Crítica da Razão Ausente
28 de Abril de 2004 ⋅ Livros

O pior inimigo da ciência

Desidério Murcho
Crítica da Razão Ausente, de António Manuel Baptista
Lisboa: Gradiva, 2003, 200 pp., €13
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António Manuel Baptista prestou um serviço inestimável na divulgação da ciência. Por vários meios, nomeadamente através dos seus célebres apontamentos radiofónicos na RDP 2, António Manuel Baptista deu-nos a conhecer as últimas novidades da ciência e estimulou gerações de jovens a descobrir-lhe as maravilhas. Antes ainda de existir o fenómeno português e mundial da divulgação científica, já este maravilhoso contador de histórias da ciência nos deslumbrava e despertava para a ciência. É justo dizer que os portugueses contraíram uma pesada dívida para com António Manuel Baptista.

Contudo, a reacção de António Manuel Baptista aos ataques que a ciência tem sofrido pelo pensamento pós-modernista e relativista tem sido lamentável, desde a primeira hora. Aquando da publicação do seu livrinho O Discurso Pós-Moderno Contra a Ciência (Gradiva, 2002), no qual reagia de forma impulsiva, ofensiva e irreflectida ao livro Um Discurso sobre as Ciências, de Boaventura Sousa Santos (Afrontamento, 1999), com certeza que muitos dos seus admiradores pensaram que a reacção virulenta era compreensível, apesar de indesejável. Esperávamos a mesma bonomia e inteligência a que estávamos habituados nas suas intervenções ao longo de anos de vida pública em prol da ciência, e em vez disso vimos uma faceta nada agradável no venerável cientista. Mas a reacção era compreensível, pois a maior parte dos cientistas desconhecem a campanha anti-ciência e anti-racionalidade que corre na maior parte dos departamentos de filosofia, ciências sociais, antropologia, teoria da literatura, etc. Compreende-se que qualquer pessoa com uma boa formação académica que desconheça os disparates da ovnilogia, da bruxaria, da astrologia, etc., comece por ter uma reacção virulenta quando descobre que há pessoas que levam estas fraudes a sério. Contudo, a atitude mais correcta, e a única realmente útil, é a que têm autores como Carl Sagan ou Alan Sokal e Jean Bricmont: sem ataques pessoais, sem ofensas, de forma reflectida e pausada, estes autores argumentam de forma imparcial e límpida, mostrando por que razão todas essas fraudes da razão são insustentáveis. É verdade que é necessária uma grande dose de bonomia, tolerância, paciência — mas outra coisa não é de esperar de quem defende, precisamente, a racionalidade, e que tem tudo a perder quando nos lançamos cegamente em cruzadas irracionais. Assim, muitos leitores devem ter pensado que a primeira reacção de António Manuel Baptista era compreensível, ainda que incorrecta. O problema é que este respeitado divulgador nunca passou da primeira reacção — e brinda-nos agora com outro livro igual ao primeiro em superficialidade, e pior em grau de ofensa, incapacidade para discutir ideias e incapacidade para apresentar ideias centrais importantes. Em suma, António Manuel Baptista é hoje em Portugal o pior inimigo da ciência.

Para que não se pense que estas palavras são uma reacção ao modo ofensivo como António Manuel Baptista me trata repetidamente ao longo do seu livro, adianto desde já que é lisonjeiro ser objecto de intensa atenção. E contivesse este livro apenas ofensas e disparates relativamente ao que escrevo, às minhas ideias e à minha profissão — filosofia, esse horror — eu abster-me-ia de fazer esta crítica ao seu livro. Mas o problema é que António Manuel Baptista ofende todas as pessoas com as quais não concorda, por vezes violentamente, e aceita acriticamente as palavras de todo e qualquer autor que tenha algo a dizer que concorde, ainda que vagamente, com o que afirma. Não estamos perante um livro que prossegue um debate racional; estamos perante o registo escrito de uma gritaria de peixaria, que recorre a inúmeros pontos de exclamação — por vezes até a três pontos de exclamação como é costume ver nos estudantes quase analfabetos que querem marcar por escrito que estão na verdade a gritar —, nenhumas ideias articuladas, vagueza e indefinição, tudo com muitas reticências, para marcar piscadelas de olho as mais das vezes ofensivas. A única ideia que se defende, defende-se mal: que a ciência (que para António Manuel Baptista não inclui a matemática) é fixe e o resto um disparate, que Boaventura Sousa Santos pertence a uma quadrilha de malfeitores e devem ser rapidamente expulsos do país e eventualmente condenados a trabalhos forçados.

Eu acho que as ideias de Boaventura Sousa Santos, assim como de Eduardo Prado Coelho e muitos outros, estão erradas e são perniciosas para o desenvolvimento cultural e educativo de qualquer país. Acho que os relativismos cognitivos estão profundamente errados e acho deplorável que em tantos departamentos de ciências sociais e de humanidades se formate estudantes acríticos para odiar a ciência e a racionalidade, que sempre foram e continuarão a ser a melhor esperança da humanidade para um futuro melhor e mais humano. Por exemplo, os autores pós-modernistas e relativistas cometem sistematicamente a mesma falácia que ensinam os seus estudantes a cometer. Como expliquei no livro O Lugar da Lógica na Filosofia, entende-se por "investigação", nestes meios, o que não passa de uma forma sofisticada de usar falácias do apelo à autoridade. O processo é o seguinte: escolhem-se os autores de que se gosta, porque concordam com o que queremos defender, e usamo-los como argumentos últimos; omitem-se autores igualmente importantes que defendem o que não gostamos; e em todo este processo nunca se defendem directamente, como se deveria, as ideias relevantes com argumentos sólidos. Acho tudo isto intelectualmente inaceitável. Mas jamais me passaria pela cabeça ter a atitude de António Manuel Baptista, que consiste em ofender, ironizar e parodiar. O que conta, que é explicar de forma muito clara por que razão as ideias centrais de Boaventura Sousa Santos e outros autores afins estão erradas, fica sempre por fazer. Percorre-se página após página e não encontramos — como acontece em bons livros, como Um Mundo Infestado de Demónios, de Carl Sagan — a crítica paciente de ideias que não têm qualquer hipótese de resistir à discussão racional. Na melhor das hipóteses, encontramos umas frases de António Manuel Baptista que esclarecem pequenos aspectos, mas tais frases estão de tal modo rodeadas de insultos, ofensas e ironias, que não há paciência para procurar por entre tanto fel meia dúzia de ideias e argumentos que ainda por cima estão longe de ser subtis ou bem pensados. Comparado com este, o livro de Jorge Dias de Deus, Da Crítica da Ciência à Negação da Ciência (Gradiva, 2003), que me surpreendeu pela ingénua superficialidade, é uma pérola, pois faz o que é obrigatório fazer: não ofende, responde com argumentos, esclarece, ensina, quer discutir ideias e não esgrimir ofensas.

António Manuel Baptista escreveu mais um conjunto solto de folhas a quem nem se pode chamar um livro, pleno de tudo o que não devia ter e falho de tudo o que devia ter. Na verdade, trata-se de uma recolha de vários artigos e entrevistas publicadas pelo autor em vários jornais. Como os artigos são todos praticamente iguais — ofensa e mais ofensa —, se o leitor não gostou desses artigos, vai gostar ainda menos do livro. Há livros muito bons sobre a chamada guerra das ciências, há mais livros ainda que esclarecem os aspectos centrais das ciências, e são esses livros que urge ler. Os livros de António Manuel Baptista fazem qualquer pessoa que defenda a racionalidade, a objectividade e a ciência sentir-se envergonhada por estar no mesmo campo do seu autor.

Desidério Murcho
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