Diário, de Getúlio Vargas
8 de Setembro de 2004 ⋅ Livros

Fragmentos do diário de uma paixão

Antônio Ribeiro de Almeida
Diário, de Getúlio Vargas
Fundação Getúlio Vargas, 1995, 682 pp., 2 vols.

Em 24 de agosto passado os brasileiros voltaram a rever a figura de Getúlio Vargas na data que marcou os 50 anos do seu trágico suicídio. Livros foram publicados e despertou renovado interesse o seu "Diário" publicado em dois volumes pela Fundação Getúlio Vargas e a Livraria Siciliano. Deve-se à pesquisadora Celina Vargas do Amaral Peixoto, neta de Getúlio Vargas e membro do Centro de Pesquisas e Documentação de História Contemporânea do Brasil — CPDOC — da Fundação Getúlio Vargas, a publicação dos dois volumes do Diário de Getúlio Vargas. Este Diário ficou guardado durante muitos anos pela sra. Alzira Vargas do Amaral Peixoto, mãe de Celina, que manteve completo silêncio sobre o mesmo. Alzira, pelo que relata Celina, tomara conhecimento das anotações que Vargas fazia nuns cadernos e perguntou ao pai sobre os mesmos e ele lhe disse que os havia destruído. Ela não se convenceu e quando recebeu a documentação do pai, após sua morte, pesquisou aqueles escritos. Encontrou-os e começou uma classificação dos mesmos. Publicado em 1995 ele mostra aos brasileiros um Vargas que não sonhavam existir. As gerações atuais apenas conhecem de Vargas pelos rótulos que lhe são postos como de "autoritário, fascista, o algoz de Olga Prestes". Desconhece-se o Vargas às voltas com os seus problemas domésticos, com a intrigalhada que o cercava e que ele busca desmanchar, como o homem que busca a solidão e a teme; como o homem que vive uma grande paixão, como o presidente que trabalhava altas horas da madrugada e que se confessa preso nas mãos do Exército e sem força para enfrentar nazistas como o General Dutra, Ministro da Guerra e Góis Monteiro, chefe do Estado Maior. Ao iniciar o seu Diário no dia 3 de outubro de 1930 pode-se perceber nele um eco das Confissões de Rousseau quando escreveu:

"Lembrei-me que, se anotasse diariamente, com lealdade e sinceridade, os fatos de minha vida como quem escreve apenas para si mesmo, e não para o público, teria aí um largo repositório de fatos a examinar e uma lição continua da experiência a consultar." (p.3).

São possíveis muitas leituras do Diário, como, por exemplo, de seus conflitos psicológicos, do seu jogo diplomático com os Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra antes da Grande Guerra; da sua rotina de trabalho; do seu apego ao golfe; etc. Neste estudo selecionei do seu Diário algumas passagens que se referem à avassaladora paixão de que foi tomado pela sra. Aimée Simões Lopes, esposa do seu ajudante de ordens Luís Simões Lopes. Meus comentários resultam do meu conhecimento histórico daquela época, algumas interpretações e do treino que como psicólogo tive dos meus estudos sobre o comportamento verbal. O que estiver destacado ou entre aspas refere-se ao que Vargas escreveu e o restante são os meus comentários. Que cada leitor deste artigo forme o seu próprio juízo sobre esta paixão do caudilho que dominou a vida política do Brasil por mais de quarenta anos, e, se pode dizer,em sua consciência, aquela frase que Rousseau escreveu no preâmbulo das Confissões: "je fus meilleur que cet homme-là".

1936-1938

Entre os dias 10 e 11 de abril de 1936, Vargas faz um passeio a um sítio de uma amiga e conhece mais intimamente a Sra. Aimée Simões Lopes, esposa do seu ajudante de ordens Luís Simões Lopes. Passeiam a cavalo, conversam e ele anota no diário que a considera uma companhia alegre e inteligente. Somente em 1937, em abril, com seu estilo parcimonioso é que ele fala de um fato, sem especificar qual, de natureza sentimental e que lhe causou grande alegria. Vargas, não tinha pressa tanto na vida sentimental como nas ações políticas.

Doze dias depois ocorre o primeiro encontro íntimo entre ele e Aiméee, e, aos 55 anos ele se sente com energias novas, com maior confiança, mas temeroso de que esta felicidade não seja cortada por Deus. Seria isto a expressão de um sentimento de culpa e que o adultério levaria a uma punição? Embora não fosse católico praticante, e filosoficamente se declarasse um positivista, acredito que sua consciência era cristã. Já naquela época sabia-se, na roda íntima de Vargas, que não era feliz no seu casamento com a Sra. Darcy Vargas.

De maio até agosto sucedem-se os encontros num apartamento ou casa que ele chama de "ninho". Considera estes encontros "deliciosos, felizes e que trazem até risco de vida" embora valesse a pena enfrentá-lo. Temeria Vargas uma descoberta do seu affaire por parte do marido? Não há registro desta hipótese no diário, pois o Sr. Simões Lopes se manteve como fiel auxiliar de Vargas até 1954. Neste ano de 2004 a mídia volta seu interesse para o presidente que se suicidou há 50 anos e que está sendo visto com outros olhos pelos intelectuais, isto é, como um désposta esclarecido.

"Terminado o expediente, fui ao encontro da bem-amada." O tratamento para com Aimée muda profundamente. Getúlio está apaixonado e sempre se referirá a ela como a bem-amada. Denominando-a desta forma, a bem-amada, ele está dando à posteridade uma pista de quem é ela. Como Vargas falava fluentemente a língua francesa é quase certo que ele faz um jogo de palavras para que o nome dela fosse descoberto. Bem-amada, em português, e "bien-aimé", em francês. Acrescentando-se a letra "e" ao verbo temos Aimée, o nome da amada.

De novembro até 12 de dezembro os encontros se sucedem sem maiores problemas. Vargas nunca deixava de trabalhar intensamente, até alta madrugada, pois era o que hoje chamamos um "workaholic" Esta paixão, pelo que ele declara, lhe dá mais vida, mais energia, mas nesse ano já existe uma pergunta na sua consciência se ela poderia durar muito e quando um encontro não se realiza, seja pelo excesso de trabalho ou outra causa, ele sofre de depressão e insônia. No dia 12 de dezembro registrou que um jornalista foi à sua procura e lhe falou que um vidente teria previsto que sua morte seria violenta. Ele apenas registra o fato e não lhe dá maior importância. 1937 é também o ano do Estado Novo e Vargas institui a famosa Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) que dizem inspirada, mas não uma cópia, da Carta del Lavoro. Hoje, reconhece-se que Vargas nunca teria, via Congresso — composto pelas classes dominantes, como o é até hoje — obtido esta CLT que realmente libertou o operariado brasileiro. Para se ter uma idéia dessa legislação é ela que institui 8 horas de trabalho, férias remuneradas, pagamento das horas excedentes, convenções coletivas de trabalho, casas para operários e permitiu que os filhos da classe operária ascendessem na pirâmide social nas décadas dos 40, 50 e 60.

O affaire corre entre os anos de 1937 e 1938 e tem seu ápice nas estações de água de Minas Gerais que Vargas, com a família e vários ministros, freqüentava com assiduidade e prazer.

Dias 26 e 27 de março de 1937: Vargas está no sul de Minas e não interrompe seu trabalho; o avião é o meio que usa para receber e enviar seus despachos numa verdadeira ponte aérea com o Rio de Janeiro. Faz rigoroso tratamento nas águas, faz ducha, massagem, passeia muito a cavalo e joga golfe que era seu esporte predileto. Naqueles dias registrou:

Já na estação de Poços de Caldas... O encontro com minha mulher, postas de parte algumas queixas habituais foi afetuoso e conciliador. Mas estou inquieto e perturbado com a presença daquela que me despertou um sentimento mais forte do que eu poderia esperar. O local, a vigilância, as tentações que a rodeiam e assediam não permitem falar-lhe, esclarecer situações equívocas e perturbadoras. Amanhã, talvez, um passo arriscado ou uma decepção. O caminho se bifurca — posso ser forçado a uma atitude inconveniente.

Dias 28 e 29 de março: O encontro realizou-se, a inquietação passou. A bondade divina não me abandonou. Amanhã deverei novamente enfrentar o risco que a força incoercível de um sentimento me inspirou e impeliu. Novamente inquieto.

É muito provável que esta inquietação tenha surgido devido ao sentimento de culpa pelo adultério. Embora não fosse católico praticante a formação ética de Vargas vem da religião Católica.

Dia 30 de março: Levanto-me cedo e vou ao rendez-vous previamente combinado. O encontro deu-se em plena floresta, à margem de uma estrada. Para que um homem de minha idade e da minha posição corresse esse risco, seria preciso que um sentimento muito forte o impelisse. E assim aconteceu. Tudo correu bem. Regressei feliz e satisfeito, sentindo que ela valia esse risco e até maiores. À tarde, joguei a partida habitual de golfe e, à noite, fui ao jantar que me ofereceu o prefeito no cassino. Compareceram o interventor do estado (Benedito Valadares) que tem me acompanhado assiduamente.... minha família e a alta sociedade aqui residente ou em estação de águas. Ela lá estava, sem contestação, a mais bela de todas.

Dias 2 e 4 de abril, em São Lourenço: Comecei a trabalhar no despacho do expediente... A falta de contato com a bem-amada, a dificuldade de encontrar-me a sós, ao lado de sua constante presença e de seu irresistível encanto, perturbam-me com freqüência o trabalho que desejaria realizar, como lançam em meu espírito dúvidas e inquietações prejudiciais ao desempenho de minha missão.

Veja-se o conflito que se instala no psiquismo de Vargas entre os deveres e a sua missão e a paixão que o domina.

Dia 6 de abril: Foi um dia feliz. A vinda de um casal permitiu-me o encontro com a bem-amada, sofregamente desejado e bem aproveitado. Depois fomos a um churrasco em casa do sr. Guimarães... trabalhos. Cansado, já agora sem amarguras.

Dia 7 de abril: Trabalho durante toda a manhã... Comecei a tomar notas sobre a entrevista coletiva... à tarde, novo encontro. Soube então que, por conversa telefônica transmitida a outra pessoa, comentava-se no Rio os meus amores. Que o assunto fora tratado em casa do Osvaldo Aranha [Ministro do Exterior, amigo, temperamental e fonte de alguns problemas para Vargas] que deveria vir aconselhar-me. Tenho dúvidas, à vista da leviandade do informante.

Não está registrado que este aconselhamento tenha ocorrido. Vargas, como outros estadistas, sempre estabeleceu uma distância entre ele e o outro que nunca permitia que fosse diminuída, mesmo entre ele e íntimos colaboradores. Por isto é que era um solitário.

Dia 8 de abril: Não saio do hotel. Despacho todo expediente vindo do Rio. Novo encontro feliz. A vida se regulariza, trabalho com satisfação. Uma trégua às inquietações provocadas por esta paixão alucinante e absorvente que, encontrando sua válvula normal de descarga, tranqüiliza por momentos e constitui um motivo de exaltação para trabalhar e produzir. Sinto, porém, que não pode durar muito. Este segredo tem no seu bojo uma ameaça de temporal que pode desabar a cada instante.

Dia 11 de abril: Levantei-me cedo. Fui às termas tomar água e, de regresso, um novo encontro feliz com a bem-amada.

Dia 13 de abril: À tarde, após o almoço, encontro com a bem amada. À noite, após o jantar, nova conversa com o general Góis, que terminou o relato de suas impressões.

Dia 14 de abril Levantei-me cedo, fui às fontes tomar água. De regresso, encontrei-me com a bem-amada. Li muitos jornais, revi as provas da entrevista. Falta-me apenas a parte da siderurgia... Estou um tanto apreensivo com certos aspectos do caso sentimental.

Dia 16 de abril, sábado de Aleluia: Houve um animado baile no cassino do hotel. Enquanto a música e o batuque soam e me perturbam, eu fico no escritório a trabalhar. Tive uma notícia desagradável que vem confirmar o meu pressentimento sobre o caso sentimental. Talvez amanhã possa esclarecê-lo. Quem sabe se não será o começo do fim.

Dia 18 de abril: Pela manhã fui às termas e, de regresso, encontrei-me com a bem-amada, resgatando os sobressaltos anteriores, largamente compensados por esses momentos felizes. Assinei decreto proibindo atividades dos partidos políticos estrangeiros no Brasil [a proibição atingia o Partido Fascista que o governo de Mussolini apoiava nas famosas Casas da Itália, o Partido Comunista e o Partido Nazista também apoiados financeiramente por Moscou e Berlim]... novo encontro para a despedida.

Vargas passaria o seu aniversário, dia 19, numa fazenda e era seu costume afastar-se naquele dia para evitar cumprimentos, bajulações.

Dia 20 de abril: Neste dia, o presidente está de volta a São Lourenço depois de passar seu aniversário. Chega de tarde, depois de visitar a igreja de Silvestre /Ferraz e ser aclamado pela população local. Escreve: "Chegamos à tarde em São Lourenço. Encontrei-me com a bem-amada."

Dia 21 de abril: Levantei-me às 6 horas, apesar da gripe, fui à termas e, de regresso, novo rendez-vous, onde me despedi saudoso da bem amada. O intenso prazer do encontro compensou o pesar da próxima ausência.

Vargas ainda permanece em São Lourenço e é provável que a sra. Aimée, que fazia parte da comitiva, tenha regressado no avião da Panair com a sra. Darcy Vargas.

Dia 24 de abril: Ainda em São Lourenço, ele escreve: "Tenho me comunicado por telefone com a bem-amada."

Dia 27 de abril: Preparando-se para retornar ao Rio, sempre pela Panair do Brasil, escreve: "À noite, após longa e inquietante espera, conversei longamente pelo telefone com a bem-amada e adormeci tranqüilo."

Dia 29 de abril: Ele, que já está no Rio, sobe a Petrópolis para buscar papéis. Para aquela cidade serrana dirigia-se a elite carioca para fugir do verão carioca e lá estava a sra. Aimée. Vargas anota no diário:

Partindo pela manhã almocei no Rio Negro (Palácio) e, enquanto o camareiro arrumava as coisas, fui encontrar-me com a bem-amada. Regressei à noite, sem novidade, e trabalhei até tarde.

Dia 6 de maio: Depois do expediente Vargas faz uma anotação que indica que ele e Aimée tinham um local (casa ou apartamento?) para os seus encontros. "Sai logo depois e fui encontrar-me com a bem-amada. Delicioso encontro, o primeiro no nosso ninho após o regresso." Refere-se ao regresso após a estação de águas em Minas Gerais.

Dia 12 de maio: Após o almoço, regressamos ao Catete. Aí despachei com os ministros da Marinha e da Guerra, recebi os oficiais promovidos e saí depois — fui ver a bem-amada. Fui só acompanhado por um amigo, como de costume. As emoções sofridas e recalcadas precisavam de uma descarga sentimental.

Estas emoções se referem, certamente, ao ataque que os integralistas desferiram contra o Palácio da Guanabara na tentativa de tomarem o poder.

Dias 17 e 23 de maio: O dia 17 é marcado por novo encontro com a bem-amada, volumoso expediente e leitura até de madrugada. Já no dia 23, após encontrar a bem-amada, Vargas anota: "Fui ver a bem-amada. O regresso, só, causou desconfiança e uma crise doméstica." Diz-se que pela intuição, sem ter nenhuma prova concreta, a mulher sabe quando está sendo traída. Seria o caso, certamente.

Dias 27 e 30 maio: Estes dois dias são marcados por novos encontros e por uma despedida. A sra. Aimée viajaria por um longo período que prenunciava o fim do romance. Para onde, não está registrado no Diário. Dia 30 ele escreve: "Amanhã casa minha filha Jandira e parte a bem-amada. Dois acontecimentos com repercussões diferentes."

Dia 8 de junho: Após as audiências, retiro-me vou a uma visita galante. Saio um tanto decepcionado. Não tem o encanto das anteriores. Foi-se o meu amor, e nada se lhe pode aproximar.

Enigmático este trecho. Esta visita não foi à bem-amada que se encontra em longa viagem. Seria uma outra mulher com a qual Vargas teria relações antes de Aimée e na qual não encontro mais prazer? O sentimento de perda está claro no "foi-se o meu amor...".

Dia 18 de junho: Saí apenas à tarde para ir ao ponto do antigo encontro falar ao telefone com a bem-amada.

Dia 31 de dezembro: O Diário não mostra nenhum registro sobre a bem-amada,seja do seu retorno de viagem ou de um reencontro com Vargas. Melancolicamente, ele escreve: "E assim passou-se, para mim, o ano de 1938, tendo uma ponta de amargura por alguma coisa longínqua, que era a minha fina razão de viver." Conclua-se que razão era esta.

Destaquei estes dias do seu Diário para mostrar este lado apaixonado do Presidente que geralmente foi visto como um homem frio e sem sentimentos. No Brasil é acusado de ter causado a morte de Olga Prestes, uma judia alemã, treinada na União Soviética sob Stálin e que veio ao Brasil para fazer a revolução comunista de 1935. Era uma guerrilheira e treinada em sabotagens, armas, etc. Enamorou-se do líder comunista Carlos Prestes e com ele teve uma filha, ainda viva nos dias atuais e que nasceu na Alemanha. Vargas, ainda sob o regime democrático, em 1936, antes do Estado Novo, e com apoio da Justiça, entregou-a ao governo alemão. Naquele ano o Nazismo não havia tomado sua feição brutal e não existiam as famosas câmaras de gás onde, em 1942, Olga foi morta. É , portanto, discutível se Vargas conhecia ou não em toda sua crueza o regime nazista. A 1 de maio de 1942 ele resolve encerrar as anotações que fazia no seu Diário e amargurado escreveu: "...tracei rapidamente estas linhas, dando por encerradas as anotações. Para que continuá-las após tão longa interrupção?" (A interrupção fora causada pelo acidente de automóvel que sofrera e que o deixou imobilizado por três meses.) "A revolta, o sofrimento também mudou muita coisa dentro de mim!" Para os políticos da comunidade lusitana é importante a leitura desse Diário e a aprendizagem que nele se faz da objetividade, sentimentos e do jogo diplomático de um homem que pela sua visão e legislação progressista influencia, até hoje, a vida dos brasileiros.

Antônio Ribeiro de Almeida
almeida.35@uol.com.br
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