Quarentena
8 de Agosto de 2004 ⋅ Livros

O egocentrismo de Jesus

Desidério Murcho
Quarentena, de Jim Crace
Tradução de Maria do Rosário Monteiro
Lisboa: Gradiva, 1999, 222 pp., 13,00 €
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Os Evangelhos referem que Jesus foi para o deserto onde jejuou quarenta dias e quarenta noites, tendo resistido às tentações do diabo durante esse período. Este pequeno romance de Jim Crace relata as desventuras de um grupo de 4 viajantes e de um casal de comerciantes; Jesus é uma presença constante mas diáfana. Os viajantes vão para o deserto jejuar e rezar durante o dia, cumprindo a quarentena da tradição religiosa; o casal de comerciantes foi abandonado no deserto pelos seus familiares. Musa, marido de Miri, está a morrer.

Musa é um homem brutal, mentiroso, traiçoeiro e perverso. A maior parte do romance descreve as relações que Musa estabelece com os viajantes que vêm para aquele local cumprir a quarentena. Jesus não estabelece relações com qualquer deles, excepto no início, em que tem um breve contacto com Musa. E nesse contacto, sem se dar conta, Jesus opera um milagre e salva a vida de Musa. Uma vida detestável, cuja morte seria uma bênção para a mulher, que ele sempre maltratou, e para os viajantes, que Musa vai explorar.

A narrativa é desprendida, irónica e impassível. Veja-se logo o primeiro parágrafo:

O marido de Miri gritava enquanto dormia, não palavras que ela pudesse reconhecer, mas antes simples e claras manifestações de sofrimento. Quando, por fim, acendeu uma candeia para descobrir o que o atormentava, viu que ele tinha a língua preta — ressequida e enfarruscada. Miri sentiu o cheiro da morte no hálito dele, ouviu o crepitar do fogo da morte na sua tosse. Colocou a mão sobre o peito liso do marido; estava húmido e quente, como pão fresco. O marido, Musa, estava a ser cozinhado vivo. Boas notícias.

Com o infeliz milagre de Jesus, Musa retoma a sua detestável vida. Os viajantes são explorados, maltratados e um deles, uma mulher, é violada. Tudo isto acontece enquanto Jesus, numa caverna mais distante, continua impassível o seu jejum, sonhando com milagres e com Deus.

Jesus é descrito como um jovem ávido de Deus que desconhece a sua verdadeira natureza divina. Algumas incursões no passado dão-nos conta da relação de Jesus com os seus pais. Estes não toleram o seu ar distante, as suas orações fervorosas e constantes, a sua conversa mística. Numa das passagens mais memoráveis, José vai aconselhar-se com um sacerdote sobre os problemas que Jesus lhe trás. O sacerdote era

um homem subtil e subversivo, que compreendia os fervores e as exaltações dos jovens e gostava da companhia de jovens menos pios que Jesus. Entendia as orações balbuciadas como um hábito irritante nos rapazes, como as fungadelas e os assobios. Recomendou que as devoções de Jesus fossem desencorajadas de forma mais activa. […] “Dêem-lhe mais coisas que fazer em casa. […] Não tenham vergonha de usar a chibata. Ele abandonará esse hábito assim que lhe começar a crescer barba. É da idade.”

É de uma finíssima ironia comparar os fervores místicos de Jesus com as atitudes provocadoras dos adolescentes. E esta é a direcção irónica do romance: com uma linguagem terra-a-terra, descreve as misérias e as dificuldades quotidianas de gente prática, contrastando tudo isso com a presença inefável de um Deus invisível, e do seu filho inocente e meio louco. A religião, Deus e Jesus surgem-nos como elementos sem qualquer relação com o bem e o mal. Ao lado de Jesus desenrola-se um drama humano, e ele não se dá conta e não intervém; Jesus é efectivamente filho de Deus, mas isso não tem nele qualquer efeito moral; Musa, um homem brutal e perverso, leva a melhor sobre toda a gente; e a religião não passa de um conjunto de palavras e hábitos vãos, gestos automáticos desprovidos de significado moral.

O romance lê-se com sofreguidão e é por vezes até irritante a impassível e irónica narrativa do drama que se vai desenrolando. Mas essa é afinal a marca de um autor que sabe dominar a sua escrita, imperturbável, até ao incrível fim. Admirável.

Desidério Murcho
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