Hocus Pocus, Kurt Vonnegut
Filosofia

Os anciões de Tralfamadore

Kurt Vonnegut
Tradução de Pedro Galvão

Fiquei na garagem. Não queria ir para dentro de casa. Também não queria ir para a rua. Por isso, sentei-me na minha maleta e li “Os Protocolos dos Anciões de Tralfamadore” na Black Garterbelt. Era sobre feixes de energia inteligentes com triliões de anos de luz de comprimento. Eles queriam que a vida mortal auto-reprodutora se espalhasse pelo Universo. Por esse motivo, alguns deles, os Anciões do título, fizeram uma reunião intersectando-se perto de um planeta chamado Tralfamadore. O autor nunca diz por que razão os Anciões pensavam que espalhar a vida era uma ideia assim tão emocionante. Não o censuro. Não consigo pensar em qualquer argumento forte a seu favor. Para mim, querer que todos os planetas habitáveis sejam habitados é como querer que toda a gente tenha pé de atleta.

Na reunião, os Anciões concordaram que a única maneira prática de fazer a vida percorrer grandes distâncias pelo espaço era pô-la na forma de plantas e animais extremamente pequenos e duráveis, que apanhassem boleia de meteoros que fizessem ricochete nos seus planetas.

Mas ainda não tinham surgido em lado nenhum quaisquer germes suficientemente resistentes para sobreviver a uma viagem dessas. A vida era demasiado fácil para eles. Eram um bando de flores de estufa. Em termos químicos, qualquer criatura que eles infectavam constituía um desafio tão grande como canja de galinha.

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Havia pessoas na Terra na altura em que se fez a reunião, mas elas não eram mais que lama quente onde os germes nadavam. Mas elas tinham cérebros extremamente grandes e muitas delas sabiam falar. E algumas até sabiam ler e escrever! Por isso, os Anciões concentraram-se nelas, perguntando-se se os cérebros das pessoas não poderiam inventar testes de sobrevivência verdadeiramente horríveis para os germes.

Viram em nós um potencial para produzir males químicos a uma escala cósmica. E nós não os desapontámos.

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Que história!

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Segundo esta história, a lenda de Adão e Eva estava então a ser escrita pela primeira vez. Era uma mulher que estava a escrever. Até aí essa conversa encantadora tinha passado oralmente de geração em geração.

Os Anciões deixaram-na escrever a maior parte do mito das origens tal como ela o tinha ouvido, tal como todo a gente o contava, até ela chegar muito perto do fim. Então eles controlaram o seu cérebro e fizeram-na escrever algo que antes nunca tinha feito parte do mito.

Era um discurso de Deus para Adão e Eva, pretensamente. Foi este o discurso, e pouco depois a vida tornou-se um puro inferno para os microrganismos: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei e submetei a Terra; dominai os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra”.

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Coff!

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Então as pessoas da Terra pensaram que tinham instruções do Próprio Criador do Universo para pôr as coisas nos eixos. Mas estavam a avançar demasiado devagar para satisfazer os Anciões. Por isso, os Anciões meteram na cabeça das pessoas que deviam ser elas próprias a forma de vida que se iria espalhar pelo Universo. Esta era uma ideia absurda, obviamente. Como disse o autor anónimo: “Como poderia toda aquela carne, que precisava de tanta comida e água e oxigénio, e que tinha uma evacuação intestinal enormíssima, esperar sobreviver a uma viagem, por muito curta que fosse, pelo vazio ilimitado do espaço exterior? Era um milagre que tais gigantes vorazes e desajeitados pudessem ir à mercearia mais próxima e voltar com um saco de compras.”

Por acaso, os Anciões tinham desistido de influenciar os humanóides de Tralfamadore, que estavam mesmo por baixo do sítio em que eles estavam reunidos. Os tralfamadorianos tinham sentido de humor, e por isso tomavam-se por imbecis severamente limitados, para não dizer doidos, coisa que eram realmente. Estavam imunes aos quilovolts de orgulho com que os Anciões agitavam o seu cérebro. Desatavam logo a rir quando irrompia na sua cabeça a ideia de que eles eram a glória do Universo, e que deviam colonizar outros planetas com a sua incomparável magnificência. Embora soubessem falar e alguns deles soubessem ler e escrever e fazer contas, tinham a noção exacta de como eram desajeitados e burros. Houve um autor que escreveu uma série de sátiras hilariantes sobre tralfamadorianos que chegavam a outros planetas com a intenção de difundir o saber.

Mas as pessoas aqui da Terra, como não tinham sentido de humor, acharam a mesma ideia bastante aceitável.

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Os Anciões achavam que as pessoas daqui acreditariam em qualquer coisa sobre elas próprias, por muito absurda que fosse, desde que essa coisa as lisonjeasse. Para terem a certeza disto, fizeram uma experiência. Meteram na cabeça dos terrestres que todo o Universo tinha sido criado por um grande animal do sexo masculino que era mesmo parecido com eles. Ele estava sentado num trono com uma série de tronos menos catitas à sua volta. Quando as pessoas morriam iam sentar-se nesses outros tronos, pois eram parentes muito chegados do Criador.

As pessoas aqui de baixo engoliram simplesmente isto tudo!

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Outra coisa de que os Anciões gostavam nos terrestres era o facto de estes recearem e odiarem os outros terrestres que não se parecessem ou falassem exactamente como eles. Transformavam a sua vida num inferno, bem como a vida daqueles a que chamavam “animais inferiores”. Na verdade, viam os estranhos como animais inferiores. Por isso, tudo o que os Anciões tiveram que fazer para se assegurar de que os germes iam passar tempos verdadeiramente difíceis foi dizer-nos, através do estudo da Física e da Química, como construir armas mais eficientes. Os Anciões não perderam tempo.

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Fizeram cair uma maçã na cabeça de Isaac Newton.

Fizeram o jovem James Watt empinar as orelhas quando a chaleira da sua mãe chiava.

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Os Anciões fizeram-nos pensar que o Criador do grande trono odiava os estranhos tanto como nós, e que nós Lhe faríamos um grande favor se tentássemos exterminá-los por todos os meios possíveis.

Isto resultou em cheio aqui em baixo.

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Assim, não passou muito tempo até termos feito os venenos mais letais do Universo e infestado o ar e a água e o solo. Como disse o autor, e eu gostaria de saber o seu nome, “Os germes morreram aos triliões ou não conseguiram reproduzir-se, pois já não aguentavam aquele fumo de cortar à faca.”

Mas alguns sobreviveram e até floresceram, embora quase todas as outras formas de vida da Terra tivessem perecido. E quando todas as restantes formas de vida desapareceram, e este planeta ficou tão estéril como a Lua, alguns hibernaram como esporos virtualmente indestrutíveis, capazes de esperar o que fosse preciso até se dar o próximo impacto afortunado de um meteoro. Deste modo, as viagens espaciais tornaram-se por fim verdadeiramente exequíveis.

Kurt Vonnegut

Nota do tradutor

Esta é uma tradução de parte dos capítulos 25 e 26 de Kurt Vonnegut, Hocus Pocus. Para saber mais sobre os tralfamadorianos e sobre Kilgore Trout, o fictício autor anónimo de “Os Protocolos de Tralfamadore”, leia Matadouro Cinco, publicado pela Editorial Caminho na sua colecção de ficção científica. Este costuma ser considerado o melhor livro de Vonnegut. Outro livro muito bom deste autor que está disponível na mesma colecção é Galápagos, uma estranha utopia darwinista.

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