O Universo de Carl Sagan, organizado por Yervant Terzian e Elizabeth Bilson

Homenagem a Carl Sagan

Desidério Murcho
O Universo de Carl Sagan, de Yervant Terzian e Elizabeth Bilson
Trad. de Luís Sobral e Francisco Ricardo Pereira
Revisão científica de Jorge Alves
Gradiva, 1998, 370 pp.
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Este volume reúne as comunicações proferidas aquando da homenagem à carreira universitária e intelectual de Carl Sagan, por altura do seu 60.o aniversário. Reúne 24 comunicações distribuídas por 4 partes, um interlúdio e um epílogo. Os autores das comunicações são pessoas tão ilustres quanto Frank D. Drake, Kip. S. Thorne, Jon Lomberg, Richard P. Turco e Paul Horowitz, entre muitos outros. Muitas comunicações são acompanhadas de várias ilustrações.

A primeira parte aborda a exploração planetária e é composta por 4 comunicações. As questões abordadas incluem a procura da origem da vida, o programa espacial russo, a procura da vida em Marte e as perspectivas de uma exploração do espaço de carácter mais científico, cristalizadas em torno da noção de "nave da ciência".

A segunda parte conta com 6 comunicações que abordam temas como o meio ambiente dos planetas e luas conhecidas, a origem da vida num contexto cósmico, o papel e os riscos dos grandes impactos de asteróides e cometas no nosso planeta, a procura de inteligência extra-terrestre (a sua importância e um relatório do estado actual da situação).

A quarta parte é antecedida de um interlúdio, que apresenta a comunicação de Carl Sagan sobre a importância da exploração espacial. Especialmente interessante é o facto de as perguntas da assistência terem sido registadas. Algumas delas são particularmente imbecis e exibem uma enorme preocupação pelo facto de Carl Sagan ser ateu — há pessoas que pura e simplesmente não querem viver num universo sem Deus e que lhes faz muita impressão que outras pessoas o possam fazer tranquilamente e sem sobressaltos.

Na quarta parte abandonamos as áreas estritamente científicas do volume e entramos noutros territórios. O tema que une as 6 comunicações desta parte é a educação científica. Abordam-se temas como a necessidade de divulgar a ciência, o papel crucial da formação científica do cidadão comum numa democracia, as relações entre a ciência e a imprensa, a pseudociência e a crendice humanas e o papel e as dificuldades da apresentação visual da ciência.

Na penúltima parte abordam-se as relações entre a ciência, o poder político, as questões ecológicas e a religião. Os esforços relativos à desnuclearização do mundo e os perigos do Inverno nuclear são 2 das 6 comunicações mais interessantes. As relações entre a ciência e a religião, vistas do lado da religião, são apresentadas por Joan Campbell.

O volume termina com um epílogo que apresenta o pequeno discurso de homenagem de Frank H. Rhodes.

O universo de Carl Sagan é imenso, pujante, cheio de maravilhas, tolerante. E este volume espelha bem a diversidade das riquezas que Carl nos deixou. Carl foi um dos melhores seres humanos que a humanidade já conheceu. A sua mensagem atravessou o planeta, inspirou jovens a seguir uma carreira científica, a defender a liberdade, a optar pela tolerância. Uma das suas mensagens que precisa de ser gritada em público em Portugal é esta: "Em qualquer ramo da ciência não chega produzir apenas um pequeno grupo de profissionais altamente competentes e bem remunerados; alguns entendimentos fundamentais das descobertas e dos métodos da ciência têm de estar disponíveis à mais larga escala." (p. 354) Eu acrescentaria ao termo "ciência" os termos "arte, religião e filosofia". Nenhuma destas actividades humanas deve manter-se longe dos olhares do público; sobretudo porque esta atitude encerra muitas vezes uma incompetência básica. (Neste sentido, a revista Intelectu, criada por Sara Bizarro, é uma das iniciativas mais importantes dos últimos anos na filosofia em Portugal — www.intelectu.com)

Este volume é comovente, inspirador e faz pensar. Uma das muitas imagens inesquecíveis que nos ficam é esta: Carl prepara-se para dar uma gorjeta ao porteiro da Union Station de Washington e este diz-lhe: "Guarde o seu dinheiro, Dr. Sagan. O senhor deu-me o universo. Deixe-me ser eu agora a fazer alguma coisa por si." (p. 228) Quando a vida de um ser humano é assim, não é preciso Deus para nada.

Desidério Murcho
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