O Principezinho
27 de Maio de 2006 ⋅ Livros

Sessenta anos depois

Antônio Ribeiro de Almeida
O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry
Lisboa: Presença, 2001, 95 pp.

A Editora Gallimard comemora na França, com pompa e circunstância, os sessenta anos de sua edição de O Principezinho, do conde Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944). O texto foi publicado, primeiro, em inglês e francês, nos Estados Unidos pela Raynal e Hitchcock, em 1942, com as aguarelas que Exupéry havia desenhado.

Reler este livro, que encantou a geração dos 50, é uma busca do tempo perdido em Belo Horizonte, Avenida Amazonas, Galeria Dantés onde podia encontrar o monge Dom Marcos Barbosa (1915-1997) que fez uma primorosa tradução. Hoje já foram vendidos mais de oitenta milhões de exemplares no mundo, traduzido para 160 línguas e mais recentemente para o "xhosa", uma das línguas da África do Sul. Contemplo este príncipe tão frágil, tão pequeno em cima do seu asteróide B 612, preocupado em defender suas roseiras dos terríveis boabás e relembro seu encontro, na Terra, com o piloto, cujo avião sofrera uma pane e caíra em pleno deserto do Sahara, pedindo-lhe insistentemente "Por favor... desenha-me um carneiro..." (p. 12).

Eis uma história tanto para adultos como para crianças. As crianças se encantarão com aquele príncipe que conversava com as rosas, com as raposas e até com a serpente que irá picá-lo mortalmente. E os adultos? Os adultos viajarão com ele nos seis asteróides e visitarão o Rei, o Vaidoso, o Bêbado, o Empresário, o Acendedor de Lampiões e o Geógrafo. A cada um destes tipos o pequeno príncipe faz perguntas que questionam por que vivem de uma forma tão pouco humana. O Rei vivia a pensar que todo mundo era um súdito; o Vaidoso acha que todos o admiram e está sempre a pedir aplausos. O Bêbado é a mais trágica figura porque bebe para esquecer que bebe. O Empresário está sempre a fazer contas de somar e multiplicar para aumentar sua riqueza. Ele se julga tão sério que não pode perder tempo, pois "time is money". E na ambição desmedida ele se diz dono das estrelas e quando o príncipe lhe pergunta "E que fazes com essas estrelas?" a resposta é "Nada. Eu as possuo." O Acendedor de Lampiões é o típico homem pósmoderno que vive nas metrópoles , num planeta que o obriga a acender e apagar o lampião sem descanso porque o planeta roda mais depressa e a seqüência noite-dia é cada vez menor. Apaga-acende-apaga-acende. Vejo aí uma lembrança de Chaplin, Tempos Modernos, quando o operário enlouquece porque a esteira aumenta de velocidade e ele, humanamente, não consegue mais atender às exigências de produção. Finalmente, o geógrafo ilustra todos os teóricos do mundo que incitam as universidades e os governos a experimentarem teorias econômicas, biológicas e de mutação genética.

Quando o piloto assiste à mortal picada que a serpente desferiu contra o pequeno príncipe, escreve que ele não gritou e tombou suavemente sobre a areia. A fábula não termina aqui. O piloto, no raiar do dia seguinte, não encontrou o corpo do pequeno príncipe. Não explica este fato e enquanto viveu continuou a olhar as estrelas na esperança que o seu príncipe teria ido para uma delas. Na última aguarela do seu livro, Exupéry mostra apenas uma estrela, e, com dois riscos, um cenário que nos lembra outro cenário, onde, numa estrebaria nasceu há dois mil anos outro príncipe.

Antônio Ribeiro de Almeida
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