Matias Sandorff, de Júlio Verne

De Trieste a Ceuta

Desidério Murcho
Matias Sandorff, de Júlio Verne
Tradução de Isabel St. Aubyn
Círculo de Leitores, 1997, 589 pp.

Os escritores de ficção científica são muitas vezes encarados como “menores”, o mesmo acontecendo aos escritores juvenis. Quem escreve ficção científica para jovens vê-se assim duplamente discriminado. Júlio Verne está associado a estes dois tipos de literatura, pelo que não de espantar que seja um escritor negligenciado. Esta negligência seria injusta só por si, pois Júlio Verne foi um grande escritor; mas é particularmente infeliz, pois ele não escreveu apenas livros dessas duas áreas — apesar de ser reconhecido como um dos fundadores desses tipos de literatura.

O Círculo de Leitores teve a feliz ideia de dar início a uma cuidada edição de algumas das suas obras — cuidada na tradução e revisão do texto, no papel e na impressão das gravuras da edição francesa original. É uma iniciativa de aplaudir. Infelizmente, até ao momento publicaram-se apenas alguns títulos e a colecção parece interrompida, talvez por falta de adesão do público. É pena.

O título que escolhi para esta apresentação é Matias Sandorff. Esta não é uma obra propriamente para jovens, nem de ficção científica, se bem que tenha elementos que a tornam atraente para um jovem: muitas aventuras e peripécias do protagonista, descrições de lugares exóticos e, sobretudo, a lealdade, a camaradagem e a alegria de viver dos personagens. Mas esta é sobretudo uma obra que se inscreve no género “literatura de viagens”. A história gira em torno de Matias Sandorff, nacionalista húngaro revoltado com a subjugação austríaca, e situa-nos na segunda metade do século XIX, mais precisamente nos anos 60 e 70 daquele século. Ao seguirmos este homem somos conduzidos de Trieste a Ceuta, passando por inúmeros lugares exóticos da costa mediterrânea de África. Júlio Verne conta-nos com mestria e elegância a história da vingança e recompensa, em partes iguais, levada a cabo pelo conde Sandorff, depois da traição que fez abortar a sua tentativa de sublevação contra o ocupante austríaco. A leitura é empolgante e extremamente informativa do ponto de vista da geografia histórica. As suas 585 páginas são enganadoras, pois cerca de 1/3 são as gravuras a que já aludi. Recomendo-o vivamente a quem gostar de uma boa narrativa.

Desidério Murcho
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