Sete Rosas Mais Tarde, de Paul Celan
Livros

Fora de moda

Maria João Cantinho
Sete Rosas Mais Tarde, de Paul Celan
Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno
Livros Cotovia, 1993, 260 pp.
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"Há um caminho coberto de neve que leva para
dentro do êxtase. Esse caminho é a morte."
Walter Benjamin

Celan passou a fazer parte de uma galeria de autores que ninguém lê. Estão fora de moda, não cabem nos horizontes da crítica literária de trazer por casa. É triste dizê-lo, mas não se vende. A poesia e, sobretudo, a boa poesia, a que não é xaroposa e melada, não se vende. E, apesar do extraordinário trabalho de João Barrento e de Y. Centeno de selecção dos poemas, tradução e comentário, os livros de Celan mantêm-se fora do alcance do leitor médio português. Para isso contribui também o seu hermetismo judaico-cabalístico, a ausência de luz da sua poesia. Porém, é tempo de lembrar a magnitude dessa voz, herdeira da tradição poética alemã, de Hölderlin, de Novalis, de Rilke. Celan é referência obrigatória da poesia contemporânea, devo adverti-lo, e se atender no que digo, repare na discreta influência que ela tem na obra de alguns poetas portugueses, como Nuno Júdice e Luís Filipe de Castro Mendes, só para citar dois exemplos.

Nenhuma citação que não a benjaminiana poderia convir melhor à poesia de Celan, “poeta até aos ossos e à dor”, como o afirma o próprio Barrento, uma vez que os seus melhores poemas nascem desse silêncio que lhe habita a alma. Esse caminho coberto que haveria de levá-lo à morte (Celan, como é sabido, suicidou-se em Paris), condu-lo também através do extâse, que é o seu confronto com a essência da escrita. Poemas como Fuga da Morte ou Vinhateiros (o último poema de Celan) são expressão da mais impossível das tarefas: a transfiguração do horror nos campos de concentração de Auschwitz (os seus pais morreram ambos numa dessas colónias de morte). Grande parte da sua obra prende-se inevitavelmente com o massacre dos judeus nas máquinas da morte. Essa fragmentação e aniquilação da vida humana e do seu valor, infinitamente precário, encontra um correlato com a linguagem e a sua desintegração, aliada à mística da negação, que encontramos em Rilke ou em Rimbaud, bem como ao niilismo que engrossava as suas fileiras, numa Europa que perdera o seu optimismo histórico. Deste ponto de vista, Celan faz parte dessa plêiade de homens de que Adorno falava, quando dizia ser impossível escrever poesia após Auchwitz.

É um atrevimento afirmar que Adorno (o grande Judeu, como a ele se refere Celan, na sua obra Meridiano) se enganou, mas a poesia de Celan atesta essa possibilidade, ainda que a transfiguração da sua arte lhe tenha tornado a vida insustentável.

Os mais belos e comovedores poemas de Celan nascem do seu exílio e da noite escura das palavras que, cada vez mais, se transformarão em puro abismo, em nada, conduzindo à “rosa do abismo”. Não há qualquer salvação na sua obra, apenas uma cicatriz incontornável, um prurido constante, um grito mudo e constante, que nenhum Munch seria capaz de representar. Com Paul Celan e com a sua poesia também nós habitamos o mais desmesurado lugar: o irrepresentável, a morte. Cada vez mais os poemas vão circunscrevendo esse lugar, circunscrevendo também o silêncio, o silêncio do tempo e das palavras. E em lugar do Ser de Heidegger, o centro do tempo, encontramos um vazio, o sem-fundo, o abismo onde os corpos revolteiam infinitamente si próprios, para utilizar novamente uma imagem de W. Benjamin, que Celan tão bem compreendeu.

Ler Celan aproxima-nos de uma respiração, que é a própria essência da escrita, tal como ela é pensada em Platão e a partir dele, a escrita na sua pureza, na sua absoluta crueza. Ao lê-lo devolvemos a Celan a sua memória e assim o salvaremos, a ele e à sua escrita. E, agora, permitam-me que o cite:

Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
Bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite
Bebemos e bebemos
Cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados (...)

Celan, Fuga da morte

Maria João Cantinho
mjcantinho@hotmail.com
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