Viagem ao Ponto de Fuga, de Fernando Campos

Prosa colorida

Maria João Cantinho
Viagem ao Ponto de Fuga, de Fernando Campos
Difel, 1999, 102 pp.
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E, de novo, Fernando Campos volta a surpreender-nos. Não se trata de um romance histórico, nem tão-pouco de romance, género literário a que nos habituou, mas sim de um pequeno, mas magnífico conjunto de contos, reunidos a partir de publicações dispersas. O título, desde logo, impele-nos à descoberta de um país imaginário, um topos situado para além daquilo que é visível ao nosso olhar, mas que, por contradição, é apontado pelo próprio olhar, numa convergência do mesmo. Deixando sempre em aberto para o leitor a descoberta desse lugar imaginado e imaginário, o ponto de fuga converte-se naquilo que cada um deseja para si e isso é patente, desde o primeiro conto. Poderá ser um regresso à infância e ao odor perfumado das recordações de um Verão de outrora, como no primeiro de todos os contos, “A Fonte da Paciência”, ou o próprio desejo puro de pintar, captando a mobilidade e o devir da natureza em equilíbrio, no espantoso conto “A Caminho de Monsaraz”, ou ainda no desejo da superação entre a dicotomia inferno/paraíso, no conto do mesmo nome, ou, ainda, no confronto com a própria morte, em “No Cimo da Montanha”, etc.

A prosa de Fernando Campos é escorreita e colorida, desenhando os seus protagonistas e acontecimentos como frescos, em que as animação os habita por dentro, gente que sente e pensa, seres inquietos, ávidos de sentido e de respostas para as suas inquietações. Essa pulsação do pensamento encontra-se constantemente presente, de forma tão intensa quão despretensiosa. Leia-se o encantador conto “Flor de Estufa”, onde o autor coloca flores das mais diversas espécies a questionar a arte e a eterna relação estética entre natureza e arte, entre o artificial e o natural, numa ironia que não pode deixar-nos indiferentes.

Alguém me disse que este era um livro para crianças. Desconfiada, comecei a lê-lo, como sempre lemos a literatura que nos aparece previamente catalogada. Desde o início, o rótulo não me pareceu poder aplicar-se a nenhum dos contos ou, então, as crianças teriam de ser genialmente dotadas para que pudessem ultrapassar as referências literárias, filosóficas e artísticas que, mais ou menos explícitas, habitam e conformam o tecido literário de que é constituída esta obra. Mas também, não se inquiete, leitor, não se trata de um tratado hermético de cultura literária-filosófica, se é caso de o ter conduzido a pensar dessa forma. Lê-se de um trago, com verdadeiro gosto e prazer. E deixe-se conduzir pelo olhar convergente da imaginação, sempre em busca de um foco, de uma luz, de salvação. A curta e quase lacónica afirmação do pai, em “A Caminho de Monsaraz”, quando afirma “Às vezes desconfio se até Deus não será um ponto de fuga”, pode ser uma chave, um começo de qualquer coisa ou, então, apenas uma ilusão...

Há outro pormenor surpreendente. Já sabíamos do autor que se tratava de um prosador incomparável da nossa língua; não sabíamos dele é que também é um óptimo ilustrador dos seus próprios contos. Fiquei a pensar se essa simbiose entre escrita e desenho, cor e movimento não será o próprio paradigma da escrita lúdica...

Maria João Cantinho
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