Notícia de um Sequestro, de Gabriel García Márquez
Livros

Depuração máxima

Desidério Murcho
Notícia de um Sequestro, de Gabriel García Márquez
Tradução de Artur Guerra e Cristina Rodriguez
Publicações Dom Quixote, 1997, 226 pp.

Um novo romance do García Márquez é sempre um acontecimento. Mas, neste caso, não se trata de um romance de ficção, mas da narrativa do sequestro de 10 pessoas (jornalistas, familiares de políticos e figuras públicas) ocorrido na Colômbia em 1990. O "romance" é de extraordinária qualidade, o que aliás seria de esperar de García Márquez. Desde o início que tinha alguma curiosidade de saber como se sairia o autor com uma narrativa de factos reais e não imaginários e como conseguiria ele tratar personagens reais e não fictícias. O resultado foi surpreendente: uma narrativa depuradíssima, objectiva, elegante e superiormente culta. O facto de se tratar da narrativa de acontecimentos reais obriga a uma contenção formal extraordinária. A típica adjectivação barroca de García Márquez desaparece quase por completo, mantendo-se apenas a estritamente necessária para veicular um ambiente, um estado de espírito ou uma precisão narrativa. O domínio da forma narrativa é absoluto. A construção das frases e dos diálogos, a composição das descrições de estados de espírito e de ambientes físicos e psicológicos é a demonstração cabal de que estamos perante um dos maiores escritores do século.

Prémio Nobel em 1980, marxista por convicção e amigo pessoal do ditador cubano, Fidel Castro, García Márquez é um caso ímpar da literatura do século XX, muitas vezes imitado, lá fora e cá dentro, mas nunca efectivamente assimilado. A adjectivação típica de García Márquez presta-se a uma má imitação bacoca, que retém dela apenas o aspecto formal do excesso imagístico, sem que o conteúdo corresponda ao delírio das formas. Este magnífico "romance" representa um desafio para os seus imitadores: poderão mimetizar-lhe o delírio das formas, mas nunca conseguirão alcançar-lhe a clareza da frase e a lucidez da narrativa.

Notícia de um Sequestro narra os 10 terríveis sequestros ordenados e orquestrados por Pablo Escobar, o famoso traficante de droga colombiano do Cartel de Medellín que se propôs pagar a dívida externa do seu próprio país em troca da sua segurança. O livro é extremamente informativo e mostra bem até que ponto o absurdo da guerra contra o tráfico de drogas pode conduzir um país ao caos moral, social, político e económico. O terrorismo associado ao narcotráfico é inexpugnável, os governos, o exército, a polícia e os tribunais nada podem contra ele e no meio de tudo isto ficam os cidadãos indefesos, que sofrem as piores consequências. A corrupção alastra e toma conta de tudo, e torna-se tão fácil raptar uma pessoa no centro de Bogotá como ir comprar o jornal da manhã. O governo acaba por ser impotente para intervir junto das forças de elite que ele próprio criou para combater o narcotráfico, acabando tudo por descambar numa guerra de todos contra todos em que ninguém sabe de ciência certa quem tem realmente razão e em nome de quê se mata e atropela a justiça e os direitos dos cidadãos: é a lógica da guerra pela guerra.

Este livro de García Márquez é assim valioso do ponto de vista literário e sociológico. É um excelente exemplo da arte literária de narrar uma história, mas também um documento impressionante de um país que vive o absurdo de uma guerra que nunca poderá ganhar, em nome de uma atitude paternalista irreflectida e suicida que nega o direito à droga, acabando na prática por reconhecer o direito ao narcotráfico terrorista, com todas as consequências socialmente nefastas que daí advêm. Fica assim demonstrado que a arte, em particular a literatura, não é uma forma sem conteúdo, mas antes a depuração das formas que melhor convêm a um conteúdo: o valor cognitivo da arte tem agora de ser claramente reconhecido e não pode a sua pretensa ausência servir de fórmula reabilitadora de formas de fazer filosofia que procuram valores literários como se estes fossem meros formalismos barrocos sem conteúdo.

Uma última palavra para a excelente tradução de Artur Guerra e Cristina Rodriguez, assim como para o facto raro, nos livros portugueses, de não se encontrarem gralhas nem erros de impressão. Esta edição portuguesa merece o grande autor que publicou e dá até a sensação que Portugal é razoavelmente civilizado.

Desidério Murcho
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