Quebrar o Feitiço
1 de Dezembro de 2006 ⋅ Livros

A evolução dos deuses pela selecção natural

Desidério Murcho
Quebrar o Feitiço: A Religião como Fenómeno Natural, de Daniel C. Dennett
Lisboa: Esfera do Caos, 2008, 336 pp.
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Recentemente têm surgido vários estudos que procuram compreender a religião como um fenómeno cultural que carece de explicação darwinista ou biológica. Este novo livro de Dennett inscreve-se nesta corrente. Contudo, só na segunda das três partes do livro o autor apresenta a sua tentativa de explicação biológica da religião. Na primeira parte, composta por três capítulos e intitulada "Abrir a Caixa de Pandora", Dennett procura persuadir o leitor mais renitente a aceitar este tipo de estudo da religião.

A parte mais interessante do livro é a segunda, intitulada "A Evolução da Religião" e composta por quatro capítulos. Para quem conhece o artigo de 1997 de Dennett "Fé na Verdade" (publicado na revista Disputatio), sabe que deste autor é de esperar uma perspectiva firmemente evolucionista sobre a religião. Dennett apresenta uma imensidão de hipóteses científicas, resultados e estudos que foram publicados nos últimos anos. Não apresenta propriamente qualquer ideia central no que respeita à evolução da religião nem à sua razão de ser, mas apresenta várias hipóteses estimulantes e apresenta com verve e entusiasmo o estado actual da investigação na área.

Um aspecto desagradável, que quase estraga esta parte do livro, é o abuso da histriónica metáfora da mais recente moda darwinista: o meme. Supostamente, o meme é como um gene: a unidade à luz da qual a evolução faz sentido. Só que enquanto o gene tem uma identidade biológica razoavelmente definida, o meme não tem tal coisa. O meme é a contraparte abstracta do gene. O conceito de meme é captado no ditado popular de que as ideias são como as viroses: espalham-se quase sem intervenção consciente das pessoas envolvidas. Assim, uma canção, um costume social, um mito, uma maneira de vestir, uma moda — tudo isto são memes. Um meme é algo que se transmite culturalmente (ao passo que os genes se transmitem biologicamente) e que sofre mutações nessa transmissão. As regras que regulam a sobrevivência ou desaparecimento dos genes aplicam-se aos memes — ou pelo menos é o que os novos gurus da memética nos querem fazer crer. Assim, qualquer fenómeno cultural pode ser explicado do mesmo modo que se estudam os traços biológicos das espécies. Uma das perguntas fundamentais é esta: Que contribuição deu tal gene ou meme para a sobrevivência e adaptação ao meio do seu portador? Dado que a religião é um fenómeno de todas as sociedades humanas, que contribuição deu tal meme para a sobrevivência e adaptação dos seres humanos?

Contudo, estas perguntas são enganadoras, alerta Dennett. Afinal, todos conhecemos as muitas doenças infantis que só a muito custo conseguimos controlar nos últimos cinquenta anos — além do cancro e da tuberculose. É ingénuo pensar que só porque um dado gene ou meme sobreviveu isso significa que é benéfico para o seu hospedeiro. Muitas vezes, um gene ou meme é pura e simplesmente inócuo — nem benéfico nem prejudicial — para o seu hospedeiro; outras vezes, é positivamente prejudicial. A que categoria pertence então a religião? É benéfica, prejudicial ou neutra? Os ateus sublinham a Inquisição, as guerras religiosas e o actual fanatismo bombista como provas de que a religião é claramente prejudicial. Os religiosos apontam para as grandes realizações religiosas, como as pirâmides, a arte sacra ou as missões humanitárias de inspiração religiosa. Apesar de ainda não haver dados científicos conclusivos, há alguns dados que parecem mostrar que qualquer destas posições está errada. O que parece acontecer é que a religião é neutra quanto à maldade ou bondade que as pessoas já trazem com elas — nas prisões norte-americanas, por exemplo, a percentagem relativa de religiosos e ateus é sensivelmente igual à percentagem nacional.

Em qualquer dos casos, há outras perguntas interessantes a fazer quanto à evolução da religião. Como ocorreu exactamente tal coisa? Como surgiu? Por que razão as religiões têm certas características distintivas — respeito pelo "sagrado", rituais, iniciações, ortodoxia — e procuram proteger-se da análise científica religiosamente neutra? Sobre estes aspectos, Dennett apresenta algumas ideias iluminantes. Por exemplo, se duas religiões estiverem em competição, a religião que obrigar a rituais incómodos e à repetição de doutrinas incompreensíveis tem tendência a cativar mais aderentes. Isto acontece porque um dos aspectos centrais da mentalidade religiosa é o uso intenso de dispositivos que visam proteger a própria crença. Isto significa não apenas que se declara qualquer estudo religiosamente neutro como uma blasfémia; além disso, elege-se a própria crença como o maior valor religioso. Deste modo, entra-se no domínio da crença na crença: o importante já não é bem acreditar em Deus, mas acreditar que se acredita, e mostrá-lo aos outros — através de palavras e rituais.

A terceira e última parte do livro dirige-se ao grande público, como a primeira, e aborda os problemas políticos e sociais que as religiões levantam hoje em dia. Devemos aceitar, por exemplo, que as crianças sejam educadas religiosamente pelos seus pais? Será isso aceitável, ou uma forma de violar o direito das crianças à informação não tendenciosa? Quando há vastos sectores religiosos literalistas, radicais e bombistas, que devem fazer os religiosos moderados? Ficar em silêncio, ou tomar uma posição firme contra tais desvios da sua religião?

Não sendo um dos mais iluminantes livros sobre a evolução das religiões, é todavia um bom ponto de partida pela profusão de ideias apresentadas na segunda parte, devidamente referenciadas na imensa bibliografia. Num país avesso à reflexão religiosamente neutra sobre as religiões, não é de esperar que este livro venha a ser traduzido — ou, se o for, que constitua um sucesso de vendas como tem sido no estrangeiro.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (3 de Junho de 2006)
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