O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo
25 de Julho de 2004 ⋅ Livros

Deliciosa salada

Ricardo Ribeiro
O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo, de Luís Rosa
Lisboa: Editorial Presença, 2005, 262 pp.

A estória apenas em parte é deixada adivinhar pelo título. Trata-se de uma narrativa não apenas sobre o terramoto de Lisboa e sobre a reconstrução da cidade, mas sobre todo um Portugal pombalino, apanhado em meados do século XVIII entre um período e outro, o de ouro, dos Descobrimentos e das riquezas de além-mar, e o da modernidade, do mundo que urge na invenção.

No livro cabe toda a gente; não é a vida dos grandes em exclusivo, pois apesar da sua liderança também as gentes do povo têm lugar. Quem fala é o padre Serafim Melícias, jesuita arrependido, alcunhado de O Melro. E, segundo as suas palavras, o objectivo das suas palavras é honrar a vida de Eugénio dos Santos, verdadeiro obreiro da nova Lisboa, não a de Angola mas a que renasceu sobre a devastação, tal fénix peninsular, e que ainda hoje quem visita a cidade pode observar. O Marquês do Pombal guarda a maior fatia da fama, mas deverá ser o arquitecto a ser lembrado; ele e Manuel da Maia, que o indicou para o trabalho, e sem o qual a nossa capital hoje não seria como é.

Apresentadas que estão as premissas do livro, O Melro, que vai contando as peripécias que viu ou que soube terem acontecido a um personagem bizarro, um tal de Coxo do Casal Ventoso, que na altura manipulava uma complexa teia de informadores no submundo que, ao que parece, já então enxameava a sinistra encosta. E é assim que nos vão sendo desfraldados episódios sucessivos da nossa História: o terramoto de 1755, os passos dados para a recuperação do cataclismo, os amores dos reis de Portugal, que não só de D. José, o processo dos Távora, a rebelião do Porto e posterior repressão... enfim, é todo um período, rico, diga-se justamente, do passado lusitano que é colocado no papel por Luís Rosa, para deleite de todos os que seguirem a sua escrita. O seu estilo artístico é peculiar, no sentido em que dificilmente será confundido, e cativa.

Alternando os factos históricos com o pitoresco das vidas individuais, as descrições de uma cidade por redescobrir com o sentir de um povo já então tão português, obtém uma deliciosa salada que com tanto ingrediente resulta num manjar assaz irresistível.

Página após página o livro foi caindo, rendendo-se à ânsia do leitor que, desejoso de conhecer uma e outra aventura ou detalhe, não descansa verdadeiramente enquanto a obra não chega ao fim, para então, desiludido com a brevidade deste inesperado prazer literário, pensar para com os seus botões quando terá oportunidade de jogar mão de outro livro do mesmo autor, que, segundo creio, até hoje tem apenas publicado este e um tal de O Claustro do Silêncio, também pela mão da Editorial Presença.

Menos bom? O detalhe oferecido em algumas passagens que poderão ser mais monótonas; três ou quatro páginas contando sem pausa nem contemplações, com um texto seco e factual, todas as infidelidades e filhos bastardados frutos de amor ilegítimo de reis de Portugal, é capaz de ser algo exagerado. E depois, aquele eterno problema do romance histórico puro: como há-de o leitor distinguir entre o facto apurado pelo historiador e o recriado pelo escritor? É que no meio de tanto episódio, a curiosidade é inevitável. Seria a nossa Lisboa de então assim? O Casal Ventoso, por exemplo, já então se constituiria como um foco de gente sombria? É toda uma estória que quase mata o espírito sequioso por informação, tanta é a que oferece, e sempre com este espinho da veracidade contra a criação. Durante a leitura, esta dúvida foi uma constante, despertada a cada página pelo interesse do que por ali ia sendo contado. Nunca se saberá. A não ser que se investigue.

Ricardo Ribeiro
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