25 de Março de 2016   Filosofia da ciência

Um exemplo de investigação científica

Carl Hempel
Tradução de Pedro Galvão

Para ilustrar com simplicidade alguns aspectos importantes da investigação científica, consideremos os estudos de Semmelweis sobre a febre de parto. Ignaz Semmelweis, um médico de origem húngara, realizou esses estudos de 1844 a 1848 no Hospital Geral de Viena. Enquanto membro da equipa médica da Primeira Divisão de Maternidade do hospital, Semmelweis estava preocupado por saber que uma grande proporção das mulheres que davam à luz nessa divisão contraíam uma doença grave, frequentemente fatal, conhecida por febre puerpéria ou febre de parto. Em 1844, nada menos que 260 das 3157 mães da Primeira Divisão, ou seja, 8.2%, morreram da doença; em 1845 a taxa de mortalidade foi de 6.8%, e em 1846 de 11.4%. Estes valores eram ainda mais alarmantes pelo facto de na Segunda Divisão de Maternidade do mesmo hospital — que era adjacente à Primeira e acomodava quase o mesmo número de mulheres — a proporção de mortes por febre de parto ser muito mais baixa: 2.3, 2.0 e 2.7 por cento para os mesmos anos. Num livro escrito posteriormente sobre as causas e a prevenção da febre de parto, Semmelweis descreveu os seus esforços para resolver este enigma terrível.

Semmelweis começou por considerar várias explicações que então eram correntes. Rejeitou algumas delas à partida por serem incompatíveis com factos bem estabelecidos, e sujeitou as outras a testes específicos.

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Um ponto de vista amplamente aceite atribuía a propagação da febre puerpéria a “influências epidémicas”, que eram vagamente descritas como “mudanças atmosférico-cósmico-telúricas” que alastravam por distritos inteiros e causavam a febre de parto nas mulheres que davam à luz. Mas como, raciocinou Semmelweis, podiam essas influências ter atingido a Primeira Divisão durante anos mas poupado a Segunda? E como poderia este ponto de vista ser reconciliado com o facto de a febre assolar o hospital enquanto dificilmente ocorria um caso na cidade de Viena ou nas suas imediações? Uma epidemia genuína, como a cólera, não seria tão selectiva. Por fim, Semmelweis fez notar que algumas das mulheres admitidas na Primeira Divisão, por viverem longe de casa, começavam com dores de parto pelo caminho e acabavam por dar à luz na rua. No entanto, apesar dessas condições adversas, a taxa de mortalidade por febre de parto nestes casos de “nascimento de rua” era inferior à da Primeira Divisão.

Segundo outro ponto de vista, a sobrelotação era a causa da mortalidade na Primeira Divisão. Mas Semmelweis indicou que na verdade a lotação era superior na Segunda Divisão, o que em parte se devia ao esforço desesperado das pacientes para evitar a colocação na célebre Primeira Divisão. Semmelweis também rejeitou duas conjecturas semelhantes que eram correntes, fazendo notar que não existiam diferenças entre as duas divisões no que dizia respeito à dieta ou ao tratamento geral das pacientes.

Em 1846, uma comissão que fora designada para investigar o assunto atribuíra a predominância da doença na Primeira Divisão aos danos resultantes de exames descuidados dos estudantes de medicina, que recebiam a sua preparação de obstetrícia na Primeira Divisão. Para refutar esta ideia Semmelweis fez notar que a) os danos que resultam naturalmente do processo de nascimento são muito mais profundos dos que o que podem ser causados por exames descuidados; b) as parteiras que recebiam a sua preparação na Segunda Divisão examinavam as suas pacientes da mesma maneira, mas sem os mesmos efeitos de doença; c), quando, em resposta ao relatório da comissão, se reduziu para metade o número de estudantes de medicina e os seus exames às mulheres foram reduzidos ao mínimo, depois de um breve declínio a mortalidade atingiu os níveis mais elevados de sempre.

Foram sugeridas várias explicações psicológicas. Numa delas indicava-se que a Primeira Divisão estava organizada de tal forma que o padre que ia dar a extrema unção às mulheres prestes a morrer tinha que passar por cinco alas antes de chegar à enfermaria: supôs-se que a presença do padre, precedida pelo som da campainha do seu ajudante, tinha um efeito aterrorizante e debilitante nas pacientes, o que as tornava mais propensas a contrair a febre de parto. Na Segunda Divisão, este factor adverso estava ausente, já que o padre tinha acesso directo à enfermaria. Semmelweis decidiu testar esta conjectura. Convenceu o padre a seguir outro caminho e a prescindir do som da campainha, de forma a chegar à enfermaria silenciosamente e sem ser observado. No entanto, a mortalidade não diminuiu na Primeira Divisão.

Semmelweis teve uma nova ideia, sugerida pela observação de que na Primeira Divisão as mulheres davam à luz de frente, enquanto que na Segunda Divisão davam à luz de lado. Embora tenha pensado que isso era improvável, decidiu, “como um náufrago que se agarra a uma palha”, testar se esta diferença de procedimento era importante. Introduziu o uso da posição lateral na Primeira Divisão, mas mais uma vez a mortalidade manteve-se.

Por fim, no início de 1847 um acidente deu a Semmelweis a pista decisiva para a sua solução do problema. Um seu colega, Kolletschka, foi ferido no dedo com o bisturi de um estudante com quem realizava uma autópsia, e faleceu após uma doença agonizante durante a qual apresentou os sintomas que Semmelweis observara nas vítimas da febre de parto. Embora o papel dos micro-organismos nas infecções ainda não tivesse sido reconhecido nessa altura, Semmelweis compreendeu que a “matéria cadavérica” que o bisturi do estudante introduzira na corrente sanguínea de Kolletschka tinha causado a doença fatal. E as semelhanças entre a evolução da doença de Kolletschka e a das mulheres da sua clínica conduziram Semmelweis à conclusão de que as suas pacientes tinham morrido do mesmo tipo de envenenamento de sangue: ele, os seus colegas e os estudantes de medicina tinham transportado o material infeccioso, porque ele e os seus associados costumavam vir directamente da realização de dissecações na sala de autópsias para examinar as mulheres grávidas, lavando as suas mãos apenas superficialmente, o que fazia com estas mantivessem o odor pútrido característico.

Mais uma vez Semmelweis submeteu a sua ideia a um teste. Raciocinou que, se tinha razão, a febre de parto poderia ser prevenida através da destruição química da material infeccioso que aderia às mãos. Por isso, ordenou que todos os estudantes de medicina lavassem as mãos numa solução de lima clorada antes de examinarem as mulheres. A mortalidade por febre de parto começou logo a diminuir, e no ano de 1848 caíu para 1.27% na Primeira Divisão, enquanto que na Segunda essa mortalidade era de 1.33%.

Para apoiar mais a sua ideia ou a sua hipótese, como vamos também dizer, Semmelweis fez notar que ela explicava o facto de a mortalidade na Segunda Divisão ser inferior: as pacientes eram aí atendidas por parteiras, cuja preparação não incluía o ensino anatómico por dissecação de cadáveres.

A hipótese também explicava a mortalidade mais baixa entre os “nascimentos de rua”: as mulheres que chegavam já com os seus bebés quase nunca eram examinadas depois de serem admitidas, e tenham por isso mais hipóteses de escapar à infecção.

Outras experiências clínicas depressa levaram Semmelweis a aprofundar a sua hipótese. Numa ocasião, por exemplo, ele e os seus associados, depois de terem desinfectado cuidadosamente as mãos examinaram primeiro uma mulher grávida que tinha um cancro cervical ulcerado; de seguida examinaram outras doze mulheres que estavam no mesmo quarto depois de só terem lavado as mãos normalmente, sem desinfecção renovada. Onze das doze mulheres morreram com febre de parto. Semmelweis concluiu que a febre de parto pode ser causada não apenas por matéria de cadáveres, mas também por “matéria pútrida derivada de organismos vivos”.

Carl Hempel

Retirado de Philosophy of Natural Science (1966)

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