Pensamentos Secretos, de David Lodge
24 de Setembro de 2004 ⋅ Livros

A condição humana

Desidério Murcho
Pensamentos Secretos, de David Lodge
Edições Asa, 2002, 368 pp.

David Lodge é professor de Literatura Inglesa Moderna na Universidade de Birmingham e um dos mais importantes romancistas do nosso tempo. Tem vários romances editados em Portugal e "Pensamentos Secretos" acaba de ser publicado na Asa. Com cerca de 370 páginas, trata-se de um romance que define de forma magistral o nosso tempo.

Comecemos pelo princípio. Este é um romance sobre a condição humana. Mas não são todos? Sim e não. Os romancistas gostam de ter uma palavra a dizer sobre a condição humana, sobre quem somos, sobre o que nos faz humanos. Mas raramente pensam que a ciência tem alguma coisa a ver com tais preocupações. Até há quem pense que na ciência não poderemos encontrar as verdades mais profundas sobre os seres humanos. Isto é uma tolice: hoje, como nunca, a ciência é o paradigma do conhecimento e da compreensão profunda. Não podemos continuar a fingir que a ciência é só aquelas tolices que nos ensinaram nas aulas de físico-química no secundário. A ciência hoje em dia ajuda-nos a compreender de onde viemos, quem somos e para onde vamos.

O grande conflito de ideias do nosso tempo é entre a compreensão científica de nós e do universo e uma certa resistência autista e falsamente humanista, que enterra a cabeça na areia e proclama que a poesia e a literatura são infinitamente superiores à ciência. Não são, de facto. E a literatura e a poesia, como as artes em geral e a filosofia e a religião, não podem hoje ignorar a ciência. E, sobretudo, não devem erigir-se em altares de fundamentalismos anti-ciência, pois o resultado disso é o obscurantismo fanático.

Este romance é sobre este conflito entre as humanidades e as ciências, entre a poesia e a biologia. O palco desse conflito é a filosofia. E a personagem principal é o pensamento, a compreensão do que é a consciência — em suma, a filosofia da mente e as ciências da cognição. Este é o grande debate do nosso tempo e algo que falta compreender de forma eficaz: falta integrar a consciência humana, o que faz de nós seres humanos, a nossa "alma", no mundo da ciência, no mundo da natureza. É desta integração, e dos conflitos que daí resultam, que trata este magnífico romance.

Os protagonistas são um filósofo da mente, especializado em ciências da cognição, e uma romancista. O primeiro, expectante quanto à possibilidade de vir a compreender cientificamente a consciência e a mente. A segunda, que descobre com surpresa que tal coisa possa ser sequer tema de investigação científica e filosófica. Ralph é o filósofo, Helen a romancista. Ambos encarnam o conflito entre as humanidades e as ciências, as duas culturas em conflito. Não se pense, todavia, que neste romance encontramos páginas sem fim de discussões filosóficas aborrecidas. É verdade que temos excelentes páginas de discussão filosófica, que podem aliás ser usadas com proveito por professores de filosofia, mas temos muito mais; temos amor e humor, sexo e religião, traições e descobertas.

O romance tem vários narradores: Helen, Ralph e a terceira pessoa. Somos ainda brindados com deliciosos pastiches de Henry James, Gertrude Stein, Martin Amos, Irvine Walsh, Salmond Rushdie e Samuel Beckett. Isto porque Helen está dar um curso de escrita criativa e pede aos seus estudantes para escreverem dois textos literários inspirados em textos clássicos da filosofia da mente: "What Is it Like to Be a Bat?", de Thomas Nagel, e "What Mary Didn't Know", de Frank Jackson. O folclore da filosofia analítica da mente está em peso no romance: o quarto chinês de Searle, o dilema dos prisioneiros, os mortos-vivos ou zombies, os morcegos de Nagel e a Mary de Jackson. E, ao contrário do que acontecia em "As Vidas dos Animais", de Coetzee, Lodge domina os argumentos, os problemas e as teorias filosóficas da área. Este romance é assim uma boa introdução à filosofia da mente, ao mesmo tempo que se lê com avidez. É um romance sobre o grande debate de ideias que rodeia a compreensão da "alma" humana; mas é um romance de corpo inteiro, e não um romance de cordel para nos distrair enquanto nos impinge história barata da filosofia, como acontecia com "O Mundo de Sofia".

Ralph é director de um centro de investigação em ciências da cognição. É ateu, mulherengo e uma figura pública, que dá entrevistas à televisão e escreve livros de grande circulação. É um homem assertivo e muito inteligente. Helen é uma romancista triste, viúva recente de um casamento feliz, dada a depressões, de formação católica. Entre ambos cresce uma amizade, talvez amor, seguramente um romance. Uma das características muitíssimo bem conseguidas deste romance é o facto de os personagens serem extremamente convincentes; não são meros símbolos. Apesar de Ralph simbolizar o mundo da ciência e Helen o mundo das artes e das humanidades, ambos são personagens de carne e osso, e não meros cabides para fazer funcionar um romance de ideias. E a densidade dramática dos protagonistas não é fácil de conseguir, dada a diversidade de narradores. "Pensamentos Secretos" volta a colocar o romance no centro da vida cultural, resgatando assim os romancistas do isolamento falsamente humanista em que tantas vezes caem, unicamente preocupados com as suas alminhas e alheios ao que se passa de mais importante no mundo das ideias. Imprescindível, inesquecível, para ler e reler e estudar.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado na revista Os Meus Livros, 1 (Junho de 2002)
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