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Livros

Herrância e visitação

Maria João Cantinho
Vagabundagem na Poesia de Ramos Rosa, de Casimiro de Brito
Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2001, 132 pp.
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O poeta está despossuído de tudo menos das suas sílabas pobres: está nu e esgravata no chão, buscando, procurando, sabendo embora que a "esperança enlouqueceu". Há que buscar no vazio, regressar à fonte branca, ao deserto límpido e seco, ao silêncio. (pág. 31)

Poeta de obra vastíssima — trinta e três títulos — e percorrendo vários registos como o da ficção, do ensaio e do aforismo, Casimiro de Brito acaba de publicar um livro composto por vários ensaios, a que tão adequadamente chamou "vagabundos", sobre a obra do poeta António Ramos Rosa (também agora recentemente publicado em Antologia Poética da D.Quixote, organizada por Ana Paula Coutinho Mendes). Segue-se, a esse corpo de ensaios, sintéticos e muito bem escritos sobre a obra de Ramos Rosa, focando os vários aspectos da poética roseana e essencialmente a própria natureza da poesia e do dizer poético na sua obra, uma antologia de poemas de António Ramos Rosa.

Uma ideia de errância através da "visitação" da poesia roseana ressuma desde logo, no primeiro ensaio, em que o autor conjuga a sua erudição com a simplicidade da sabedoria e a depuração da linguagem, afirmando uma via possível de acesso, sinuosa, a via da vagabundagem, sem destino certo, mas definida pela atenção ao ínfimo detalhe e pelo fragmento, pelo amor às palavras e metáforas poéticas. Poucas pessoas estariam à altura de realizar esse percurso de errante vagabundagem e que melhor mão para nos guiar, senão Casimiro de Brito e João Rui de Sousa, amigos íntimos do poeta e colaboradores naquelas que foram as célebres revistas de poesia Árvore, Cadernos do Meio-Dia e, ainda, Poesia 61?

Parafraseando um filósofo que me é tão caro, Walter Benjamin, a escrita confirma-se sempre como um gesto derradeiro, a suspensão ou a perda do fôlego, a respiração irregular e persistente que mantém a sobrevivência da palavra contra a morte e contra o silêncio. Trata-se, pois, de fazer deste mundo, onde se instaura a suspensão do mundo, sinal da perda e símbolo de um mundo disperso e fragmentário (num sentido de alienada experiência), um refúgio ou a clareira, a "fonte luminosa" onde se abre o sentido do poema.

Procurar o brilho do que foi, a aura ou o vestígio, para restituir o sentido existencial do mundo, esta é a aspiração do poeta e que, em Ramos Rosa, como nos afirma Casimiro de Brito, nos aparece paradoxalmente como uma "busca sem esperança", embora inevitável, inadiável, como todos os gestos ditados pelo amor.

O paradoxo da poesia, como refere o autor, é que “a grande aspiração é [...] o silêncio, "un mot que n'est pas un mot", dizia Bataille desse silêncio que nos perturba antes e depois de cada poema.”

Evitando a dissecação árida e esquemática da poética de Ramos Rosa, Casimiro de Brito envereda pela simplicidade da análise, retomando, no entanto, e de forma bem profunda, a problemática fundamental e inerente ao dizer poético. Que paixão transporta o poeta na sua respiração? Que sopro, que pathos, se encontra nela subjacente, nessa poética onde a pobreza e a depuração se converteram na "pedra de toque" do dizer ou do nomear poético?

Desta disseminação do corpo e da sua existência, desse paradoxo do corpo em conflito consigo próprio e em contacto anímico e mágico com o mundo, ouvido atento ao rumor da terra e à sua força telúrica, fala-nos também Casimiro de Brito, confessando-nos a sua idêntica e contagiante obsessão, assumindo o dizer poético como a "febre", a doença que confina o poeta ao umbral entre o indizível e o dizível, a misteriosa fronteira que, sendo o limite do próprio dizer, a fractura da linguagem, impele e alimenta o poeta como uma tensão erótica e irrecusável.

Reconhecendo em Ramos Rosa essa dimensão salvífica que a poesia possui intrinsecamente, pelo querer dizer, pelo esforço de alcançar o coração da palavra, destaca-a, no entanto, da poesia hierática, ao gosto de alguns poetas portugueses, preferindo a metáfora mais ligada ao mundo animal e mineral. O caminho do poeta, a sua errância, é um constante retomar da terra, numa metaforização cada vez mais ampla e abrangente, repetindo o gesto animal, a pedra cada vez mais nua, a voz da terra. E é essa intensa irradiação que confirma cada vez mais a dicção do silêncio, numa procura nómada e sedenta da água, pela errância no deserto.

Apetece ler este livro precioso, que faz retomar a reflexão sobre a dignidade e a função da poesia. Escrito de forma clara e límpida, radical como só o pensamento verdadeiramente poético o pode ser, transgredindo, ousando. Por isso mesmo, vagabundo e incerto, errante, sempre à procura do seu centro.

Maria João Cantinho
mjcantinho@hotmail.com
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