennemies (1945), The Poverty of Historicism (1957), Objective Knowledge (1972), algumas partes de Postscript (1982 e 83), foram publicadas na Itália, de 1975 em diante. A par disso, muitos ensaios de Sir Karl também encontraram dedicados tradutores e foram postos ao alcance dos leitores italianos que não conhecem o inglês. As idéias de Popper foram, enfim, objeto de análises variadas, entre as quais caberia citar, apenas a título de exemplo, I Filosofi Tedeschi Contemporanei, de C. Glossner (Città Nuova, 1980) e Popper e il Pungolo della Libertà, de G. Brescia (Edittrice Salentina, 1995).

Em vista dessa receptividade, a Armando Editore entregou a Massimo Baldini e Lorenzo Infantino a tarefa de organizar uma "Popperiana". A coleção, presentemente com 15 volumes, inclui, ao lado de Società Aperta e Conoscenza Oggettiva, textos que ainda não haviam sido traduzidos. Entre eles, L”io e il suo Cervello (que Popper escreveu, em 1977, com a colaboração com J. Eccles), Cercatori di Verità (dez entrevistas, fase 1970-1994) e a Autobiografia Intelectual (que Popper divulgou em 1974).

Este La mia Filosofia (que acaba de sair), foi organizado por Costanza Baldini. Não é propriamente um dicionário, mas uma coletânea de trechos retirados das obras (traduzidas) de Popper. Os trechos foram selecionados em função de certos termos-chave da filosofia de Sir Karl. Tais termos foram colocados em ordem alfabética — desde “analisi situazionale”, passando por “congetture”, falsificabilità”, “induzione”, oggettività”, até “significato” e “verosimiglianza”. Estão incluídos comentários que Popper teceu a respeito de 15 pensadores (Aristóteles, Bacon, Croce, Einstein, Gadamer, Hegel, Horkheimer, Kepler, Kuhn, Marx, Moore, Parmenides, Platão, Sócrates e Wittgenstein). Esses comentários também respeitam a ordem alfabética (inicial do autor citado), acompanhando os demais termos. Ao final de cada trecho, há uma indicação das obras (e das páginas) de que foi retirado.

Em alguns poucos excertos, caracterizam-se os significados atribuídos aos termos. Na maioria dos itens, porém, o que se apresenta é um grupo de (dois, três, ocasionalmente mais) comentários — retirados de variados locais — que gravitam em torno do que Popper disse a respeito da noção correspondente. Nem sempre esses comentários se mostram "apropriados" e há os que parecem observações "soltas" — quase insólitas para quem ainda não se tenha familiarizado com o pensamento do filósofo. Exemplificativamente, vejamos o item “Induzione” (p. 71). Temos as seguintes sentenças (recolhidas em Logica della Scoperta Scientifica, p. 349): 1) "Una teoria dell”induzione è superflua. Non ha alcuna funzione in una logica della scienza" — anotação que se presta, de fato, para lembrar um ponto que Popper acentuou muitas vezes. Na linha seguinte, 2): "Le teorie scientifiche non possono mai essere “giustificate” o verificate" — frase que, fora de contexto, pouco esclarece.

Alguns itens abrangem duas ou mesmo três páginas. A maioria é tratada em uma página ou em meia página. Entre os verbetes longos, está, por exemplo, “falsificazione”. Os seis comentários relativos a esse termo foram retirados de três das obras de Popper. (A propósito, em português distinguiríamos “falseamento” de “falsificação”, notando que o primeiro desses termos é adequado para falar das idéias de Popper, ao passo que o segundo se mostraria inadequado. Dar-se-ia o mesmo em italiano?) Um dos verbetes mais longos é “teoria” (termo cujo significado se procura esclarecer mediante uso de nada menos que doze trechos). Outros itens longos são “metodologia naturalistica”, “storicismo” e “filosofia”. O verbete “verità” requer quase três páginas. “Mondo 3” (notas retiradas de L'io e il suo Cervello) requer o mesmo número de páginas. Em oposição, o termo “essenzialismo metodologico” é comentado em cinco linhas, retiradas de Società Aperta.

Os itens “filosofia del linguaggio”, “falibilismo”, “interpretazione” e “a priori”, em três linhas, pouco ou nada esclarecem.

Em suma, é discutível o valor desta obra, para compreensão do pensamento de Popper. Mais apropriado, para esse fim, seria, digamos, o livro Popper, de Bryan Magee (Fontana, 1973). Este "dizionario" de Baldini é útil para quem deseja, em poucos minutos, rever certas asserções feitas pelo famoso pensador, relativas a alguns pontos de interesse filosófico. Nessa condição, simplificando o trabalho de situar declarações do pensador, é um trabalho de interesse.

Leônidas Hegenberg
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