Diário
28 de Fevereiro de 2007 ⋅ Livros

Os Natais de Miguel Torga

Antônio Ribeiro de Almeida
Diário: Volumes I a VIII, de Miguel Torga
Lisboa: Dom Quixote, 1999, 920 pp.
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Ler o Diário de Miguel Torga (1907-1995) é uma das melhores homenagens que se pode prestar ao escritor e poeta no centenário do seu nascimento. Mas há que ter fôlego para vencer as 1786 páginas da edição em dois volumes. Confesso que minha primeira motivação para esta leitura era de bisbilhotar a sua vida e anotar, sobretudo, o que escreveu nos anos em que Portugal viveu sob a ditadura de Salazar. E, quem sabe, descobrir algumas confidências sobre a sua vida sentimental ou sobre sua experiência de viver no Brasil entre 1920 e 1925. Estas curiosidades não foram satisfeitas. Encontrei desde o Diário I, que se inicia a 3 de janeiro de 1932, um sistema de escrever o diário que é sempre antecedido por uma poesia, e, em seguida, numa linguagem objetiva e sem psicologismos, os fatos ou a reflexão sobre os mesmos nos vários dias.

O tom quase depressivo das poesias já se revela desde a primeira, "Santo e Senha", que começa assim: "Deixem passar quem vai na sua estrada. Deixem passar / Quem vai cheio de noite e de luar. Deixem passar e não lhe digam nada." Infelizmente, não acolho o conselho do poeta e vou dizer algumas coisas sobre o seu lado de poeta, pois os seus contos editados no Brasil pela Nova Fronteira têm sido objeto de estudos tanto aqui como na pátria mãe. Fixar-me-ei nas considerações de sua estada no Brasil, e, depois na tentativa de desvendar um pouco uma série de poemas que escrevia na passagem do Natal. Não deixa de ser curioso que esta fixação do bardo seja objeto de reflexão, pois ele declara-se ateu, mas suspeito que foi um ateu angustiado.

José de Melo na obra Miguel Torga: A Obra e o Homem (Lisboa, Arcádia, sem data) escreveu:

Miguel Torga abala para o Brasil em 1920, aos treze anos pois. Sua puberdade decorre em Minas Gerais, numa fazenda — a Fazenda de Santa Cruz — onde um irmão do pai lhe ministra alguns conhecimentos e a esposa deste o humilha, movida pela desconfiança de vir Miguel Torga a ser o herdeiro do tio, em prejuízo dos filhos do primeiro matrimônio dela. Atrás das vacas, guardando os porcos da fazenda, acarretando água, fazendo recados, pode-se dizer que tem uma sorte madrasta. Um dia o tio descobre que sua mulher maltrata Miguel Torga e para o afastar dela, manda-o estrudar, para o ginásio de Leopoldina. Estamos em 1924. No ano seguinte, Miguel Torga volta para Portugal.

No Diário não encontrei qualquer referência negativa àqueles anos da adolescência. Encontrei, sim, no ano de 1957, escrito em Coimbra, o poema que transcrevo abaixo:

Brasil

Pátria de emigração,
É num poema que te posso ter...
A terra — possessiva inspiração:
E os rios — como versos a correr.
Achada na longínqua meninice,
Perdida na perdida juventude,
Guardei-te como pude
Onde podia:
Na doce quietude
Da força represada da poesia.
E assim consigo ver-te
Como te sinto:
Na doirada moldura da lembrança,
O retrato da pura imensidade
A que dei a possível semelhança
Com a palavra e rimas e saudade.

Nos diários que vão de 3 de janeiro de 1932 a 24 de dezembro de 1990, Torga dedica dezessete poemas ao Natal. O primeiro vem com o nome de "Dia Santo" e está no Diário I, escrito em S. Martinho de Anta no Natal de 1940. O poeta relata o quão está sensível ao mal que anda pelo mundo e com um pouco de ironia escreve: "Mas, com Deus no Marão sem neve, não há mal que resista". Em Coimbra, ano de 1942, Torga escreve um diálogo com o Velho-Menino Deus e a lamentar as dores que carrega consigo, as ilusões perdidas e a esperança que o Menino venha ao seu encontro "se queres vir... mas o brinquedo... quebra-o no caminho". Aos biógrafos de Torga cabe perguntar se naquele ano ele teve alguma perda. O Natal de 1948, em S. Martinho é um poema que o aproxima da estrebaria e da grande pena que sente pelo frio que o Menino deveria sentir pois escreve: "Devia ser neve humana / a que caía no mundo... Um frio que nos pedia Calor irmão, nem que fosse de bichos de estrebaria." Os Natais de Torga são sempre contemplados com diferentes momentos existenciais da sua vida e este dilema de não acreditar e acreditar. Em 1990 escreveu "Último Natal", pressentindo, certamente, a morte que se aproxima, mas que só chegaria a 17 de janeiro de 1995. O Diário foi escrito até 10 de dezembro de 1993 com o seu "Réquiem por mim".

"Último Natal" mostra Torga dialogando diretamente com o Menino Jesus que nasce "quando morro". O lamento é grande, imenso por não escrever "o poema que te devo" concluindo que "És divino, e eu sou humano. Não há poesia em mim que te mereça." No Diário, deixou-nos confissões, críticas à sua época e sua gente e muita sensibilidade, beleza e integridade. Discordo do que escreveu em Gerês a 7 de agosto de 1950: "o poeta?! Não diga mal de um desgraçado que espera tudo das palavras, e nada da vida." Torga, como poeta, conseguiu, como os grandes poetas, com suas palavras, dar vida ao espírito daqueles que têm até hoje o privilégio de lê-lo. É preciso mais?

Antônio Ribeiro de Almeida

Nota

Agradeço a Heitor Martins, Professor Emérito da Universidade de Indiana, o envio do texto de José de Melo.

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