Das Tripas Coração, de Ana Nobre de Gusmão
Livros

A guerra dos sexos já pertence à história

Helena Vasconcelos
Das Tripas Coração, de Ana Nobre de Gusmão
Edições Asa, 2000, 386 pp.
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Diz-se que "um homem não chora". Também é comum afirmar-se que um homem "a sério" não quer saber de crises de idade, não fica a um canto a carpir mágoas, a deprimir-se, a sentir-se mal na sua pele, à espera de ser "salvo" por algo ou alguém. Tudo isso são coisas de mulheres histéricas, de seres fracos por natureza, que não sabem conviver com o passar dos anos, com as rugas que aparecem onde menos se espera, com uma casa subitamente vazia e o infernal desregramento das hormonas. Os homens "a sério" saem para a rua, metem-se nos seus automóveis e aceleram, bebem uns copos, juntam-se aos amigos naquela "fraternidade de irmãos" de que fala Robert Bly, engatam miúdas, vão ao futebol e, se possível, ganham mais dinheiro e compram o amor onde for possível. Um homem, quando tem problemas, não arrepanha os cabelos, se ainda os tem, nem se mete na cama a chorar, agarrado ao frasco de anti-depressivos. Um homem "a sério" AGUENTA.

"Antes engolir que cuspir", diz o "herói" de "Das Tripas Coração", o extraordinário e surpreendente romance da autora de "Aves do Paraíso". Eduardo descobre um dia que tudo o que lhe foi incutido, por educação, tradição cultural e enquadramento social, já não consegue travar a rápida e vertiginosa progressão para uma situação que ele não controla. Nada, no seu habitat natural, o preparou para a ansiedade que se instalou, sem pré-aviso, na sua vida. O médico de Clínica Geral, na falta de sintomas de uma qualquer doença que explique tanto desconforto, despacha-o para um analista, ideia que, a princípio, é rejeitada com se de um insulto se tratasse. Mas Eduardo acaba por capitular. Entre um filho que acabou de sair da adolescência, os pais nas desventuras da "terceira idade", dois casamentos falhados para trás e um emprego monótono, ele descobre que está só e desamparado, num universo que lhe é estranho. O "cowboy" solitário, o gladiador sem medo, o vingador capaz de aniquilar inimigos reais, não passa de um homem de meia idade, com a barriga a crescer e o cabelo a diminuir, os problemas a aumentar e a capacidade de sedução a regredir. Eduardo apercebe-se que se zanga com facilidade, só vê o lado negativo das coisas, não compreende o filho com quem mantém um diálogo de surdos-mudos, perde a paciência com a hiper actividade da mãe, sente-se inquieto, agitado, em tensão permanente. Só as mulheres (muito) mais novas, que o olham com um misto de desconfiança e indiferença, é que o atraem, mas o sexo já não funciona como paliativo. O pânico é o seu melhor companheiro, como as noites mal dormidas e a sensação de que "não pertence a lado nenhum". Tudo o surpreende pela negativa: as lágrimas da amiga e colega Diana, cujo marido é alcoólico, o pai que, no lar de velhos a que está confinado, está cada vez mais desbocado e fala de sexo como nunca, a gravidez da namorada do filho, a ex-mulher que arranjou um amante, o casamento, (ou seja, a "deserção") de Daniel, o amigo das farras, das bebedeiras e do engate, a mãe que precisa dele, que exige dele, o que ele nunca imaginou ter que dar.

Num estudo recente, "The War Against Boys", a filósofa Christina Hoff Sommers afirma que "são os rapazes que estão, agora, em perigo", apontando para o facto de que a educação tradicional já não dá resposta aos problemas de uma sociedade em que os papéis se inverteram ou baralharam. As mulheres já não ficam em casa a tratar dos filhos ou dos pais idosos, os homens já não podem seguir a sua senda gloriosa de independência orgulhosa e de "liberdade" egoísta. O pano caiu. A guerra dos sexos já pertence à história.

Ana Gusmão inventa um personagem que tem um pouco de todos nós, com as angustias referentes ao avanço dos anos e às conjunturas da vida em termos familiares, sociais, amorosos. É tempo de seguir os passos de Eduardo e descobrir, com ele, como se luta (bem ou mal) pela harmonia e equilíbrio entre homens e mulheres, entre o Tempo e a realidade. Por ironia, (ou talvez não), cabe às mulheres, como neste caso, chamar a atenção, com compaixão, ternura, humor e sabedoria, para o que se passa do outro lado da barricada.

Helena Vasconcelos
hvasconcelos@hotmail.com
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