As Trevas Inocentes, de Manuel Frias Martins

Rememoração

Maria João Cantinho
As Trevas Inocentes, de Manuel Frias Martins
Aríon, 2001, 242 pp.

Manuel Frias Martins é sobejamente conhecido dos circuitos académicos literários e do leitor atento ao que se vai fazendo, na área da crítica literária. Tendo-se notabilizado pela prática docente e pelos artigos que foi escrevendo ao longo dos anos, mantendo ainda um programa radiofónico de crítica e divulgação literária, distinguiu-se particularmente pela sua tese de doutoramento, Matéria Negra, onde desenvolve a sua teoria literária, de forma original, clara, rigorosa e concisa.

A prática de jornalismo cultural e escrita crítica ressuma em todos os seus textos, de uma forma despretensiosa e acessível, e as suas análises são objectivas e acutilantes. Durante muitos anos, publicou regularmente no jornal cultural "Artes e Letras" uma série de artigos de grande qualidade literária e decidiu, alguns anos após ter abandonado essa actividade no jornal, reunir todos os artigos e ensaios que aí publicou. E ainda bem, o leitor agradece-lhe. Sabe-se bem como a actividade jornalística se dissipa na sua própria efemeridade e a melhor forma de salvar o que considero ser um trabalho de qualidade e honesto (se é que este conceito ainda possui algum valor ético na crítica que se vai fazendo) é, de facto, optar pela solução de reunir esses "fragmentos" avulsos, dando-lhes um continuum, que evidencia uma reflexão crítica, séria e atenta, sustentada pela investigação inquieta. Pena é que esta colectânea de ensaios e artigos tenha passado tão discretamente ao lado dos meios de divulgação e, sobretudo, é lamentável que o jornal "Artes e Letras", não lhe tenha dado qualquer destaque, quando salienta autores cuja qualidade literária é, tantas vezes, duvidosa.

Gostava de começar justamente pelo início, onde o autor se confessa, dizendo as razões pelas quais foi levado a abandonar a sua actividade de crítico, salientando a sua coerência. Permita-me que o cite:

É urgente aproveitar o tempo a que o acaso nos condenou. Por mim, decido: abandono a crítica para ler a literatura, a minha literatura, aquela que eu sonho que me ensina a descobrir o renascimento de si mesma [...]. Tranquilamente saio de cena [...].

Naturalmente que a atitude de Frias Martins suscita a nossa perplexidade, mas não vejo aí nenhuma contradição, mas sim o gesto daquele que ama a literatura e a ela quer consagrar-se por inteiro, contornando as contingências da crítica literária e do jornalismo. E de tal forma se assume nesse gesto que julga relevante a reedição daquilo que considera ter sido o objecto de uma parte significativa da sua investigação, ao longo desses anos, isto é, repetindo um gesto por excelência literário, a rememoração.

Desde logo, gostaria de chamar a atenção do leitor para o primeiro artigo da obra, Prelúdio (In) Tranquilo. Justamente na página 17 da sua obra, Frias Martins analisa "a frio" e admiravelmente o papel da violência, quer na literatura, quer em nós próprios. A violência preside à literatura como um instinto vital e genesíaco. Basta lembrar, como o faz o autor, as obras de Dostoievski ou Kafka (aqui sou eu a lembrá-lo), tomando-os como paradigma de uma violência surda e absurda que irrompe na literatura e nela floresce, como uma pulsão dionisíaca e vital, obscura e que jamais é abandonada, por alguns autores, considerados marcos fundamentais da história da literatura. Essa violência pode tomar vários rostos, mas reflecte essencialmente uma característica fundamental da literatura, ao longo destes dois últimos séculos, o "estilhaçamento" ou a "fragmentação" da experiência humana e a sua descontinuidade. O gesto do escritor é o daquele que cria modalidades de existência e isso remete-nos imediatamente para o poder simultaneamente deflagrador e genesíaco dos grandes escritores.

É nitidamente visível uma apetência do autor pela poesia portuguesa. Mas, apesar disso, encontramos as mais diversas correntes literárias e os mais variados autores que foram, ao longo destes anos, marcando e povoando a literatura portuguesa, dando margem e voz a certos autores que, apesar de se encontrarem hoje tão esquecidos, foram tão significativos na literatura portuguesa, num percurso traçado de forma, não historicista e esquemática, mas sim dinâmica, revelando um olhar atento à conjuntura em que esses textos cresceram e se desenvolveram, revelando o espírito da sua época.

Numa prosa simples e acessível, Manuel Frias Martins vai-nos dando conta dos autores e das suas obras e procura evitar os critérios elitistas que determinam o monopólio da crítica literária, consagrando a cada autor a atenção necessária, contextualizando-os, lembrando-os. E deixa-nos, também a nós, a pensar: será que a crítica literária vale a pena? E retoma o problema de Blanchot, a dor do diálogo ou o que é o mesmo que dizer o diálogo (im)possível com a literatura.

Também nós ficamos (in)tranquilos e esse é o mérito fundamental da crítica literária, obrigando-nos constantemente a repensar os cânones literários, as interpretações possíveis, os critérios que estabelecem ou não a qualidade literária de um texto.

Apesar de não ser um livro fresquinho para o Verão, estação em que prevalecem quase sempre as inutilidades literárias, não deixe de ler esta obra significativa e que tão discretamente passou nos meios literários, correndo o risco de não ser devidamente avaliada.

Maria João Cantinho
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