Cell
24 de Outubro de 2006 ⋅ Livros

Notícias do fim do mundo

Desidério Murcho
Cell: A Chamada para a Morte, de Stephen King
Lisboa: Bertrand, 2006, 426 pp.
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Responsável por pôr muita gente a ler, King escreve com precisão, subtileza e humor. Tem um talento especial para a descrever a humanidade das pessoas comuns e a dar espessura dramática mesmo às personagens secundárias. Campeão mundial de vendas, este antigo professor americano de literatura não é muito bem visto no nosso país. Talvez por ser injustamente relegado para o ghetto da literatura de terror, ou talvez porque em Portugal "livro" ainda rima com "fato e gravata". No entanto, é uma injustiça pensar em King unicamente como um autor de literatura de terror. Algumas das suas melhores histórias não são de terror, e é nelas que King mostra todo o seu esplendor narrativo. A maior parte dos portugueses conhece King através dos filmes baseados nos seus romances ou contos — é o caso de Conta Comigo (1986), Os Condenados de Shawshank (1994), The Green Mile (1999) ou Corações na Atlântida (2001). Dificilmente se pode dizer que qualquer destas histórias é superficial — e ainda menos de terror.

King é um contador nato de histórias, a coisa mais parecida às histórias contadas no silêncio de um serão de província — histórias humanas, encantatórias, aterrorizantes, inspiradoras. O fantástico, em King, é apenas uma extensão natural da magia de contar uma história — precisamente como os contos tradicionais contados ao serão a crianças (e adultos...) fascinadas e assustadas. Neste último livro, King parte de uma premissa simples: sem que se saiba porquê nem quem, alguém ou algo modificou os sinais dos telemóveis de tal modo que quem ouvir algo pelo telemóvel a partir do dia e hora fatídicos fica louco e sanguinário — transforma-se numa espécie de "zombie" alucinado. Dado que toda a gente, perante uma catástrofe, desata a telefonar para os seus familiares por telemóvel, o efeito deste pesadelo terrorista é brutal. O mundo tal como o conhecemos desaparece em poucas horas e a humanidade regride para a barbárie. Só se salvam uns poucos sortudos que, por uma razão ou outra, não usam telemóvel ou não foram mortos pelos "zombies".

O livro agarra desde as primeiras páginas, e a primeira parte é impressionante, em termos narrativos. Com uma precisão cirúrgica, pelos olhos da personagem principal, Clayton Riddell, assistimos à rápida derrocada da cidade de Bóston. Somos prendados com uma narrativa tão minuciosa que quase ouvimos o tiquetaque do relógio a marcar cada segundo precioso. E ao mesmo tempo, vamos conhecendo a personagem principal, fragmentos do seu passado imediato, os seus sonhos, a razão de ser da sua presença naquela cidade. Clay é um autor de "comics" e acaba de vir de uma reunião com uma grande editora, que lhe ofereceu um contrato milionário para a sua mais recente criação — um novo super-herói. Ansioso por ir para casa, para se reunir com o filho e contar a novidade à ex-mulher, Clay é um homem feliz. Sente que, finalmente, a vida lhe está a dar uma oportunidade para sair da mediocridade triste em que se encontrava — e está disposto a agarrá-la. Consigo, carrega um porta-fólio com os seus desenhos, e durante algumas horas não os abandona — símbolos de um mundo que está a desaparecer rapidamente, à medida que mais pessoas atendem telemóveis, fazem chamadas ou são mortas pelos zombies enlouquecidos. Se quiser saber do seu destino, tire a gravata e marque encontro com este livro.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (27 de Maio de 2006)
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