Zero, de Charles Seife
1 de Janeiro de 2002 ⋅ Livros

Um antídoto ao formalismo escolar

Desidério Murcho
Zero: A Biografia de uma Ideia Perigosa, de Charles Seife
Tradução de Raquel Paiva
Revisão científica de António Manuel Baptista
Lisboa: Gradiva, 2001, 232 pp.
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Um dos problemas de que sofre o nosso ensino é o formalismo. O formalismo consiste em repetir fórmulas vácuas nas aulas, que os estudantes copiam diligentemente para os cadernos, decorando-as na véspera dos exames. Depois os estudantes obtêm a classificação, o professor o seu ordenado e lixa-se completamente todo o sistema de ensino, que devia ser criativo e estimulante, e que é a condição sem a qual não podemos ter uma civilização. Desculpe-me o leitor este intróito moralista, mas vem a propósito de nada: a propósito de um livro sobre nada — sobre o zero. E vem a propósito porque o antídoto do formalismo da fórmula oca é a compreensão alargada e íntima. O talento de um bom professor é conseguir mostrar aos estudantes como as várias noções que eles têm de aprender se relacionam com a nossa vida e com outras noções importantes; sem isso o ensino é sempre artificioso e mau. E é essa capacidade para mostrar como os nossos conceitos mais insuspeitos desempenham papéis tão importantes na nossa economia conceptual que Seife demonstra neste livrinho de 228 páginas, com tradução de Raquel Paiva e revisão científica do grande António Manuel Baptista.

Ao longo de 10 capítulos, o autor faz "A Biografia de uma Ideia Perigosa," como afirma o subtítulo. Ficamos a conhecer o poder espantoso do zero e da sua contraparte: o infinito. O zero nasceu no Oriente: na Índia, de onde derivam também os nossos números — a que chamamos "árabes" porque os recebemos dos árabes, que os recolheram da Índia. Ao longo do livro, o autor percorre a história espantosa do número zero e de como ele se impôs aos seres humanos mais relutantes em aceitá-lo. A filosofia e a música, a pintura, a matemática e a física, estão presentes neste livro, pois o zero é um nada incómodo que tudo penetra. Os professores de filosofia poderão querer usar partes deste livro nas suas aulas, no estudo dos pitagóricos e dos atomistas, de Zenão e dos seus paradoxos sobre Aquiles e a tartaruga, e também de Descartes e Leibniz. Os professores de matemática encontram neste livro um manancial de recursos para que os seus estudantes ganhem uma compreensão alargada do cálculo e da geometria. E todos nós ganhamos uma leitura informativa e inteligente, viva e estimulante.

Os números surgem naturalmente da nossa necessidade de contar. Mas nos casos mais simples não temos necessidade do zero como número; a ausência de quantidade não precisa de um conceito especial — podemos apenas dizer que não há bananas, em vez de dizermos que há zero bananas. Mas o zero é importante quando começamos a fazer operações mais complexas com os números; e acaba por se impor, contra os nossos preconceitos. No Ocidente, houve sempre muitas resistências ao zero: parecia uma aberração da natureza. Aristóteles afirmava que a natureza tinha horror ao vazio, e este pensamento impregnou a cultura ocidental. Seife conta a história da lenta imposição do zero no pensamento ocidental, e como isso se relaciona de perto com alguns dos mais importantes momentos da história da ciência e da cultura; incluindo as confusões que resultam do facto de os calendaristas não se terem lembrado de "fazer" um ano zero, provocando assim tontas discussões cada vez que se chega perto do fim de um século.

Nos últimos capítulos Seife aborda o papel do zero na matemática e na física dos séculos XIX e XX, passando em revista a teoria da relatividade e a teoria dos quanta, o zero absoluto de Kelvin e os vários infinitos de Cantor. O livro termina com um olhar especulativo sobre os mistérios últimos do universo que ainda resistem à compreensão dos cientistas — mistérios enredados no zero. Uma leitura estimulante e inteligente, que pode ajudar a dessacralizar o livro em Portugal. Infelizmente, a tradução portuguesa é má.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado na revista Livros (n.º 23, Agosto de 2001)
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