[an error occurred while processing this directive] [an error occurred while processing this directive] A Queda de Roma e o Fim da Civilização
3 de Agosto de 2006 ⋅ Livros

O fim de uma civilização

Desidério Murcho
A Queda de Roma e o Fim da Civilização, de Bryan Ward-Perkins
Tradução de Inês Castro
Alêtheia Editores, 2006, 306 pp.

A mesmíssima mentalidade que aplaude a prisão do historiador David Irving por negar o Holocausto tem de aplaudir os que negam a queda da civilização romana, e pelas mesmas razões: não é "politicamente correcto". Que seja verdade que o Holocausto existiu e falso que a civilização romana não tenha sido destruída pelos bárbaros é irrelevante. A liberdade de expressão é uma ilusão se não incluir a liberdade para dizer o que é globalmente tido como falso.

O historiador Bryan Ward-Perkins é membro do Trinity College de Oxford, co-organizou o vol. XIV da obra The Cambridge Ancient History e é autor do livro From Classical Antiquity to the Middle Ages. Nesta obra, dirigida ao grande público, apresenta as razões centrais para defender a posição hoje proibida de que, de facto, a civilização romana foi destruída pelos bárbaros. A ideia multiculturalista e relativista agora em voga é que não se deve usar o termo "civilização", que sugere superioridade moral; não se deve pensar que a sociedade dos diferentes povos que invadiram o império romano era inferior, em qualquer aspecto, à sociedade romana; nem se deve pensar que a integração dos inadequadamente chamados "bárbaros" foi violenta — foi antes uma "movimentação de populações", que se integraram e que mudaram, mas não pioraram, o tecido cultural, económico, social e político do mundo antigo. Assim, em vez de se falar de idade das trevas, fala-se de antiguidade tardia. Bryan Ward-Perkins apresenta diversos dados e razões para pensar que esta posição é insustentável, por mais que seja politicamente correcta (é a posição da União Europeia e da European Science Foundation). Assim, se pegar a moda de prender historiadores que defendem o que não é politicamente correcto, Ward-Perkins tem os dias contados.

Este é um livro sóbrio, distanciado e objectivo, tratando com enorme bonomia e cortesia as posições que o autor pretende refutar — o que só por si é uma vitória do espírito humano. Recorrendo a dados arqueológicos e estudos pormenorizados, o autor mostra que em muitos aspectos a queda do império romano representou um retrocesso civilizacional de séculos — houve realmente uma idade das trevas. Ao invés de se deter nos grandes feitos de engenharia, por exemplo, ou na produção cultural, o autor argumenta que uma das marcas de um grau elevado de sofisticação civilizacional é a especialização do trabalho e a distribuição de bens correntes em grande escala e a preços baratos. E isso é precisamente o que se verifica durante o império romano, desaparecendo de seguida: uma vasta rede de distribuição de produtos baratos de grande consumo, acessíveis ao povo mais humilde. Com a queda do império, os únicos artigos que viajam grandes distâncias são luxos da nova aristocracia de origem bárbara.

Os historiadores que negam a queda violenta do império romano e a existência posterior de uma idade das trevas destacam a produção cultural de pendor religioso, que foi abundante neste período. Mas Ward-Perkins mostra que este fenómeno não refuta a ideia de que houve uma idade das trevas, pois durante o império romano a leitura e a escrita estavam de tal forma difundidas que era comum mesmo em famílias com poucos recursos — não era apanágio de uns poucos místicos iluminados.

Magnificamente bem escrita e documentada, directa e simples na sua apresentação, mas sofisticada no conteúdo, esta é uma obra para ler, reler e discutir.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (29 de Abril de 2006)
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