Os Símios Caçadores, de Craig B. Stanford
Livros

A carne e o cérebro

Célia Teixeira
Os Símios Caçadores, de Craig B. Stanford
Trad. de Maria Alice Costa
Revisão científica de J. Félix Costa
Editorial Bizâncio, 2000, 198 pp.
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Craig B. Stanford inicia assim a sua obra:

Parece-me que são duas as principais questões científicas que esperam resposta. A primeira refere-se à natureza e origem do Universo e pertence ao domínio da astronomia. A segunda é a questão de saber quem somos e de onde viemos e é esse o assunto deste livro.

No contexto científico que Stanford nos apresenta, saber quem somos é saber o que nos distingue, a nós seres humanos, das outras espécies. Saber de onde viemos é saber qual a origem da nossa espécie, saber o que originou a divergência evolutiva. Quanto à primeira questão, a resposta é simples e reúne consenso entre os cientistas: o que nos distingue das outras espécies, aquilo que faz de nós a espécie mais bem sucedida da Terra, é o tamanho do nosso cérebro, o qual se encontra associado a uma maior capacidade cognitiva e que permitiu o aparecimento de outras características individuadoras da nossa espécie. Quanto à segunda questão, a qual se encontra intimamente ligada à primeira, a resposta nem é simples nem reúne consenso, dada a falta de dados. O objectivo de Stanford é avançar uma resposta para esta questão tão controversa:

No presente livro defendo que as origens da inteligência humana estão relacionadas com a aquisição de carne, especialmente através das capacidades cognitivas necessárias para a partilha estratégica da carne com os membros do grupo.

"Os Símios Caçadores" tem 170 páginas e é constituído por 7 capítulos, antecedidos por um prefácio e agradecimentos e seguidos por uma secção com as notas dos capítulos, referências bibliográficas e um útil índice remissivo. No primeiro e segundo capítulos, respectivamente, “O Selo Indelével” e “Homem, o Caçador e Outras Histórias”, Stanford apresenta os objectivos, a estratégia e os modelos evolucionistas usados para os alcançar, assim como uma justificação das suas escolhas. Nos capítulos 3, 4 e 5, respectivamente, “Natureza dos Símios”, “O Panorama do Plioceno” e “Os Povos Caçadores”, são apresentadas algumas informações úteis acerca dos registos fósseis dos nossos antepassados, dos primatas modernos e das modernas sociedades humanas caçadoras-recolectoras, de modo a fornecer um bom modelo do comportamento humano primitivo que explique as origens das características especificamente humanas. No capítulo 6, “O Fantasma no Gorila”, Stanford defende uma teoria evolucionista da mente humana, argumentando que esta é o resultado da nossa constituição biológica (algo, aparentemente, confirmado pelo mais recente trabalho do neurocientista António Damásio), aplicando esta ideia à sua tese principal de que as raízes evolutivas da cognição estão relacionadas com a caça e, mais importante, com a partilha da carne entre os membros do grupo. No último capítulo, “O Regime Patriarcal da Carne”, explica-se por que motivo a antropologia desprezou o papel das fêmeas nos modelos evolutivos, assim como a razão de existirem apenas regimes patriarcais ou quase-patriarcais.

A ideia de que a carne teve um papel fundamental na evolução e origem da nossa espécie não é algo de original e foi de facto muito discutida nos anos 70 aquando da divulgação do modelo designado por Homem, o Caçador. Contudo, logo a pós a sua apresentação, este modelo foi amplamente criticado e posteriormente abandonado por desprezar o papel das fêmeas nas sociedades humanas primitivas. O livro de Stanford pretende recuperar as qualidades do antigo modelo, Homem, o Caçador, melhorando-o à luz dos novos modelos evolutivos e dos novos dados acerca do papel das fêmeas e dos homens nas sociedades primitivas e actuais, aliando-o ainda à tese de que a inteligência não é apenas o resultado da necessidade de adquirir carne, mas antes da sua partilha.

O aumento do desejo de comer carne resultou, segundo Stanford, num explosivo aumento do cérebro humano e associada capacidade cognitiva, justificado pelos dados provenientes dos registos fósseis e pelos dados recolhidos a partir da observação do comportamento das sociedades modernas de primatas não humanos e de humanos caçadores-recolectores. E apesar de a carne ter um papel nutricional secundário nestas sociedades, segundo Stanford, esta desempenha um papel social fundamental como moeda de troca. Os machos, devido às suas aptidões físicas, conseguem obter grandes quantidades de carne as quais usam de modo a dominarem e controlarem as fêmeas.

Nas sociedades humanas e nas sociedades de mais alguns primatas o consumo de carne é do domínio da política e da nutrição. O controlo de um recurso valioso do domínio do poder. Quando os dois sexos estão envolvidos na luta pelo poder, o sexo fisicamente dominante muitas vezes controla um recurso e, deste modo, controla também a reprodução da fêmea.

Esta é sem dúvida a tese mais polémica deste livro: a ideia de que o desejo de comer carne está na base dos regimes patriarcais e das descriminações sexuais que daí advêm. No entanto, esta tese encontra-se bem documentada, e na falta de dados empíricos, os argumentos são cruciais e desempenham um papel fundamental neste livro. E quem julgava que a argumentação e o raciocínio crítico é apanágio dos filósofos analíticos, desengane-se. Este livro mostra que, à falta de dados inequívocos que confirmem as nossas teorias, há que usar a nossa inteligência e capacidade cognitiva, que resultaram de milhares de anos de evolução.

O único aspecto negativo do livro diz respeito à edição portuguesa: a tradução é deficiente e faltam algumas notas. À parte disso, este é um livro a não perder por todos aqueles que se interessam pelas nossas origens — leigos e especialistas.

Célia Teixeira
celia.teixeira@kcl.ac.uk
Publicado originalmente no jornal O Independente (Julho de 2000)
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