Carl Sagan: Uma Vida, de Keay Davidson
27 de Novembro de 2004 ⋅ Livros

Optimismo e tumulto

Desidério Murcho
Carl Sagan: Uma vida, de Keay Davidson
Lisboa: Bizâncio, 2000, 618 pp.

A morte de Carl Sagan em 1996 fazia prever o aparecimento de biografias e esta foi uma das duas que apareceram quase ao mesmo tempo. (A outra foi a de Poundstone.) Davidson não se limita a apresentar-nos a vida e obra de Carl Sagan; apresenta-nos uma autêntica história das disciplinas científicas cultivadas por Sagan, e quase um tratado sobre o envolvimento cultural e social da ciência nos Estados Unidos da América dos anos 50, 60 e 70 do século que agora termina. Mesmo que o interesse do leitor sobre a vida e a obra de Sagan seja mínimo, a biografia de Davidson vale pela perspectiva única que nos oferece desses aspectos. As suas imensas referências bibliográficas abrangem praticamente todas as grandes obras de ciência publicadas desde os anos 60, e incluem ainda muitas referências a obras de áreas como a filosofia da ciência, a história da cultura e a literatura. O ganho cognitivo obtido com a leitura desta biografia é inquestionável.

Carl Sagan tornou-se conhecido em todo o mundo graças à série televisiva "Cosmos" e ao livro homónimo que a acompanhou, nos anos 80. Tanto a série como o livro foram sucessos internacionais, incluindo entre nós. Em Portugal teve o feliz efeito de desbravar um terreno na altura virgem e visto com maus olhos por parte da retrógrada universidade portuguesa da altura: a divulgação científica. A colecção "Ciência Aberta", da Gradiva, cresceu sobre o signo de Carl Sagan. E em Portugal, como em muitos outros países, muitos foram os jovens que decidiram ingressar em cursos superiores de ciências por influência de Sagan. Alguns desses jovens tornaram-se entretanto professores e dão hoje aulas nas nossas universidades. E isto aconteceu também um pouco em todo o mundo.

Na verdade, aconteceu também com o próprio autor desta biografia, que o declara logo desde o início:

He was a hero of my childhood and youth. But a childhood hero is a dangerous thing to have, because one eventually outgrows childhood. [...] In that regard, when I began this project, the writer Timothy Ferris warned me that some biographers end up hating the subjects of their biographies. Indeed, I was worried about what I might learn about Sagan; like all professional science writers, I had heard some less than flattering stories about him. (Not all proved to be true.) [...] Yet after scrutinizing Sagan's life in detail, I must say that I not only still like him but respect him more than ever [...]. Because he lived, the world is a better place. (p. xiii da edição original)

A biografia de Davidson é implacável. Em muitas passagens, e sobretudo depois de se ler a biografia de Poundstone, fica-se com a sensação de que Davidson precisava mesmo de exorcizar o herói da sua juventude, o que o terá levado em alguns casos a ser injusto. Mas há vantagens numa biografia assim: se o biografado resistir a esta atitude sem se transformar aos nossos olhos em mais um ser humano mesquinho e patético, isso significará que, muito provavelmente, ele era realmente um ser humano de um calibre superior. E isso é precisamente o que acontece com Carl Sagan nesta biografia.

As pessoas associam Carl Sagan à astronomia. Mas os seus interesses fundamentais orientavam-se muito para uma área específica da biologia (que ele praticamente fundou) e para o estudo dos planetas (mais do que das estrelas distantes e das galáxias, como é típico num astrónomo profissional). No fundo, a questão que atravessou a carreira científica de Sagan foi a de saber se há vida no universo além da Terra. À disciplina da biologia que tem por missão descobrir e estudar a vida extraterrestre começou a chamar-se "exobiologia"; e Sagan foi um dos pioneiros nesta área de estudos. Também os seus estudos sobre as atmosferas dos planetas do sistema solar, nomeadamente Marte e Vénus, representaram muitas vezes avanços científicos importantes. Em ambos os casos, o interesse de Sagan era encontrar vida extraterrrestre.

A importância de encontrar vida além da Terra é enorme; e não estou a falar sequer de encontrar formas de vida inteligente. Encontrar uma qualquer forma primitiva de vida microscópica em Vénus ou Marte ou noutro planeta é imensamente importante, pois será a demonstração cabal de que o aparecimento da vida é um processo natural normal que acontece quando se reúnem certas condições. Este resultado será terrível para o argumento tradicional do desígnio, pois demonstrará que a vida é o produto natural das leis da natureza, e não a expressão da vontade de uma divindade. Os resultados de Miller-Urey, nos anos 50, foram altamente encorajadores: simulando em laboratório as condições atmosféricas da Terra primitiva, rapidamente se formaram moléculas orgânicas. Este resultado fazia prever que a vida seria um acontecimento comum no universo. Mas até hoje nunca se encontrou vida em nenhum outro planeta além da Terra.

Ao narrar a carreira científica de Sagan, Davidson descreve com energia e inteligência os avanços e os recuos, os dilemas e as descobertas das ciências envolvidas na descoberta de vida extraterrestre. O autor domina os temas com mestria e sem obscuridades, empolgando o leitor não só com o papel desempenhado por Sagan no desenvolvimento dos estudos relacionados com a vida extraterrestre e os planetas do sistema solar, mas também de muitos dos outros protagonistas ilustres.

Os aspectos da vida pessoal de Sagan surgem quase deslocados na primeira parte desta biografia, tão intenso é o investimento do autor na história da cultura, da sociedade e das ciências relacionadas com a procura de vida extraterrestre. Mas no último terço da obra, aproximadamente, Davidson deixa praticamente de se referir aos avanços e recuos científicos que rodearam a vida de Sagan, concentrando-se numa espécie de apreciação da obra mais conhecida de Sagan, como "Cosmos", "Os Dragões do Éden" ou "Contacto". O último terço da biografia de Davidson deixa muito a desejar, sobretudo quando lemos 2 ou 3 páginas de descrições de livros que conhecemos bem ou (pior ainda!) quando o autor se dedica a fazer uma história descuidada e pouco rigorosa da recepção da obra popular de Sagan — e se afirmo que essa história é descuidada e pouco rigorosa é porque em muitos casos se baseia quase exclusivamente nas críticas publicadas nas próprias contra-capas dos livros em causa!

À parte este aspecto infeliz do último terço da obra, Davidson apresenta uma biografia inteligente, informativa e cheia de ideias estimulantes sobre a ciência e o seu envolvimento cultural e social. Em muitos casos é óbvia a simpatia do autor por doutrinas quase pós-modernistas acerca da ciência, o que o faz ser vítima de algumas ingenuidades típicas deste movimento cultural — ainda para mais geralmente formuladas como se fossem a descoberta da pólvora seca debaixo de água, nuns casos, ou como se fossem perspectivas óbvias que nem vale a pena discutir. Mas estes aspectos resumem-se a comentários que o autor não se inibe de fazer e não contaminam toda a obra.

Esta obra é uma leitura obrigatória para todos os que admiram Sagan, revelando-nos um homem com um amor inaudito ao conhecimento, o que já sabíamos, mas que teve uma vida cheia de lutas, quer pessoais quer profissionais, quer para ser levado a sério pelos seus pares, quer para alcançar a felicidade — e isto pode ser uma novidade para muitas pessoas. O tranquilo optimismo que perpassa os textos de Sagan não deixaria adivinhar uma vida que na realidade foi tumultuosa e cheia de armadilhas. O que só confere ainda mais valor a um ser humano que foi capaz de se distanciar de si próprio e de ver o universo e a vida de uma perspectiva cósmica. Uma leitura fascinante.

Desidério Murcho
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