O Touro Assassino, de Rex Stout
Livros

Nero Wolfe

Desidério Murcho
O Touro Assassino, de Rex Stout
Trad. de Elsa T. S. Vieira
Livros do Brasil, 2000, 317 pp.

Não conhece o mais gordo detective da história da literatura? Então deixe-me que lho apresente. Chama-se Nero Wolfe (com "e" no fim), é descomunalmente gordo, vive na Rua 35 Oeste, em Nova Iorque, e nunca sai de casa em trabalho. Que tal? E isto é só o começo. Detesta o trabalho de detective, que desempenha só para poder financiar o seu elevado padrão de vida e os seus dois fraquinhos: a gastronomia e as orquídeas. Só há uma coisa que detesta tanto como o trabalho: as mulheres, que pensa serem todas histéricas. No que toca à gastronomia, tem um cozinheiro francês particular, de nome Fritz Brenner, que desempenha também as funções de mordomo. No topo da casa tem uma imensa estufa, onde proliferam milhares de orquídeas. Todos os dias, das 9 às 11 e das 16 às 18 horas, Wolfe cuida das suas orquídeas, independentemente da gravidade do caso que tenha em mãos. Ah!, já me esquecia: Wolfe é um génio, uma máquina de raciocínio, um cérebro único, talvez só igualado pelo próprio Sherlock Holmes. E quando não está com as orquídeas nem a comer ou a congeminar novas receitas, está a ler. É um leitor infatigável.

Isto é só um vislumbre do impressionante universo criado por Rex Stout (1886-1975) ao longo de 73 volumes (publicados entre 1934 e 1975). Dizer que Stout é um autor de policiais é enganador. Wolfe é um detective (passe o anglicismo) e nas suas histórias há sempre assassinos e assassinados — mas isso é apenas o cenário que permite a Stout apresentar-nos uma obra magnífica. A precisão narrativa, a densidade dramática das personagens, o domínio do espaço e do tempo e o puro prazer de contar histórias são marcas de Stout que cativam qualquer leitor, independentemente de gostar ou não de policiais. Saber quem fez o quê e porquê é o que menos interessa nas histórias de Stout; o que conta são as relações humanas complexas, os conflitos entre Wolfe e o resto do mundo, os seus maneirismos irritantes e a exposição do invisível: os processos mentais de Wolfe.

As histórias são narradas na primeira pessoa, pela mão de Archie Goodwin, o secretário, braço direito e pau para toda a obra de Wolfe. É ele que palmilha Nova Iorque e convence as testemunhas a deixarem-se interrogar pelo patrão, que procura provas, que é preso pela polícia, que conquista 93,5% das mulheres que encontra e que nos descreve, do seu ponto de vista, as arbitrariedades de Wolfe, que ele desaprova activamente. Muitas das histórias começam precisamente com desaguisados entre Archie e o patrão.

Dos anos 30 aos 70 do século XX as histórias de Nero Wolfe atravessam alguns dos períodos mais importantes da história recente norte-americana e mundial. Na segunda guerra mundial Archie e Wolfe juntam-se ao esforço de guerra americano. Nos anos 60 resolvem um caso que envolve activistas anti-racistas. Nos anos negros da caça às bruxas de Joseph McCarthy lutam contra o todo-poderoso FBI — e é delicioso ver a vitória de Wolfe. Noutra história, Wolfe envolve-se directamente com o caso Watergate, o que terá aliás consequências desastrosas para o seu universo.

A Livros do Brasil tem vindo desde há anos a editar, na colecção Vampiro, vários títulos de Rex Stout e pretende, para gáudio dos leitores, publicar todas as histórias de Wolfe. Entretanto, decidiu iniciar uma colecção na Vampiro Gigante intitulada "Obras Escolhidas de Rex Stout". Já publicou 10 volumes, cada um com duas histórias.

A história que agora se publica, "O Touro Assassino" (o título original é "Some Buried Caesar", sendo "César" o nome do touro referido pelo título português), data de 1939 — é uma das primeiras histórias de Wolfe e de especial interesse para a constituição do seu universo. Archie é um mulherengo incansável, mas tem uma namorada permanente: Lily Rowan, uma mulher riquíssima, independente, bonita e muito inteligente. É nesta história que Archie a conhece e é nesta história que se percebe por que razão Lily chama por vezes "Escamillo"a Archie.

O caso do touro assassino começa da melhor forma: Wolfe, que nunca sai de casa em trabalho, dirige-se com Archie, de automóvel, para uma exposição de flores, onde conta apresentar as suas orquídeas. Para desespero de Wolfe, que detesta andar de automóvel, rebenta um pneu e chocam contra uma árvore. É devido a este acontecimento fortuito que Wolfe e Archie se envolvem no caso do touro, que está no centro de uma polémica entre vizinhos rurais. A história está bem escrita, tem ritmo e mexericos quanto baste, comentários corrosivos de Archie e maneirismos de Wolfe, mulheres jovens bonitas e feias quezílias antigas. Esta história está entre as melhores da série Nero Wolfe.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado em "Livros", Maio de 2000
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