Quéops e a Pirâmide do Sol, de Guy Rachet
Livros

O irmão de Quéops

Desidério Murcho
Quéops e a Pirâmide do Sol, de Guy Rachet
(O Romance das Pirâmides I)
Tradução de Fernanda Frazão
Editorial Bizâncio, Lisboa, 1998, 270 pp.

A civilização egípcia subsistiu durante cerca de 3500 anos e constitui um exemplo claro da fragilidade das civilizações: depois de um tão longo período, extinguiu-se, perdendo-se todas as suas conquistas civilizacionais. Uma lição para os que admitem sem discussão nem reflexão que a nossa civilização está para ficar.

Os romances de Christian Jacq, que têm o Egipto antigo como pano de fundo têm sido um grande sucesso a nível mundial e despertaram o interesse do leitor leigo para essa grande civilização. Infelizmente, os romances de Jacq são pouco mais que mentecaptos. A nova Editorial Bizâncio acaba agora de publicar este romance de Guy Rachet, um egiptólogo francês que corresponde às expectativas que Jacq frustrou: um romance que nos prende, com personagens densos e uma narrativa inteligente, ao mesmo tempo que nos ensina algo sobre essa grande civilização. Historicamente, pouco se sabe de Quéops, apesar de nos ter deixado, literalmente, um dos maiores vestígios históricos de sempre: a enorme pirâmide de Queóps, que hoje para nós simboliza o Egipto antigo.

Todo o romance se desenrola durante a juventude de Quéops, antes de este ascender a faraó. Rachet dá-nos uma visão deliciosa e extremamente convincente da vida familiar egípcia, das suas cidades, da sua política e da sua organização social e religiosa, assim como dos seus povos. O romance detém-se talvez excessivamente na intriga política, que no entanto talvez tenha feito realmente parte da vida das cortes egípcias. Quéops é o herdeiro legítimo de Sneferu, o faraó seu pai. No entanto, no antigo Egipto, o faraó tinha de designar o seu sucessor: a sucessão filial não estava garantida. A intriga do romance desenvolve-se em torno do irmão de Quéops, Neferu, que, não sendo o legítimo herdeiro da coroa, a ambiciona fortemente. Sucede-se uma série de tentativas de assassínio, primeiro na pessoa de Queóps e depois na do próprio faraó Sneferu. Mas a sua origem não é clara, pois seria demasiado arriscado para Neferu ordenar tais actos.

Uma leitura contagiante e que nos ensina ao mesmo tempo qualquer coisa sobre essa grande civilização que um dia se julgou eterna. A tradução e a revisão são de alta qualidade. A nova Editorial Bizâncio está de parabéns e augura um futuro radioso. Resta agora esperar pelos restantes romances desta série.

Desidério Murcho
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