Kant e o Ornitorrinco, de Umberto Eco
10 de Agosto de 2004 ⋅ Filosofia da linguagem

Simular saber o que não se sabe

Desidério Murcho
Kant e o Ornitorrinco, de Umberto Eco
Trad. de José Colaço Barreiros
Lisboa: Difel, 1999, 527 pp.
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Esta obra assume-se como um ensaio sério na área da filosofia da linguagem e da semiótica (seja lá isso o que for). Mas é tudo menos um ensaio realmente sério; trata-se apenas de uma deambulação mais ou menos delirante plena de eruditas referências desnecessárias, poucos argumentos e muita confusão.

Todavia, Eco é um escritor bem humorado e relativamente claro. Escreve com graça e desenvoltura, sempre a piscar o olho ao leitor, mas inscreve-se numa tradição intelectual que se caracteriza pela constante vagueza e por tiradas sensacionalistas que geralmente começam pela expressão "Todo o…". Eis um exemplo: "Toda a filosofia da linguagem vem defrontar-se não só com um terminus ad quem mas também com um terminus a quo." (p. 24). O primeiro representaria, para Eco, o problema seguinte: "a que nos referimos quando falamos?"; o segundo, este outro: "O que nos faz falar?". É muito mais pomposo afirmar que toda a filosofia da linguagem se defronta com esses dois problemas do que afirmar que esses são dois problemas importantes da filosofia da linguagem, mas que não esgotam os problemas importantes desta disciplina. Este tipo de afirmação modesta e mais rigorosa não faz parte do tipo de tradição intelectual em que o autor se inscreve. Mas, pior ainda, os dois problemas que supostamente seriam os problemas fundamentais da filosofia da linguagem, não são, nem um nem outro, problemas da filosofia da linguagem.

Não compete à filosofia da linguagem saber a que nos referimos quando falamos; esse não é o problema da referência que, todavia, é realmente um problema central na filosofia da linguagem. E ainda menos compete à filosofia da linguagem saber o que nos faz falar. Isso competirá a ciências como a psicologia ou a antropologia. É duvidoso que este tema possa ser investigado com seriedade recorrendo exclusivamente a meios não empíricos, pois esta parece uma questão claramente empírica — isto é, algo que só podemos descobrir recorrendo aos métodos tradicionais das ciências empíricas.

O problema da referência é este: que mecanismo podemos apresentar que explique o fenómeno da conexão entre a linguagem e o mundo? Esta pergunta, como muitas outras perguntas sobre questões fundamentais, parece patética e talvez tenha sido por isso que Eco não a compreendeu. Torna-se mais fácil compreendê-la por meio de uma analogia. A pergunta "Por que razão caem os objectos?" parece patética — nós já sabemos que os objectos caem. Mas a pergunta é interessante, apesar da sua aparência trivial; é preciso explicar o mecanismo da queda dos objectos, o que Newton conseguiu fazer pela primeira vez de forma articulada e empiricamente fundamentada.

O mesmo acontece com a questão da referência. Tome-se o caso dos nomes próprios. É claro que sabemos que o nome "Umberto Eco" denota Umberto Eco. Isto é trivial. Esta trivialidade pode levar-nos a pensar que nada há para explicar. Mas isto é tão trivial como a queda dos objectos; analogamente, falta-nos ainda descrever o mecanismo que explique este facto. Como se vê, não se trata de saber a que nos referimos quando falamos. O que a filosofia da linguagem procura esclarecer é o mecanismo que permite falar de Umberto Eco quando usamos o nome "Umberto Eco". Mas nesta obra não se encontra nem uma exposição clara e precisa do problema da referência, nem uma teoria para o resolver, nem uma caracterização e discussão das teorias actuais sobre o tema. E a referência é apenas um dos muitos temas maltratados e confusamente apresentados nesta obra de Eco.

A estratégia geral de Eco é esta: cada afirmação, por mais trivial que seja, que possa ser "defendida" com uma citação ou uma referência a um autor qualquer, Eco recorre ao autor. Isto dá imediatamente ao leitor a impressão de estar perante uma obra extremamente erudita, o que é verdade. Mas é então que os estreitos limites da competência filosófica de Eco se revelam: ao lado de uma citação ou de uma referência a um grande autor só para dizer uma banalidade qualquer, vem a reflexão original de Eco — e aqui cai todo o edifício, pois essa reflexão é, regra geral, tola. A erudição de Eco, que lhe permite fazer imensas referências cruzadas, tem uma função muito precisa: disfarçar a incompetência intelectual do autor.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado na revista Livros, (20 de Abril de 2000).
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