West of Eden, de Harry Harrison Winter in Eden, de Harry Harrison Return to Eden, de Harry Harrison
7 de Fevereiro de 2004 ⋅ Livros

65 milhões de anos depois

Desidério Murcho
West of Eden, Winter in Eden e Return to Eden, de Harry Harrison
Reedição iBooks, 2000-2001
Comprar: Vol. 1, vol. 2, Vol. 3

Em 1986 a Gradiva publicou um livro inesquecível, numa tradução e edição de luxo: A Oeste do Éden, de Harry Harrison. Esgotado há anos, fez legiões de leitores fiéis. Mas muitos leitores desconhecem que só leram o primeiro tomo de uma trilogia. Agora que Potters e Tolkiens parecem ter reactivado o interesse dos editores pela literatura de fantasia, esta é uma obra-prima que não pode ficar esquecida. Como aliás não o ficou nos EUA e no Reino Unido, em que a iBooks deitou mãos à reedição, com novos prefácios do autor.

Há 65 milhões de anos um meteorito chocou com a Terra. Resultado: a extinção de quase todas as formas de vida, algumas das quais muitíssimo bem adaptadas e que existiam desde tempos imemoriais — os dinossáurios. Mas como seria o mundo, hoje, se o tal meteorito nunca tivesse chocado com a Terra? É esta a premissa da trilogia de Harrison. Mas não se trata apenas de uma premissa esperta, que depois é mal desenvolvida e ainda pior narrada. Na verdade, o desenvolvimento da ideia, a construção de uma sociedade de répteis inteligentes e, sobretudo, a segurança narrativa, fazem desta obra um clássico moderno — e isso nota-se desde a primeira frase. Não menos impressionante é o realismo antropológico na descrição das primitivas sociedades humanas, que entretanto acabaram por se desenvolver em regiões gélidas onde os dinossáurios não habitam. Tratando-se de sociedades na idade da pedra, entram em rota de colisão com a sociedade muitíssimo mais desenvolvida dos répteis, que dominam a biologia e outras ciências.

O primeiro volume termina com a destruição de uma das cidades dos répteis, comandada pelos seres humanos. Mas trata-se de uma pequena vitória numa batalha de uma guerra épica sem futuro. Afinal, os répteis têm tudo: conhecimento, tecnologia e ciência, e povoam todo o mundo, à excepção das Américas. Os seres humanos parecem condenados: são pequenos grupos dispersos e ignorantes, e a maior parte nem sabe da tragédia que lhes está reservada quando os répteis decidem extinguir o género humano. Esta desproporção de forças é um dos fascínios da obra.

No segundo volume torna-se evidente que a vitória do primeiro é destituída de significado. Os seres humanos são forçados a abandonar a cidade destruída e perseguidos sem piedade quase até à extinção final. Só Kerrick, o inesquecível herói acidental, que conhece os répteis porque foi criado por eles, consegue resolver a situação — viajando até ao Velho Mundo, para conferenciar com os líderes dos répteis. O terceiro volume vê o estabelecimento de uma paz precária entre as espécies. As suas dificuldades, todavia, são evidentes e Kerrick começa a suspeitar da possibilidade de resolver definitivamente a situação: o ódio entre as espécies é visceral.

Qualquer breve sinopse dos traços principais desta trilogia é mais enganadora do que outra coisa. Pois a grande riqueza está na precisão narrativa, no realismo das personagens e, sobretudo, na descoberta de um mundo tão rico quanto o de Tolkien — e sem magias tontas. Grande parte da narrativa lê-se com a mesma curiosidade com que se lê uma obra de divulgação científica. O autor rodeou-se dos melhores especialistas, incluindo linguistas, que criaram os rudimentos de várias línguas diferentes para as diferentes tribos de humanos e para os répteis. Uma leitura a que se regressa constantemente como quem busca conforto num porto de abrigo.

Desidério Murcho
Crítica publicada no jornal Público (5 de Julho de 2003).
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