Deus, Fé e o Novo Milénio, de Keith Ward
Filosofia da religião

O Deus egoísta

Célia Teixeira
Deus, Fé e o Novo Milénio, de Keith Ward
Europa-América, 2000, 201 pp.
Comprar

Keith Ward, Professor em Oxford e cónego, é conhecido entre nós: a sua obra Deus, o Acaso e a Necessidade foi publicada pelas Publicações Europa-América. Deus, Fé e o Novo Milénio é o seu novo livro. Ambos nasceram de várias discussões que Ward travou com conhecidos cientistas ateus, como Dawkins e Atkins. No primeiro livro, Ward argumenta que a teoria da evolução é perfeitamente coerente com a crença em Deus. Neste, o tema é semelhante mas um pouco mais abrangente. O objectivo é saber como conciliar a visão científica do mundo com a religiosa.

Ward é um teísta sério que acredita na força dos argumentos como formas de persuasão, e não em práticas terroristas como aquelas a que a Igreja Católica nos habituou ao longo da história: novos tempos, novos métodos. Confrontado com o sucesso da ciência, a única coisa que resta ao teísta é a conciliação das duas visões do mundo. Ward argumenta a favor da ideia de que a crença em Deus permite uma melhor explicação do significado do universo e dos seus propósitos: "a perspectiva científica insere efectivamente as principais crenças cristãs num contexto que parece evidenciar os significados mais ricos e profundos que sempre nelas estiveram implícitos". De modo que compreender o universo é compreender a natureza do seu criador.

Segundo Ward, o objectivo de Deus foi criar um universo onde os seres humanos pudessem existir. Pode parecer que Deus se deu a excessos ao criar um universo tão imenso com o objectivo único de nos criar, mas essa foi aparentemente a razão por que ele criou o Universo. "A Criação de mentes capazes de conhecerem e amarem o seu criador pode, no fim, ser o que confere sentido e importância a todo o processo cósmico." Parece pois que Deus criou o Universo por razões puramente egoístas, para que houvesse quem o pudesse amar, para que houvesse quem pudesse estabelecer uma relação de amor e veneração com o seu Criador. E segundo Ward, "é precisamente aí que entra a fé cristã, com a afirmação de que é possível existir uma relação de amor com Deus". Assim, parece que a moral da história é a de que o propósito de Deus ao criar o Universo foi criar os cristãos, os eleitos. Além de esta conclusão ser particularmente arrogante, parece que Deus, além de mesquinho, por criar um universo com fins egoístas, ainda descrimina quem O não ama, ou quem O não ama como os cristãos O amam. Será que a vida de um criminoso cristão e temente a Deus tem mais valor que a vida da sua vítima ateia? E por que motivo criou Deus um Universo tão imperfeito e cheio de mal? (Este é o famoso problema do mal.) Ward também tem uma resposta inteligente. A ideia é que para existirem seres humanos as leis do universo têm de ser como são, o que implica que as coisas têm de ser assim, com todas as formas de maldade que conhecemos. E se Deus não interfere nesta evolução, aparentemente necessária à nossa existência, mas cheia de sofrimento, é porque não quer interferir na nossa liberdade. "Seres conscientes" significa "seres autónomos e livres". E se o objectivo do universo é a criação de seres conscientes, há que respeitar a sua autonomia e liberdade. Há outras formas não intencionais que levam ao mal, como a existência de terramotos e tornados, mas apesar de Deus poder interferir, esses são acontecimentos necessários num universo em que os seres humanos possam existir, e interferir em casos desses para salvar algumas centenas de milhares de seres humanos prejudicaria a estrutura das leis da natureza. É claro que interferir no curso normal dos acontecimentos, na forma de um milagre, levando à morte de pessoas como Hitler ou Mao, que mataram milhões de seres humanos, não prejudicaria as leis da natureza. Mas Deus não gosta de interferir. "Valores de coragem, tenacidade, espírito criativo, assim como valores de compaixão, cooperação e sacrifício pessoal — não poderão existir sem a existência de alguns tipos de sofrimento que Deus não pretende directamente"; mas talvez indirectamente, uma vez que não lhes pôs fim. "Poderíamos afirmar que Deus quer os valores, os benefícios, que só semelhante processo consegue realizar." Será que queremos um Deus que acha o sofrimento atroz de milhares de milhões de pessoas algo de tolerável face a valores como a criatividade e a vivacidade de espírito? Certamente que Hitler era "criativo", com uma grande "compaixão" pela raça ariana, que demonstrou uma grande "coragem" ao enfrentar uma guerra mundial com uma grande "tenacidade". Logo, segundo este argumento, a vida de Hitler tinha mais valor do que a dos seis milhões de judeus que ele matou; afinal, "esses valores só puderam ser manifestados com a existência de alguns tipos de sofrimento", a saber, o sofrimento e morte de seis milhões de judeus. Isto é pura e simplesmente inaceitável. Este seria um Deus indigno do seu epíteto. Este tipo de argumento é moralmente repugnante. Por tudo isto, mais vale não ser salvo mas praticar o bem, do que ser salvo e partilhar esta horrenda arrogância teísta. Mas este é o tipo de argumentos que os teístas têm usado em sua defesa. De modo que, como afirma Dawkins, nenhuma pessoa razoável e bem informada pode acreditar na existência de Deus. Esta parece ser a moral da história. Este é um livro que vale a pena ser lido, para se ver até onde se pode ir na defesa da existência de Deus.

Célia Teixeira
celia.teixeira@kcl.ac.uk

Publicado na revista Livros
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte