O Tesseract, de Alex Garland
Filosofia da religião

O problema do mal

Pedro Madeira
O Tesseract, de Alex Garland
Quetzal, 1999, 252 pp.

Aqui há uns meses, houve uma grande polémica na Tailândia porque estavam a destruir um recanto paradisíaco, uma praia lindíssima, só para fazer um filme com o Leonardo di Caprio: "The Beach" ("A Praia"). O filme era uma adaptação do livro homónimo do jovem Alex Garland, com o qual este se estreara no mundo literário uns tempos antes. Confesso que não li o livro nem vi o filme, porque me cheirava demasiado ao tema mais que batido do Robinson Crusoe que fica isolado do mundo (mas atenção!, talvez isto seja preconceito meu e a história seja muito boa); além do mais, ver o filme teria sido uma forma indirecta de aprovar os disparates ambientais realizados na Tailândia.

Lembro-me de que, na altura, se dizia que Garland tinha tido êxito muito depressa e que, se calhar, nunca mais publicaria nada de jeito (em Portugal, temos o exemplo de Dinis Machado, que publicou um único livro, "O que diz Molero", que é um grande êxito teatral).

Parece que esta profecia pessimista se enganou, porque "The Tesseract" é um grande livro, capaz de satisfazer tanto aqueles que, neste Verão, queiram ler alguma coisa que envolva tiros, sangue e perseguições, tanto os que queiram ler alguma coisa mais profunda mas que também não seja assim tão maçuda que não se possa levar para a praia para ler.

Aparentemente, trata-se de um thriller que decorre em ritmo acelerado nas Filipinas. Há um tipo, o Sean, que se vai encontrar com Don Pepe, o gangster lá do sítio. Paralelamente, tomamos contacto com uma família de classe média alta nos arredores de Manila e com dois miúdos de rua, Vincente e Totoy. O enredo é polvilhado por muitos flashbacks, que nos ajudam a perceber a situação actual das personagens. No final, cruzam-se todos, um pouco à maneira de "Pulp Fiction", segundo parece (não cheguei a ver o filme, mas li numa revista que também acabava mais ou menos como "The Tesseract"). Não é por acaso, creio, que as coisas se passam tão depressa. Já a acção da tragédia grega tinha de durar não mais que 24 horas (que é, também, quanto dura, mais ou menos, a acção principal de "The Tesseract"). No entanto, a semelhança fica por aí porque, se na tragédia grega essa exigência de duração se destinava a mostrar como o Destino é fulminante, em "The Tesseract" destina-se a mostrar que acontece tanta coisa má no mundo que não pode haver Deus.

Em termos filosóficos, podemos dizer que este é o problema do mal: será que a existência de um Deus sumamente bom e omnipotente, tal como o concebe o Cristianismo, é compatível com a existência do mal moral (assassínios e atropelamentos, por exemplo) e do mal natural (terramotos e tufões, por exemplo)? No livro, abundam exemplos do mal moral. Do mal natural só me lembro de um que seja assim muito flagrante: todas as pessoas da família de Lito (um pescador que vivia no Barrio Sarap, onde também vivia Rose) nasciam com uma horrível deformidade qualquer. Porquê?, perguntamos. Que fizeram eles de mal para merecer isso? Aparentemente, nada. É por isso que o problema do mal é tão pertinente.

Este não é um livro linear. Há muitas coisas que só aos poucos se vai percebendo. Só a meio do livro é que descobrimos o que significa o cão preto e só mesmo no final descobrimos o que significa "tesseract" (não tem tradução para português e também não vem em nenhum dicionário de inglês-inglês, não vale a pena andarem à procura). A metáfora geométrica que dá o nome ao livro é subtil e faz-nos pensar. Aqui há uns tempos, eu disse na Argumentos (grupo de estudo da Crítica) que achava difícil que pudesse haver filosofia séria em livros não académicos. Este livro mostra que eu estava enganado, pelo menos em parte. Quem ler este livro ficará, certamente, com curiosidade de estudar o problema do mal mais a fundo.

No entanto, como já disse, este livro nada tem de maçudo. Lê-se muito bem. Está muito bem construído e muito bem escrito (note-se a simetria da primeira vez em que tomamos contacto com Sean com a primeira vez em que vemos a família que vive nos arredores de Manila e a primeira vez que vemos os miúdos de rua). É um daqueles livros que temos vontade de ler segunda vez para apanhar os pormenores que deixámos escapar na primeira leitura.

Está traduzido em português pela Quetzal ("O Tesseract"), mas não sei como está a tradução. Como sempre, é preferível ler no original, até porque Garland não usa vocabulário rebuscado.

Pedro Madeira
pedro.madeira@kcl.ac.uk
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