The Truth Machine

Como seria se ninguém pudesse mentir?

Desidério Murcho
The Truth Machine, de James L. Halperin
Ballantine Books, 1996, 332 pp.
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Imagine o leitor que se inventa um detector de mentiras 100% fidedigno: uma máquina capaz de detectar se as pessoas estão ou não a dizer a verdade. Imagine a diferença que isso faria nos tribunais. E na política. E na economia. E nas nossas vidas pessoais. Ou melhor: em vez de imaginar tudo isso sozinho, deixe-se estimular pela leitura deste romance fabuloso. Deixe-se conduzir pela bem urdida trama imaginada pelo autor, pelas consequências legais, políticas, económicas e sociais que o autor imagina que a existência de uma máquina destas poderá acarretar.

A verdade é um conceito central nas nossas vidas; na realidade, é um conceito central de qualquer espécie viva, pois se quiser manter-se viva terá de esforçar-se para que as suas crenças coincidam tanto quanto possível com a verdade. (Veja-se o artigo de Dennett publicado na Disputatio). Ao contrário do que os pós-modernistas, relativistas e outras manifestações irracionalistas deste final de século nos querem fazer acreditar, a verdade não é “apenas mais um conceito”; é o conceito sem o qual falar do que quer que seja, incluindo outros conceitos, se torna num exercício vácuo. (Veja-se como este tipo de atitude deu origem à maior gafe do mundo académico contemporâneo quando uma revista de estudos “críticos” publicou um artigo delirante, propositadamente delirante, e cheio de erros: o embuste de Sokal cujo significado é discutido por Boghossian na Disputatio). Mas para além destas disputas filosóficas, a verdade é o conceito sem o qual as relações sociais, económicas, políticas e pessoais não passam de um infantil jogo perigoso. E quando pensamos na possibilidade de podermos saber com toda a certeza quando alguém está a mentir… bem, o campo de possibilidades que se abre à nossa frente é, no mínimo, altamente estimulante.

O romance é extremamente ambicioso e revela preocupações sociais que são consistemente tratadas ao longo das suas páginas. A construção dramática dos personagens é também bem conseguida, o que permite que se atinja o final do livro com muita emoção — gera-se a empatia mais do que necessária para que o destino de alguma forma trágico do personagem principal nos toque profundamente. Um aspecto que gostava de realçar: em matéria de antecipação, este final de século tem conhecido os mais negros presságios, fruto talvez de uma sociedade profundamente doente e com um futuro pericilitante. O futuro de alguma forma brilhante que este romance nos propõe não deve ser encarado como uma fantasia inconsequente, mas como uma tentativa de nos mostrar uma saída possível para o labirinto social, político e económino em que nos encontramos. O que é espantoso é pensar no imenso impacto que um acto tão simples pode ter na nossa civilização. Afinal, talvez a verdade seja realmente a nossa única salvação.

Desidério Murcho
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