O Sol, o Genoma e a Internet, de Freeman J. Dyson
25 de Novembro de 2004 ⋅ Livros

Contra o novo cinismo

Desidério Murcho
O Sol, o Genoma e a Internet, de Freeman J. Dyson
Tradução de José Luís Malaquias
Temas & Debates, 2000, 136 pp.

O título deste livro refere-se a três factores que o autor considera fundamentais para o futuro da humanidade. Os três capítulos da obra tratam da questão das revoluções científicas; da relação entre a tecnologia e a justiça social; da conquista do espaço e da genética.

O autor defende, logo na introdução, estas duas ideias: 1) a ciência deve estar ao serviço dos seres humanos; 2) a ciência deve aliar-se firmemente à engenharia, para melhor servir os seres humanos. Destas ideias não se segue que a ciência "pura" não tenha o seu lugar; significa apenas que devemos, tanto quanto possível, procurar na ciência respostas para alguns problemas que afligem os seres humanos — aqueles que podem ser resolvidos desta forma.

Ao longo da história, a ciência já resolveu muitos problemas dos seres humanos, e contribuiu muitas vezes para melhorar os padrões de vida dos mais pobres. O que o autor propõe é que se aprofunde este uso benéfico da ciência. Dyson apresenta, no segundo capítulo, alguns exemplos do que a ciência fez de benéfico pelos seres humanos e algumas ideias de como pode fazer ainda mais por nós.

É claro que esta visão não é hoje em dia popular, agora que o Novo Cinismo se tornou a filosofia dominante. "Novo Cinismo" é o nome que a filósofa norte-americana Susan Haack dá às correntes que, na esteira do pós-modernismo e do pragmatismo selvagem, defendem que tudo gira em torno dos interesses políticos e que em última análise o que conta é a força política (ou a força bruta) e não a discussão racional e a troca de argumentos. Este discurso tem, claro, um efeito paralisante: se a ciência, a sociedade e a política são determinadas por forças cegas e movimentos irracionais, não vale a pena perder tempo a tentar fazer algo pelos nossos semelhantes.

Dyson está nos antípodas desta atitude e mostra como podemos escolher um futuro melhor, se quisermos ser razoáveis e usar a inteligência crítica que temos: "Temos que dar um forte impulso ético, para auxiliar o esforço da tecnologia. A ética tem que guiar a tecnologia, no sentido da justiça social. Ajudemos a empurrar o mundo nessa direcção, com toda a força que tivermos"(p. 86). E ainda: "Uma porção demasiado grande da tecnologia é hoje dedicada a criar brinquedos para os ricos. A ética pode empurrar a tecnologia numa nova direcção, afastando-a dos brinquedos para os ricos e aproximando-a das necessidades dos pobres"(p. 74).

Mas esta é também uma obra que discute, com simplicidade mas rigor, algumas das ideias que ajudaram a dar o perfil filosófico ao século que agora termina. Uma dessas ideias — que aliás tem servido de fundamento ao Novo Cinismo — foi apresentada por Thomas Kuhn, que procura mostrar que a ciência é incomensurável.

Esta ideia de Kuhn resulta de uma atenção excessiva, segundo Dyson, ao aspecto conceptual da ciência, descurando o seu aspecto prático e os instrumentos que ela usa. Se não tivermos em conta que novos instrumentos nos permitem ver o que antes não víamos, compreender o que antes não compreendíamos e conceber o que antes não concebíamos, as revoluções científicas deixam de parecer o resultado de acasos mais ou menos irracionais, e surgem antes como o resultado de um pensamento solidamente ancorado na lógica e que procura descobrir o mundo. Este é um dos temas do primeiro capítulo deste excelente livrinho. Uma leitura a não perder, que nos oferece uma discussão clara de algumas das grandes ideias do nosso tempo. A tradução de José Luís Malaquias faz justiça à qualidade da obra.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Originalmente publicado no jornal O Independente (Outubro de 2000)
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