Lógica, de Graham Priest
Julho de 2003 ⋅ Lógica

O admirável universo da lógica

Aires Almeida
Lógica, de Graham Priest
Tradução de Célia Teixeira
Temas e Debates, 2002, 138 pp.
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Este pequeno, informativo e estimulante livro pode fazer mais pela compreensão do vastíssimo universo da lógica do que todos os manuais utilizados nas nossas escolas secundárias. Ao contrário do que acontece com a esmagadora maioria dos autores dos manuais, o autor deste livro, professor ligado a universidades de diferentes países e com outras obras publicadas nesta área, sabe do que fala e — talvez por isso mesmo — apresenta-nos os diversos domínios da lógica com uma vivacidade e uma frescura que contrastam completamente com a ideia tola, mas bastante comum, de que a criatividade se pode encontrar em qualquer lado menos aí. E consegue também mostrar de modo exemplar como a lógica se utiliza na compreensão e discussão dos problemas filosóficos. Sem formalismos desnecessários, mas com o rigor indispensável. De resto, sempre que algum termo técnico ou símbolo é introduzido, é imediatamente esclarecido de forma clara e acessível. Há até algumas ilustrações divertidas e imagens de filósofos que surgem a propósito do que é discutido no texto.

Mas atenção, não se trata de um livro para ensinar lógica, embora também se possa aprender lógica com ele. O livro apresenta antes uma panorâmica geral e actual das diferentes lógicas, as quais ou partem ou se demarcam da lógica clássica — a que tem Frege e Russell como referências fundamentais. É assim que nos primeiros dos catorze curtos capítulos do livro (cada capítulo tem, em média, cerca de oito páginas), as noções centrais da lógica clássica, como validade, função de verdade, quantificação e identidade são esclarecidas, além de levantar algumas dificuldades acerca de tais noções, mostrando que na lógica também existe discussão, embora a um nível não elementar. Seguidamente somos introduzidos aos problemas lógico-filosóficos, como os levantados pelos casos de auto-referência e pelas condicionais. Em especial nestes capítulos, Priest faz-nos compreender de forma brilhante como a lógica também procura resolver problemas filosóficos e não se limita a servir como simples ferramenta teórica. Nos restantes capítulos ficamos a saber o que são a lógica modal (que trabalha com as noções de necessidade e de possibilidade), a lógica temporal (que trabalha com as noções temporais), a lógica difusa (que lida com situações de vagueza e com diferentes graus de verdade), a lógica probabilística e a teoria da decisão. Deve também dizer-se que o autor inicia cada capítulo interpelando-nos com alguns dos enigmas filosóficos mais estimulantes, aproveitando com inteligência alguns argumentos dos mais destacados filósofos para esclarecer as noções lógicas aí contidas.

A leitura deste livro talvez deixe perplexos muitos daqueles que acusam a lógica de ser demasiado fria, limitada e castradora do livre pensamento — se é que tais críticos sentem alguma vez necessidade de saber verdadeiramente o que é a lógica. Não porque o autor nos mostre que a lógica não tem também os seus limites, mas porque tais limites são muito mais alargados do que os seus detractores imaginam e porque a criatividade está longe de ser uma característica alheia à lógica. E só quem se dá ao trabalho de estudar lógica é que está em condições de o assinalar, coisa que o autor também faz, colocando algumas das questões ainda em aberto. Daí que a leitura deste livro seja absolutamente imprescindível para quem tem de se confrontar com o estudo e o ensino da lógica, encontrando-se na primeira linha os professores de filosofia do secundário, que tão pouca coisa têm que os ilumine numa matéria em que as deficiências científicas facilmente se vêem expostas. Mas interessa também a todos aqueles que querem ter uma ideia mais precisa e informada daquela que é uma das mais fascinantes descobertas da humanidade. E, em português, não há outro livro assim. Embora já vão aparecendo no nosso país algumas obras cientificamente insuspeitas que ensinam lógica com rigor e competência, como as de Newton-Smith e Desidério Murcho, num registo mais informal, e de António Zilhão e de João Sàágua (estas duas últimas com uma exposição mais formal do que as anteriores), nenhuma delas se destina a satisfazer o mesmo tipo de curiosidade que o livro de Graham Priest satisfaz. Por isso, este livro é único. E o leitor não encontrará, de certeza, um livro maçudo e interminável pela frente. Às vezes até damos connosco a sorrir.

O livro inclui ainda uma pequena, mas útil, história da lógica, apresentando o contexto mais vasto em que apareceram as ideias tratadas em cada um dos capítulos, terminando com um breve glossário, uma lista de problemas que testam a compreensão do conteúdo de cada capítulo e uma pequena bibliografia. Falta dizer que um livro como este exige também uma tradução especialmente informada e competente. E nem sequer isso falhou.

Só é pena o livro não manter o mesmo formato que o original inglês, para podermos andar com ele no bolso das calças.

Aires Almeida

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