Serpent in Paradise
15 de Maio de 2004 ⋅ Livros

Os filhos da Bounty

Desidério Murcho
Serpent in Paradise, de Dea Birkett
Londres: Random House, 1997, 296 pp.
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Mesmo as pessoas menos informadas têm conhecimento (nomeadamente graças aos filmes "Revolta na Bounty") das desventuras da tripulação do navio britânico "Bounty": revoltando-se contra o seu capitão, em 1789, abandonaram-no à sorte num pequeno bote, vaguearam pelo oceano, e finalmente descobriram uma pequena ilha desabitada onde decidiram ficar, com as mulheres que haviam trazido das ilhas onde tinham estado, sempre com o terror de serem apanhados pelas autoridades britânicas. Essa pequena ilha chama-se Pitcairn e os seus descendentes ainda lá estão.

Dea Birkett narra a sua viagem e estadia prolongada na ilha dos amotinados da Bounty. Esta pequena sociedade é encarada com muita curiosidade pelo mundo inteiro, como se se tratasse de uma espécie de último reduto da vida paradisíaca numa pequena sociedade, longe dos tormentos do mundo. A história começa a tornar-se menos alegre quando nos lembramos que, depois de se terem estabelecido na ilha, os amotinados da Bounty acabaram por se matar uns aos outros, acabando por sobrar apenas um deles. Entretanto, todos tinham deixado descendência junto das mulheres polinésias que levaram para a ilha, e são estes descendentes que hoje habitam a ilha.

O primeiro choque ao ler a elegante narrativa de Birkett é o facto de os actuais habitantes da ilha constituírem uma comunidade modernizada, completamente dependente de enormes frigoríficos onde armazenam os seus víveres, dos navios que irregularmente passam pela ilha (permitindo-lhes trocar artesanato por televisões e vídeos) e deslocando-se em modernos barcos a motor e em triciclos motorizados todo-o-terreno (numa ilha que tem apenas 4 quilómetros de comprimento e 2 de largura).

À medida que vamos conhecendo melhor a ilha e os seus habitantes, vamos percebendo, aterrorizados, que se trata de uma comunidade sem o mínimo sentido do futuro nem do passado, negligente e preguiçosa, destituídos de sentimentos morais e destruídos por uma religião infantil à qual os seus antecessores se converteram há cem anos. Como numa pequena aldeia, não há lugar à privacidade nem verdadeiramente à amizade, mas apenas a jogos sociais complicados, que a autora nunca conseguiu compreender completamente. Sociologicamente, os pitcairnenses são extremamente interessantes porque representam o falhanço completo do ser humano civilizado: o desprezo pelo conhecimento, a avidez desmedida pelo inútil brilhante e colorido, o controlo policial das consciências e das vidas alheias. Uma miséria que espelha bem, infelizmente, alguns sectores do mundo contemporâneo.

Com uma narrativa elegante, Birkett descreve-nos a ilha e as suas gentes, os seus hábitos, a sua organização social e as suas relações pessoais. A imagem mais marcante que fica deste livro, símbolo do clima indolente da ilha, é esta: poucos dias depois de chegar, a autora ficou espantada com o comportamento de um dos jovens da ilha, que ficou horas frente à televisão apagada depois de se avariar o vídeo. Semanas depois da sua estadia, a própria autora ficou em silêncio, na companhia desse jovem, em frente à mesma televisão quando o vídeo se voltou a avariar. Quando a realidade é cruel, olhar o nada de um ecrã negro pode ser um alívio merecido.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (29 de Novembro de 2003)
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