O Ratinho, a Mosca e o Homem
Livros

Nada a temer da verdade

Orlando Tambosi
O Ratinho, a Mosca e o Homem, de François Jacob
Tradução de Margarida Sérvulo Corrreia
Revisão científica de Leonor Parreira
Gradiva, 1997, 183 pp.
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O Rato, a Mosca e o Homem
Trad. de Maria de Macedo Soares Guimarães
Companhia das Letras, 1998

Quem imagina que os cientistas da natureza sejam apenas frios e rabugentos técnicos de laboratório deve prestar atenção nos livros de divulgação — escritos por cientistas — lançados nos últimos anos no Brasil e há vários em Portugal. Um filão que algumas editoras brasileiras enfim descobriram, depois de passar mais de uma década impingindo ao leitor (as exceções são raras) exclusivamente a ilusão das pseudociências, do misticismo "esotérico", da auto-ajuda e das superstições.

O livro "O Ratinho, a Mosca e o Homem", do biólogo e geneticista francês François Jacob, é um exemplo de que, rabugentos à parte, cientistas preocupados também com a divulgação do conhecimento podem escrever com clareza, elegância e poesia sobre assuntos tão complexos como a genética e a biologia molecular.

Com Jacques Monod e André Lwoff, Jacob recebeu em 1965 o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, por seus estudos sobre a estrutura genética e a reprodução das bactérias (o modelo "operon", que resumia os conhecimentos sobre mecanismos da síntese protéica). O próprio Monod, aliás, é autor de uma obra polêmica sobre as implicações filosóficas e políticas da biologia moderna: "O Acaso e a Necessidade" (Petrópolis, Vozes, 1971).

Jacob, igualmente autor de um clássico sobre a história da biologia ("A Lógica da Vida", 1970, com trad. portuguesa da Publicações Dom Quixote, de Lisboa, 1985), oferece neste livro uma pequena história da genética, iluminada com exemplos da mitologia grega, da estética e da literatura. Sem esquecer, é claro, das questões éticas postas pelo recente desenvolvimento da engenharia genética. Quais devem ser os limites?

"O perigo para o cientista", alerta Jacob, "é não medir os limites de sua ciência. É misturar o que ele crê e o que ele sabe". Mas nem por isso ele propõe que se interrompa a busca do conhecimento. Ao contrário, essa busca é indissociável da espécie humana, e, "para o ser humano, buscar compreender a natureza faz parte da natureza".

O problema não está na pesquisa científica, na ciência como processo de conhecimento — que é um processo sem fim e sujeito ao imprevisível —, mas na aplicação final dos conhecimentos. Portanto, nada a temer da verdade, venha ela da genética ou da física. Para Jacob, o que se deve temer é a "deformação dos resultados", a "distorção do sentido que lhes damos". A sociedade deve controlar a aplicação, que não deve ser decidida apenas pelos cientistas.

Não há, então, limites para a investigação científica? Jacob exclui dessa busca, com razão, apenas um domínio: o que se refere à origem do universo, ao significado ou "sentido" da condição humana, ao "destino" ou "finalidade" da vida humana. Sobre isto, a ciência nada tem a dizer. Não que estas questões sejam fúteis. Cedo ou tarde, reconhece o biólogo, todos nós pensamos nelas. Mas elas "têm a ver com religião, metafísica, até poesia. Nenhuma ciência pode trazer respostas a tais perguntas".

Quanto ao ser humano, uma melancólica constatação e uma esperança. "Somos", define Jacob no último parágrafo do livro, "uma temível mistura de ácidos nucléicos e lembranças, de desejos e de proteínas. O século que termina ocupou-se muito de ácidos nucléicos e de proteínas. O seguinte vai concentrar-se sobre as lembranças e os desejos. Saberá ele resolver essas questões?"

Orlando Tambosi
o.tambosi@uol.com.br
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