Stasiland
13 de Abril de 2006 ⋅ Livros

Comunismo alemão

Ricardo Ribeiro
Stasiland: Do Outro Lado do Muro de Berlim, de Anna Funder
Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2006, 270 pp.

Este livro faz parte de um lote que comprei em Dublin. Estando de passagem pela cidade, numas breves férias irlandesas, deliciei-me com os preços e com a variedade oferecida pelas livrarias da cidade, escolhendo algumas obras que viajaram comigo para Portugal. Stasiland tinha já estado na minha mira quando foi discretamente lançado no nosso país, e foi com um sorriso que o encontrei numa pilha de volumes marcados a... €4,99. Perfeito.

Como tantas vezes acontece, Anna Funder inicia o livro sem se aperceber. É uma das suas tarefas paralelas que a leva a interessar-se pelo impacto e pela interacção que durante os anos da Guerra Fria a STASI, polícia do Estado da RDA (República Democrática da Alemanha) manteve com a população do leste germânico. Lançando um primeiro vislumbre sobre a intensidade dessa estranha relação ela apaixona-se pelo assunto. Em determinado momento, parece mesmo obcecada. Não consegue parar de pensar e de investigar. Fica a ideia, para o leitor, de uma abnegada entrega por parte da escritora. Os seus esforços são crescentes. Se inicialmente se limita a conversar com alguns cidadãos que sofreram pessoalmente com a acção da STASI, a sua relação com algumas destas pessoas ultrapassa por vezes a formalidade de um contacto profissional. Ela, e a sua curiosidade, despoletam emoções, fazem regressar fantasmas do passado que se desejava bem enterrado. As pessoas têm dificuldade em falar de vidas destruidas, mas gradualmente conseguem-no fazer. As reacções, que se seguem a este primeiro momento de esforço, são díspares. Por vezes, uma sombra abate-se sobre elas. Tal é o peso desse outrora terrível. Noutras ocasiões, a leveza da ressureição faz-se sentir, e tudo se torna mais fácil de suportar.

Quando sente que já nada fará sentido sem auscultar a outra parte, sem penetrar no mundo que detinha a soberania sobre a privacidade e sobre as vidas daqueles milhões de alemães, ela procura-os. Coloca um anúncio no jornal. Tacteia os melhores contactos, e chega à fala com personalidades daquela outra Alemanha de Leste, que deixou de existir e de que toda a gente se quer esquecer. Os resultados são surpreendentes, e Anne entrevista elementos da STASI, de diversos níveis da hierarquia. A postura destas sombras é diversa: uns, mantém uma rigidez, que resulta da negação do fim do seu tempo; outros, adaptaram-se jovialmente às alegrias do capitalismo, e trabalham como detectives privados ou agentes imobiliários. Mas todos eles são importantes para ajudar a compreender a profundidade com que durante quarenta e três anos o estado devassou e violentou a vida dos seus cidadãos.

O livro é de facto um interessante trabalho de investigação, capaz de transmitir ao leitor um palpitar que se manteria silencioso, não fosse o esforço de Anna Funder. Arrisco-me a dizer que estes anos de trabalho a terão marcado profundamente como pessoa. De outra forma não poderia ser, pois os relatos, os testemunhos e as marcas do passado que lhe foram mostradas, não poderiam ter outro efeito sobre um ser humano.

Apesar de por vezes se afastar da sua temática central, chegando, aqui e ali, a funcionar como um instântaneo daquela velha RDA no seu quotidiano, nos seus jogo sociais e metalidades, logo a STASI e o estado voltam a ter sobre si as luzes da ribalta. Se este eterno retorno se deve à carácter incontornável destes agentes naquele país, ou se é a autora que não consegue manter-se afastada por muito tempo do objecto da sua investigação, isso não é possível determinar.

A única nota negativa vai para uma constante tomada de posição por parte de Anna, que chega a ser preconceituosa. Por vezes dá a ideia que deseja ouvir as vozes da opressão com o único fito de as atormentar, de as condenar, em privado, no decorrer da reunião, e agora, que o livro foi editado, em público.

Ricardo Ribeiro
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