Viver, de Carlos Lopes Pires
Livros

Assombro

Maria João Cantinho
Viver, de Carlos Lopes Pires
Leiria: Editorial Diferença

Eis um poema que se lê com assombro. Dispensa quaisquer apresentações e prefácios, tal a voz que o habita. Porém, a razão que me move a escrever esta recensão deve-se ao facto da obra se encontrar votada a um equívoco esquecimento. Várias razões contribuem para o acolhimento discreto da obra de Carlos Lopes Pires. Por um lado, o poeta move-se em círculos arredios àqueles onde se definem as regras/cânones da qualidade literária, por outro, é avesso ao protagonismo social, preferindo a solidão do espaço onde se lavra a sua oficina poética. Existe, ainda, outra razão: não é um poeta que esteja na moda. Não cede a facilidades, não trata as imagens poéticas como um "caçador". É uma poesia indigesta e difícil, exprimindo a mais intensa inquietação, afirmando-se sustentada numa dimensão ética. O poeta vai mais longe, pois afirma que a poesia é uma forma de intervir no mundo, de o melhorar. E essa união, entre as vertentes ética e estética, define a sua poética como uma metafísica, a qual tem vindo a acentuar-se sobretudo nas últimas obras publicadas.

Na sua essência, a poesia de Carlos Lopes Pires caracteriza-se por uma contenção exemplar, reflectindo um depuramento cada vez maior do seu trabalho. E o seu despojamento formal confina com a autenticidade de um olhar cristalino, que prefere falar das coisas simples e humanas, construindo a sua morada entre as ervas, o vento, as árvores, acompanhando o curso dos rios, percorrendo o voo silencioso das aves, escutando o pulsar da vida e transfigurando essa secreta pulsação na respiração que habita (n)os seus poemas.

Viver é um longo poema, que se tece como um lamento e onde sentimos um olhar entrincheirado entre um abismo e uma rosa. Alimenta-o uma tristeza matricial, que o percorre como um canto melancólico:

Olha como é triste e mudo o mundo em que vivemos!
E andamos sós pelos caminhos.
Olhamos à volta e vemos restos.
de outros homens que num outro tempo
olharam também à volta de outros,
igualmente homens, espantados com o que à volta viam.

O mundo apresenta-se como um círculo infernal e caótico, pascaliano, onde cada homem é um "caco" de um espelho que, desde sempre, se sabe partido, descobrindo à sua volta (e em si) uma solidão existencial absolutamente incontornável e a que não pode furtar-se. E diante dessa solidão, descobre também a mais lancinante impotência.

E é desta incomensurável pobreza, a de uma experiência arruinada, repetida até ao seu infinito vazio, que o poeta nos fala, procurando atingir uma zona salvífica e de redenção, expressa tragicamente na metáfora da cegueira do morcego:

É desta dor, imensurável dor,
que te falo e escrevo;
dor que atravessa as janelas das nossas casas e vai
bater nas vidraças de outras casas
— morcego cego pela luz, ânsio de azul e claridade.

Todo o poema é atravessado por uma dialéctica que o dilacera, adquirindo um tom alegórico, fragmentado e dividido entre o desencanto da experiência humana, a experiência da solidão das grandes cidade, a de uma desumanização alienada e inconsciente, mascarada de ilusões —

Esta é a Grande Feira da Vida,
a corrupção dos afectos, a transacção do amor
vendido em postais como "souvenirs",
o teu gozo frente à televisão vestindo e despindo
aquilo que não pode nunca despir-se ou vestir-se"

- e a experiência que se aponta como um retorno possível a uma dimensão aurática e originária:

E passam barcos pela tua vida. Levam silêncio,
levam instantes.
São melodias que se escutam às vezes
nos ribeiros,
são vozes de saudades que nos ficam
dos momentos derradeiros.
Momentos fugazes, pequenas estórias gastas na lareira,
quando o tempo de viver
tinha a força plena dos instantes."

Parece que tudo se perde, pouco a pouco. Nessa vertigem tudo se afunda: flores, azul do céu, luar. Até os pássaros se foram, deixando-nos com as mãos cheias de fome. Como diz o poeta: "E dentro de nós ficaram navios grandes, imensos, carregados de saudade e de ternura(...)". Navios que anunciam a despedida, como se não fosse possível o retorno. Mas o que é estranho é que o olhar gira em torno de todas essas coisas que se perderam e não poderá nunca abandoná-las, pois elas "são as árvores velhas de tantos frutos". Elas habitarão sempre essa morada que é a nossa memória, fazendo-nos estremecer por dentro, reavivando os instantes plenos e cheios, redentores, conservando-os numa caixinha mágica, de que só a música detém o segredo:

Um dia, vou ter uma caixinha de música
para guardar todos os meus poemas.
Sem adereços, sem etiquetas,
sem referência alguma
que não seja a daquela pequena flor
que vive dentro de cada instante.

Belíssimo, como se pode ver. E imperdível.

Maria João Cantinho
mjcantinho@hotmail.com
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