O Retrato de Rose Madder, de Stephen King

O contador de histórias

Desidério Murcho
O Retrato de Rose Madder, de Stephen King
Tradução de Lucinda Maria dos Santos Silva
Temas & Debates, 1999, 539 pp.

King escreve para o leitor comum e não para o leitor sofisticado; mas escreve de forma inteligente, sem fazer concessões. Efectivamente, estamos perante um autor com um talento especial para contar histórias. Ler um livro de King é um pouco como ouvir uma história bem contada num serão de província; mas, claro, o ambiente é sempre a América actual, que tão bem conhecemos graças à indústria cinematográfica norte-americana. Todavia, ao contrário do que se possa pensar e ao contrário de muitos autores de "best-sellers", o estilo de King não é muito cinematográfico; lê-lo não é como estar a ler um guião de cinema — as histórias de King têm muitos mais pormenores do que um filme é capaz de acomodar. Na verdade, uma das características de King que impressiona favoravelmente o leitor é a sua imparável criatividade, que o faz descer aos mais pequenos pormenores, revelando uma precisão narrativa espantosa.

Este romance, publicado originalmente em 1995, não é talvez o melhor ponto de partida para começar a ler King — os 4 contos reunidos em Estações Diferentes, recentemente publicados no Círculo de Leitores, são bastante melhores do que este Retrato. Mas, mesmo assim, trata-se de um romance claramente recomendável.

A protagonista é Rose McClendon Daniels, uma mulher vítima de violência doméstica. King narra a nova vida que Rose começa a construir quando decide um dia, finalmente, fugir de casa e da violência demente do marido, Norman Daniels. A descrição dos momentos da decisão e fuga de Rose, que abrem o livro depois de um pequeno prólogo, são de leitura contagiante. Há uma precisão milimétrica no modo como King descreve o fluxo de pensamentos da protagonista e os pequenos passos que a conduzem finalmente à liberdade.

A violência doméstica parece sempre absurda ao observador, pois nada parece mais simples do que sair de casa e acabar tudo de vez. Mas as coisas não são assim tão simples, como o sabem as infelizes mulheres vítimas desta situação terrível, pois há uma teia de medos, ameaças, culpa e vergonha que acabam por determinar uma psicologia complexa de ansiedades da qual não é fácil sair e que tem como consequência a completa e infeliz passividade resignada. É este estado psicológico complexo que King consegue captar com mestria nas primeiras páginas deste romance.

Depois há Norman Daniels, polícia, homem alto e robusto, habituado a bater e a dominar, inteligente, mortal — e, como descobrimos a pouco e pouco, psicopata. King descreve como ninguém mentes de psicopatas — pessoas com uma lógica desassombrada mas que assenta em pressupostos delirantes. A descrição da fuga de Rose é intercalada com a descrição da perseguição que Norman empreende, vista do seu próprio ponto de vista, apesar de a narrativa ser sempre na terceira pessoa. Esta opção narrativa revela-se extremamente eficaz, pois produz uma enorme tensão no leitor. Este não é um romance de terror, mas é um romance que de certa forma nos aterroriza, graças à enorme tensão emocional a que somos submetidos. Não o aconselho a pessoas facilmente impressionáveis como leitura de cabeceira — mas é uma leitura apaixonante para quem gostar de emoções fortes.

Um dos aspectos mais comoventes do livro é a história de amor que entretanto se desenrola entre Rose e Bill. Sem cair no ridículo nem na pieguice, King narra a relação que se vai desenvolvendo entre eles, do ponto de vista estupefacto de Rose, que a princípio tem dificuldade em acreditar que nem todos os homens são como Norman. King é um escritor capaz de descrever admiravelmente bem e sem perder a lucidez os sentimentos humanos mais simples de solidariedade, bondade e amor.

O único factor negativo no romance resulta, curiosamente, do elemento de fantasia e sobrenatural pagão que King introduz — elemento presente em quase todos os seus livros. Não vou, todavia, estragar-lhe a leitura dizendo-lhe exactamente qual é o problema com este aspecto do romance. Digo-lhe apenas que mais ou menos a meio do romance ficamos perante uma descrição demasiado extensa, cheia de simbolismo mais ou menos barato, mas que na realidade acaba por constituir um interlúdio numa obra que, sem essas páginas, seria mais equilibrada, mais séria e de leitura mais apetecível.

King não é fácil de traduzir, pois apresenta uma linguagem muito coloquial. Mas a tradução de Lucinda Maria dos Santos Silva enfrenta esta dificuldade com proficiência, revelando-nos uma grande tradutora.

Desidério Murcho
"O Independente", 7/03/2000
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