Carl Sagan: A Life in the Cosmos
4 de Setembro de 2004 ⋅ Livros

Cidadão do cosmos

Desidério Murcho
Carl Sagan: A Life in the Cosmos, de William Poundstone
Henry Holt & Company, 1999, 473 pp., 20 £
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Esta é uma das duas biografias de Carl Sagan que surgiram, quase simultaneamente, pouco tempo depois da sua morte; a outra foi a de Keay Davidson, atempadamente publicada entre nós pela Bizâncio. Esta biografia apresenta algumas vantagens relativamente à de Davidson: é mais objectiva e, sobretudo, mais equilibrada, pois mantém o mesmo tipo de abordagem ao longo da obra, o que não acontece com a biografia de Davidson, cujos últimos capítulos foram claramente escritos numa corrida contra o tempo, sendo pouco mais do que resumos dos livros mais recentes de Sagan.

A vida de Sagan conheceu muitas dificuldades, quer pessoais quer profissionais, descritas com sobriedade por Poundstone. Quando Carl Sagan foi proposto como membro à Academia das Ciências estava casado com a sua terceira mulher; a sua primeira mulher era já membro da Academia. Poundstone conta um episódio paradigmático da vida de Sagan. Por alturas do processo de candidatura à Academia, Sagan recebeu uma carta da sua primeira mulher. Apesar do divórcio por iniciativa dela mas culpa de Sagan, quando eram ainda bastante jovens, e apesar dos muitos amargos de boca que a separação trouxe a ambos, continuaram amigos. Quando Sagan recebeu a carta, calculou que se relacionaria com a sua candidatura. De modo que não a abriu. Deu-a a ler à mulher, pedindo-lhe para omitir os nomes que a carta contivesse. Isto é revelador de uma personalidade acima do comum. A mulher assim fez. E a carta é também reveladora de outro aspecto da vida de Carl Sagan: a mulher que o deixou por causa dos seus defeitos de personalidade escreve uma carta pungente em que afirma, entre outras coisas: "tu merecias ter sido eleito para a Academia há anos e ainda o mereces; é o pior dos defeitos humanos que te impede de entrar: a inveja" (p. 358). Quem assim escreve é a cientista e autora Lynn Margulis.

Proxmire foi um senador que se destacou por ter dado início, em 1978, a uma campanha que visava aprovar legislação que proibisse qualquer financiamento federal a programas de investigação cujo objectivo fosse encontrar vida inteligente extraterrestre. Carl Sagan pediu uma audiência ao senador, que durou pouco mais de meia hora. Quando Sagan saiu do gabinete de Proxmire, ele tinha mudado de ideias. O argumento de Sagan é simples. Se encontrarmos sinais de vida inteligente extraterrestre, teremos duas coisas muito importantes a ganhar. Em primeiro lugar, ficaremos a saber que é possível existir uma civilização tecnologicamente avançada que não se autodestrói. Constituindo a autodestruição um risco que nós próprios corremos, dispor de um exemplo feliz será sem dúvida inspirador. Em segundo lugar, tal mensagem poderá conter conhecimentos que nos poderão fazer avançar milhares de anos na compreensão do próprio universo — o que por sua vez aumentará, uma vez mais, as probabilidades da nossa sobrevivência.

Poundstone apresenta uma biografia bastante mais simpática a Sagan do que a de Davidson. Todavia, não se trata de uma biografia que oculte os aspectos piores da personalidade e do trabalho do biografado. O autor exibe os factos, deixando-nos o juízo final sobre o valor da vida de Sagan. É difícil que esse juízo seja menos do que respeito e admiração profundas. Dado que — felizmente — temos entre nós muitos leitores fiéis de Carl Sagan (dado a conhecer no nosso país pela Ciência Aberta, da Gradiva), esta parece uma aposta editorial segura.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado previamente no jornal Público (21 de Fevereiro de 2004)
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