O Direito de Morrer, Rex Stout
Livros

A literatura por detrás do policial

Desidério Murcho
O Direito de Morrer, de Rex Stout
Tradução de Catarina Rocha Lima
Livros do Brasil, 1997, 180 pp.

Há uns meses, os Livros do Brasil iniciaram uma colecção da Vampiro Gigante dedicada a Rex Stout, de forma que foi para mim uma surpresa ver aparecer este título na colecção Vampiro original. Mas um livro de Rex Stout é sempre uma delícia, seja lá em que formato for.

Para aqueles que não conhecem Rex Stout e o seu grande detective, Nero Wolfe, passo a apresentá-los. Mas faço desde já uma nota prévia: se não gosta de literatura policial, ou se pura e simplesmente nunca leu literatura policial, está na situação em que eu estava até ter descoberto Rex Stout. E hoje em dia, os únicos policiais que leio são os do Rex Stout. Portanto, mesmo que tenha preconceitos contra a literatura policial, leia Rex Stout: os livros dele valem pela literatura e não pelas histórias policiárias neles narradas.

Mas vamos lá às apresentações. Nero Wolfe é o maior detective de Nova Iorque. Maior não apenas por ser o melhor, mas por ser literalmente o maior: é enorme, é gordo, é possante e nunca sai de casa. Tem numa cadeira feita por encomenda para poder mantê-lo sentado confortavelmente sem se partir, cultiva orquídeas nas estufas particulares que mantém no topo da casa da Rua 35 Oeste, é um gastrónomo apurado e um leitor incansável. Só há duas coisas de que não gosta: mulheres e trabalho de detective. É um génio excêntrico e a sua actividade de detective consiste unicamente em interrogar pessoas e em fazer incríveis raciocínios, sentado na sua cadeira, com base nos elementos fornecidos pelo seu braço direito, Archie Goodwin. Mesmo isto, com horários muito rígidos: as suas sessões de floricultura, das 9 às 11 e das 16 às 18, todos os dias, são sagradas e nem o pior dos assassínios o faz alterar o seu horário.

É Archie Goodwin que faz tudo: palmilha Nova Iorque em busca de provas, convence testemunhas a deixarem-se interrogar por Wolfe, é preso pela polícia quando calha, leva alguns murros no nariz, seduz 93,5 % das mulheres que conhece e é ele quem nos narra tudo. Além disto tudo, costuma ter discussões de morte com o seu patrão, Nero Wolfe, basicamente porque este último está sempre a arranjar desculpas para não mexer uma palha, ao passo que Goodwin adora acção.

Estes são os ingredientes básicos de todas as histórias com o Nero Wolfe. A história agora publicada é particularmente interessante por dois motivos. Por um lado, surge nela um personagem que já tinha aparecido numa história de 1938 — e é muito interessante ver reaparecer um personagem quase 30 anos depois. A história original em que Mr. Whipple tinha aparecido foi aliás publicada há pouco tempo nos Livros do Brasil: foi um dos dois títulos com que se inaugurou a colecção Vampiro Gigante dedicada às obras escolhidas de Rex Stout, de seu nome Cozinheiros a Mais. Ora, uma das características chocantes desta última história era o facto conviver de perto com a terrível segregação racial que persistiu nos Estados Unidos até há tão pouco tempo. Os movimentos de oposição à segregação e a favor dos direitos cívicos tiveram a sua expressão máxima, no Estados Unidos, nos anos 60 — e este é o segundo aspecto interessante da história agora publicada: toda ela gira em torno de uma associação de defesa dos direitos cívicos dos negros.

Nas páginas dos livros de Rex Stout encontramos os momentos mais significativos da história recente dos Estados Unidos, o que faz deles não só uma leitura apaixonante literariamente, mas também histórica e sociologicamente. Neste caso, estamos perante os problemas da segregação racial, os preconceitos mais profundos e dificeis de erradicar. Como sempre, as opiniões de Nero Wolfe são interessantes — lembre-se que estamos perante um leitor infatigável e uma pessoa superiormente culta.

Uma palavra final relativamente à edição portuguesa. Os livros do Rex Stout costumam estar miseravelmente traduzidos, os livros costumam estar cheios de gralhas tipográficas e a composição parece ter sido feita no intervalo do almoço e não no período normal de trabalho de um profissional. Neste caso, as coisas melhoraram qualquer coisa. Há menos gralhas. E, sobretudo, a tradução da Catarina Rocha Lima é cuidada. Rex Stout merece-o. Ele não é apenas mais um autor de policiais de cordel: é um grande escritor, que merece a melhor tradução para que não se percam os seus imensos recursos literários.

Desidério Murcho
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