Encounter with Tiber
3 de Abril de 2004 ⋅ Livros

Pensar como será

Desidério Murcho
Encounter with Tiber, de Buzz Aldrin e John Barnes
New English Library, Hodder and Stoughton, 1996, 570 pp.
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Os seres humanos têm dificuldade em ter uma consciência cósmica. Não me refiro a sentimentos religiosos ou místicos, sempre provincianos comparados com a verdadeira dimensão das coisas. Afinal, só na nossa galáxia há o mesmo número de estrelas (sem contar, pois, com os planetas que as orbitam) que o número de segundos que há em três mil anos. E isso é só a nossa galáxia — uma entre cem biliões de galáxias. Somos filhos do cosmos e o nosso futuro depende do grau com que conseguirmos compreendê-lo. É difícil para os seres humanos terem esta consciência, tal como é difícil para uma formiga que pisamos distraidamente conceber que o seu destino não é independente dos passos aleatórios dos gigantes de carne e osso.

O romance de John Barnes e Buzz Aldrin (sim, o segundo homem a caminhar na Lua, em 1969) alerta para o perigo da ignorância cósmica. O livro desenvolve-se a partir da descoberta de sinais de rádio provenientes de Alfa Centauro, assemelhando-se neste aspecto a Contacto, de Carl Sagan (publicado entre nós pela Gradiva). Mas as semelhanças ficam-se por aqui. Ao contrário da obra de Carl Sagan, Aldrin e Barnes passam boa parte do livro a descrever os tiberianos (os alienígenas de Alfa Centauro), a sua biologia, a sua história e a sua tragédia: um dia, os astrónomos descobrem que a órbita do seu planeta entrará inexoravelmente em colisão com outro. Uma pequena coincidência cósmica, mas que representa a extinção certa — a menos que se use todo o engenho, toda a energia e visão para que não se perca uma civilização no frio nada interstelar.

O retrato dos alienígenas é convincente e a sua tragédia comovente. Alternando com a descrição desta tragédia, os autores apresentam um retrato convincente das repercussões sociopolíticas que a descoberta da mensagem dos tiberianos provoca na Terra. Aldrin, claro, conhece bem os meandros — nem sempre felizes — da política espacial; mas não é só isso que faz a inteligência desta obra. Os autores não poupam críticas a uma sociedade frívola e inculta, ignorante de que o seu destino não está assegurado e que basta um pequeno acontecimento sem importância cósmica para extinguir o género humano. Este é, precisamente, o tema central do livro. Pois na melhor das hipóteses, ainda que nenhuma catástrofe cósmica faça o planeta desaparecer, o Sol não é eterno — e sem Sol a vida na Terra será impossível. Teremos a visão, a determinação e a inteligência para compreender isso a tempo de se fazer alguma coisa?

A grande literatura épica, dada como desaparecida por alguns, subsiste. Não se trata agora da sobrevivência de uma pequena nação, como a nação grega clássica, mas da sobrevivência de toda a espécie humana. Isto não desfavorece o género épico; pelo contrário, faz os grandes épicos clássicos surgirem como aquilo que verdadeiramente são: pequenas tragédias negligenciáveis quando comparadas com as grandes tragédias cósmicas. Quer ganhem os gregos quer ganhem os troianos, sobra alguém para contar a história; mas se a tragédia cósmica se concretizar, não sobrará ninguém. Os mais cínicos dirão que também isso é irrelevante, em termos cósmicos: tanto faz que existamos como não, na ordem geral do universo. Será talvez verdade. Mas não é irrelevante para nós, seres humanos. E se quisermos dar sentido às nossas vidas, a nossa sobrevivência é a primeira e a mais elementar das condições para o conseguirmos.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no jornal Público (4 de Outubro de 2003)
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