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Três Casos de Assassínio, de Rex Stout
Recensões

Humor cáustico

Desidério Murcho
Três Casos de Assassínio, de Rex Stout
Trad. de Catarina Rocha Lima
Livros do Brasil, 2000, 251 pp.

A Livros do Brasil acaba de lançar mais um título de Rex Stout (1886-1975), um dos grandes clássicos da literatura policial. Estamos perante um conjunto de três contos protagonizados pelo génio Nero Wolfe e pelo seu mordaz ajudante e biógrafo Archie Goodwin. A primeira destas histórias tem por título "Uma Janela Para a Morte". Trata-se de um caso que nos faz recuar 20 anos na história das personagens — como acontece nas melhores histórias de Conan Doyle. Este é um recurso literário que dá às personagens em confronto uma maior densidade dramática, ao mesmo tempo que permite contrariar uma certa "imediatez" que assola algumas histórias policiais — tendência que explica a mania da imprensa cultural de se lembrar da literatura policial apenas em tempo de férias. Bertram Fyfe abandonou a sua família há vinte anos, na sequência de acontecimentos dramáticos, que culminaram na morte do seu pai. Desavindo com a família, reaparece agora, disposto a reatar relações. A família recebe-o de braços abertos — até porque Bert é agora um rico industrial do Canadá, onde se estabeleceu. Mas eis que Bert morre — aparentemente, vítima de pneumonia. O seu irmão mais novo desconfia do sócio de Bert, sobretudo porque uma cláusula do seu testamento indica que é este que deve ficar com toda a sua recente fortuna e não a sua família. Está lançado o problema que Nero Wolfe terá de investigar: terá Bert sido assassinado? O paralelismo com a morte do seu pai é inquietante: também este morreu de pneumonia, e também no seu caso se levantaram dúvidas sobre se a sua morte terá realmente sido provocada.

A segunda história chama-se "Imune ao Assassínio" e tem lugar entre a alta diplomacia americana e estrangeira. Wolfe é convidado a cozinhar uma das suas especialidades culinárias numa principesca mansão, no seio de embaixadores e outros diplomatas. Mas eis que um dos eminentes convivas surge morto, à beira do ribeiro onde procurava pescar uma truta. Trata-se claramente de assassínio, mas parece improvável que qualquer dos distintos convidados seja o autor. A polícia pensa tratar-se de um caçador furtivo que teria sido apanhado em flagrante. Será Wolfe, claro, a mostrar que esta história está longe da verdade. No seio da mais alta sociedade americana, o assassínio é ainda motivado pelos mesmos sentimentos baixos que existem em toda a parte: ciúme e traição.

A terceira história tem por título "Eram Demasiados Detectives" — o que descreve bem a situação caricata em que Wolfe e o seu ajudante Archie se encontram. Convidados pela polícia, juntamente com vários outros detectives de Nova Iorque, a comparecer a uma sessão relacionada com as respectivas licenças para a prática profissional da investigação "policial", Wolfe vê-se a braços com uma situação inaudita: um homem surge morto nas instalações da polícia onde todos se encontram, nas barbas de todos aqueles profissionais da luta contra o crime e da solução de mistérios. O pior é que o homem que surge morto tinha enganado Wolfe, que se sente vexado por ter de trazer à luz do dia uma história para ele vergonhosa — mas não apenas para ele, pois o assassinado tinha afinal usado o mesmo estratagema para enganar vários outros detectives. Portanto, toda a gente tinha motivos para se vingar do morto — e a opinião da polícia é, claro, a de que um daqueles detectives é o assassino, ou todos, em conluio. Wolfe terá de usar os seus melhores dotes para descobrir o assassínio, o que implica resolver as estranhas actividades que levaram o assassinado a usar o mesmo estratagema para enganar vários detectives. Três histórias contadas com a mestria e o humor cáustico de Stout, onde os Estados Unidos dos anos 50 surgem com todo o brilho das melhores produções de Hollywood da altura.

Desidério Murcho
Publicado em "Livros", Janeiro de 2001