O Rio que Saía do Éden
6 de Agosto de 2003 ⋅ Livros

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?

Desidério Murcho
O Rio que Saía do Éden, de Richard Dawkins
Temas e Debates, 2002, 174 pp., 14,96 €

Richard Dawkins nasceu em Nairobi (Quénia) em 1941. Licenciou-se na Universidade de Oxford em 1962, onde também se doutorou. Deu aulas de zoologia na Universidade da Califórnia, em Berkeley, entre 1967 e 1969. Regressou à Universidade de Oxford em 1970, onde dá aulas desde então, no New College. Em 1976 publicou o seu primeiro livro: O Gene Egoísta (publicado entre nós pela Gradiva). Em 1995 passou a reger a Cadeira Charles Simonyi para a Compreensão Pública da ciência, na Universidade de Oxford. À excepção de The Extended Phenotype (1982), todos os seus livros estão publicados em Portugal: O Relojoeiro Cego (Edições 70), Decompondo o Arco-Íris (Gradiva), A Escalada do Monte Improvável (Gradiva) e O Rio que Saía do Éden, que a Temas e Debates acaba de publicar. Em 1987 O Relojoeiro Cego valeu a Dawkins o Prémio da Real Sociedade de Literatura e o Prémio Literário do jornal Los Angeles Times. Com base neste livro, a televisão britânica produziu um documentário que ganhou o Prémio de Ciência e Tecnologia Para o Melhor Programa de Ciência de 1987. Em 1989 ganhou a Medalha de Prata da Sociedade Zoológica de Londres e em 1990 o Prémio Michael Faraday da Real Sociedade. Em 1994 ganhou o Prémio Nakayama para as Ciências Humanas e em 1995 a Universidade de St. Andrews outorgou-lhe um doutoramento honoris causa em literatura. Ganhou ainda o Prémio de Humanista do Ano em 1996, tornando-se desde então vice-presidente da Associação Humanista Britânica, à qual pertencem também Simon Blackburn e A. C Grayling. Em 1997 foi eleito Membro da Real Sociedade de Literatura.

Para quem não conhece Dawkins O Rio que Saía do Éden é provavelmente o melhor livro para entrar no seu mundo (e depois pode continuar com os outros livros e também com www.world-of-dawkins.com). O metafórico rio do título refere-se ao fluxo de ADN que se vai autocopiando ao longo da história da vida no nosso planeta. Ao longo de 174 pequenas páginas, Dawkins explica os mecanismos fundamentais da evolução biológica. Mas não se pense que este é um livro técnico e maçador, cheio de fórmulas e listas de factos. Nada disso. É antes um livro empolgante e intrigante, que faz pensar e compreender melhor o que é um ser humano. Na verdade, esta é uma leitura obrigatória para todas as pessoas que alguma vez formularam as perguntas clássicas "Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos?". As respostas a estas perguntas não se encontram apenas nas artes e na poesia, na literatura e nas humanidades; encontram-se também na ciência. Aliás, toda a divisão profunda entre estas actividades humanas é falseadora e redutora. Seria muito estranho que a curiosidade suscitada por estas perguntas clássicas fosse compartimentada, fechada, cega — a ponto de não provocar qualquer interesse pelo que a biologia evolucionista tem para nos ensinar sobre a nossa natureza última.

O livro está dividido em 5 pequenos capítulos, que se lêem num ápice. O perfeito domínio da biologia permite a Dawkins um feito espantoso: se nada sabe da teoria da evolução, se quer saber, e se não tem tempo, pode limitar-se a ler as primeiras 3 páginas do capítulo 1 ("O Rio Digital") — e ficará com uma ideia fiel da teoria da evolução. O rio digital do título refere-se ao facto fascinante de o modo como a informação genética é copiada, quando os organismos se reproduzem, ser digital. Isto significa que a informação tem de ser codificada como num CD de música, e ao contrário do que acontecia nos antigos discos de vinil, que eram analógicos. O grande problema dos sistemas analógicos de armazenamento de informação é o facto de se degradarem terrivelmente quando são copiados — experimente fazer uma fotocópia desta página, e depois uma fotocópia dessa fotocópia, e assim sucessivamente, uma dezena de vezes. Como as fotocópias são analógicas, ao fim de algumas cópias será incapaz de ler este texto. Mas se usar o seu computador para fazer uma cópia de um CD, e depois copiar essa cópia e também esta última cópia, verifica que obtém sempre o mesmo resultado: a cópia é imensamente fiel. Assim acontece com os seus genes, que foram fielmente copiados dos genes dos seus pais, que por sua vez foram fielmente copiados dos pais dos pais deles, e assim sucessivamente até ao primeiro organismo que surgiu na Terra. Mas apesar da quase perfeição das cópias digitais, ocorrem pequenos erros. Esses pequenos erros são o motor da evolução das espécies. Ao longo de biliões de cópias e milhões de anos, esses pequenos erros dão por vezes origem a vantagens evolutivas: características que permitem ao organismo deixar mais descendentes porque sobrevive melhor.

Não se pense, contudo, que este livro trata, estritamente, de biologia. Dawkins é um cientista e um professor universitário inteligente, aberto e atento às ideias do nosso tempo. Uma dessas ideias é o pós-modernismo, com o seu relativismo, que defende ser a história da vida contada pela biologia apenas mais um mito, apenas mais uma história das origens, a par do Génesis bíblico ou dos milhares de mitos das origens que todas as comunidades humanas acalentaram ao longo da história. Com o seu modo muito directo, Dawkins declara: "Mostrem-me um relativista cultural a trinta mil pés de altitude e eu mostro-vos um hipócrita" (pág. 45). O argumento de Dawkins é ingénuo, mas parcialmente correcto: as teorias relativistas e pós-modernistas têm de enfrentar o facto de a história da vida contada pela biologia ser confirmada por inúmeros dados e observações, além de que se tudo fosse uma construção humana ad libitum seria muito bizarro que nos tivéssemos dado ao trabalho de ter inventado a tuberculose ou a constipação, para não falar nos dentes podres e nas pernas partidas.

Este livro aborda ainda as relações entre a ciência e a religião; ao contrário de Stephen Jay Gould, que defendeu "magistérios separados", Dawkins defende que a religião é apenas uma forma deficiente de procurar compreender o mundo e nós mesmos: "A ciência partilha com a religião a pretensão de responder a questões profundas sobre as origens, a natureza da vida e do cosmos. Mas a semelhança acaba aqui. As crenças científicas baseiam-se em provas e obtêm resultados, ao contrário dos mitos e da fé" (pág. 46). O capítulo 2 ("Toda a África e suas Descendências") é dedicado à teoria de que a vida humana teve origem em África. Com impressionante mestria, Dawkins mostra em que dados se apoia esta teoria, quais são os seus pontos fracos e quais são os seus pontos fortes. E mostra que a história contada pela biologia é muito diferente das histórias religiosas, desde logo porque interrogar cepticamente as últimas é sinal de desrespeito e blasfémia, ao passo que interrogar cepticamente as primeiras é a condição sine quanon da própria prática científica de qualidade.

Os capítulos 3 e 4 ("Façam Bem em Segredo" e "A Função de Utilidade de Deus") são devastadores, fascinantes e iluminantes. Devastadores, para quem continua a pensar que a grande beleza e harmonia observadas na natureza são sinais da existência de uma divindade criadora. E são fascinantes e iluminantes porque nos dão uma perspectiva única sobre a natureza última do mundo.

O quinto e último capítulo resume a história da vida, integrando-a na história mais geral do universo, dando uma visão do que será o futuro da vida humana. É um finale perfeito para um livro abrangente mas sintético, elegante, profundo, informativo e fascinante.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (25 de Janeiro de 2003).
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