A Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster

Um mago da escrita

Maria João Cantinho
A Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster
Tradução de Alberto Gomes
Edições Asa, 1999, 309 pp.
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A Trilogia de Nova Iorque é, sem dúvida, a obra mais emblemática deste autor e, provavelmente, a mais conhecida dos leitores portugueses. A relação privilegiada que Auster mantém com o cinema (lembre-se de Lulu on the Bridge, e do belíssimo Smoke) contribuiu decisivamente para a sua divulgação, quer junto do leitor americano e europeu, quer junto do português. A relação entre o cinema e a literatura é sempre duvidosa e, na maior parte das vezes, a balança pende desajustadamente, acarretando com frequência o nosso dissabor e a nossa desilusão. Ultimamente temos vindo a assistir a uma sobrevalorização cinematográfica da literatura norte-americana, xaroposa e lamechas, que pouco ou nada se afasta da emoção "estética" suscitada pelas telenovelas. Por isso, quase todas as aproximações à literatura norte-americana, por via do cinema, são, no mínimo, uma pura perda de tempo, por causa da falta de qualidade apresentada (pelo menos, é o que penso).

Com alguma desconfiança e, obviamente, muitos preconceitos, comecei a ler A Trilogia de Nova Iorque. Paul Auster é sublime. E se não é um génio (porque não acredito em génios), anda lá perto. Desde que olhei para a primeira frase, desde o primeiro conto, o meu olhar ficou agarrado e nunca mais consegui parar. O ritmo que Paul Auster imprime à sua escrita é o resultado de uma intensa e maravilhosa sabedoria de que só os grandes magos da escrita detêm o segredo. Nessa combinação alquímica aliam-se o peso, a precisão das palavras e a simplicidade de uma prosa límpida, que é posta ao serviço de uma reflexão ácida e cínica, diria cruel, sobre a sociedade moderna e a solidão das grandes metrópoles. Lê-se com horror, mas, ao mesmo tempo, esse horror (por nós imaginado e onde nos identificamos) é trespassado por uma profunda beleza, a beleza precária de uma rosa ou a beleza do ocaso. São histórias descritas de forma simples, saborosas, e, ao mesmo tempo, incómodas. Paul Auster é um contador de histórias, no pleno e legítimo sentido do termo, deixando-nos presos às suas palavras desde o início, provocando no leitor uma adesão imediata, um prazer irrecusável.

Arquitectonicamente, poderíamos comparar a Trilogia de Nova Iorque a uma sinfonia, constituída por três andamentos — e essa intenção aparece de forma latente nos dois primeiros contos, Cidade de Vidro e Fantasmas, mas revela-se no último conto, O Quarto fechado à Chave, quando o protagonista (onde descortinamos o alter-ego de Auster) afirma:

Todavia, o fim é claro para mim. Não esqueci isso, e sinto-me com sorte por ter ao menos mantido isso em mente. Toda esta história se resume ao que aconteceu no fim, e sem esse fim agora dentro de mim, eu não poderia ter começado este livro [...] Estas três histórias são afinal, a mesma história, mas cada uma representa uma diferente etapa da minha consciencialização sobre aquilo que cada uma aborda.

Uma mesma ideia habita o coração secreto desta obra e ela vai-se desdobrando, desenvolvendo, conhecendo várias formas, fixando-se, afirmando-se nos vários personagens, nos diferentes topos (que se revelam sempre como labirintos fatais onde o(s) protagonista(s) se enclausura(m)). Essa ideia, que se vai desdobrando e mostrando, constitui-se sempre como uma configuração renovada do absurdo, e é com horror que descobrimos que não há indivíduo, não há identidade, mas apenas a repetição (a repetição é apanágio de Satã), a experiência alienada do homem, numa incessante metamorfose.

O que Auster faz, o que escreve, não é original. E o autor não se reclama como tal, encontramos na sua obra inúmeros ecos e ressonâncias (mais ou menos ocultas) de Kafka, Nataniel Hawthorne, E. A. Poe, Melville, Whitman, Chesterton, da tradição místico-cabalística (que o autor parodia sobretudo no primeiro conto e é preciso não esquecer a sua origem hebraica), Baudelaire e tantos que, aqui, talvez não valha a pena enumerar. As figuras típicas de Poe, a figura do detective que persegue a sua vítima e nela se perde, o flânneur que vive a vida de outrém (perdendo a sua identidade e também a sua racionalidade), são figuras sobejamente conhecidas e exploradas pelos escritores do século XIX, que prefiguraram o fim do individualismo, transfigurando, através da sua literatura, a sua impotência pela constatação da perda da experiência humana autêntica. O que é verdadeiramente fascinante é o modo como alquimicamente se transmuda essa matéria em Paul Auster e a forma como o autor combina a tradição e herança literárias do modernismo mais esplendoroso, numa sinfonia derradeira, numa tragédia pós-moderna, onde a perda da individualidade se torna cada vez mais trágica e mais incontornável, num mundo onde a solidão e o horror das grandes metrópoles se enverniza e se mascara por detrás de um consumismo desenfreado, qual deus desconhecido despojando-nos da nossa alma, ocultando os inúmeros e vertiginosos rostos do vazio.

No primeiro conto, Cidade de Vidro, um escritor de romances policiais, Quinn, figura na qual identificamos com surpresa o próprio Auster (Quinn acaba por assumir o nome de Auster, ao longo de toda a narração) ou um duplo seu, é surpreendido, em três dias seguidos, por um estranho telefonema e arrastado para uma investigação que, à primeira vista, nos parece normal (é solicitado para proteger Peter Stillman). O escritor Quinn, que é procurado pelo nome de detective Auster, assume, então, o papel de detective e inicia a sua investigação. Peter Stillman sente-se ameaçado de morte pelo seu pai, que está prestes a sair de uma instituição mental. A partir daqui vemo-nos envolvidos numa situação insólita, perante a qual o detective Quinn, duplo de Auster, se revela impotente para resolver. Pouco a pouco, vamos assistindo à decifração de estranhos sinais, mas à medida que Quinn avança na sua compreensão e interpretação, encerra-se também num estranho labirinto.

No segundo conto, Fantasmas, há um outro detective, de nome Blue. Os outros personagens chamam-se, curiosamente, White, Black e Brown. O caso parece, à partida, extremamente simples: White incumbe Blue de seguir Black. Só que nesta absurda perseguição nós, leitores, deixamos de saber quem é quem, quem segue o quê ou quem. Sustentam-se no olhar um do outro, seguem-se um ao outro. Alguém, que lhes é exterior, os terá incumbido dessa críptica missão.

O terceiro conto, O Quarto Fechado, é de todos o mais belo, o mais terno, o mais comovente. Fanshawe, o personagem central, é um ser ausente, mas que contamina todo o universo em seu redor. Através de uma carta da sua mulher Sophie, descobre que o seu amigo de infância desapareceu, sem deixar qualquer rastro atrás de si. E aqui começa uma estranha missão, que o levará à redescoberta da infância e do passado, à descoberta do amor, mas também à sua própria perda.

Ao longo de toda a obra, caro leitor, há um misterioso caderno vermelho, elemento que persiste como um fio condutor, na qual se cruzam todas as descrições, relatos e histórias dos vários protagonistas. Deixe-se chegar ao fim para descobrir o que é feito do tal caderno vermelho...

É o puro prazer de contar histórias que alimenta Auster, histórias que se cruzam por dentro de outras histórias, e nós vamos caminhando por esse trilho, situado entre dois abismos, que se abrem por todos os lados... Poderíamos, ainda, dizer, como Kafka, que o único caminho seguro é aquele que os nossos pés pisam.

Resta-me o elogio à tradução. Não é que tenha lido o original, para poder estabelecer comparações, mas quero sobretudo notar o rigor e o cuidado do tradutor em manter o sentido das expressões e dos jogos de palavras usados pelo autor e que tão caros lhe são. Assim, vale a pena ler as obras traduzidas.

Maria João Cantinho
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