A Encruzilhada, de Wang Long Sheng

Lógica, filosofia e cognição

Desidério Murcho

O tema principal destas páginas é o papel da lógica na filosofia. Mas o organizador da conferência que lhe deu origem manifestou-me a importância de abordar um outro tópico mais geral, viz., uma caracterização da própria filosofia. De forma que vou fazer o seguinte: primeiro, oferecerei uma caracterização sumária da filosofia; depois, caracterizarei, também sumariamente, a lógica; finalmente, tentarei mostrar qual é o papel que a lógica tem nesta concepção de filosofia.

1. O que é a filosofia?

Quando caracterizamos uma actividade, um conceito ou uma propriedade, o ideal é atingir uma definição precisa, expressa em termos de condições necessárias e suficientes. Mas a verdade é que muitas vezes este tipo de definições precisas é inatingível. (Os diálogos aporéticos de Platão são precisamente sobre as dificuldades de definir desta forma rigorosa alguns dos nossos conceitos mais básicos, como a justiça, o bem, a beleza, etc.)

Não é possível compreender o que é uma definição em termos de condições necessárias e suficientes se não soubermos distinguir uma condição necessária de uma condição suficiente. Mas isto é de facto fácil. Basta ver os seguintes exemplos: estar inscrito em Filosofia é uma condição necessária para passar a Filosofia. Mas estar inscrito em Filosofia não é uma condição suficiente para passar a Filosofia. (Se o fosse, a vida dos estudantes de filosofia seria muito mais fácil.) Outro exemplo: ter asas é uma condição necessária para ser um pássaro porque não há pássaros sem asas; mas não é uma condição suficiente: os aviões têm asas e não são pássaros. Uma condição necessária garante que a nossa definição inclui tudo o que queríamos incluir; mas permite que a nossa definição inclua coisas que não queríamos incluir.

O inverso acontece com uma condição suficiente: permite que a nossa definição não inclua tudo o que queríamos incluir, mas garante que não incluímos o que não queríamos incluir. Por exemplo, ter 10 valores é uma condição suficiente para passar a Filosofia. Mas ter 10 valores não é uma condição necessária para passar a Filosofia. (Um aluno pode passar a filosofia com 18 valores, apesar de ser talvez raro.) Repare-se no caso dos pássaros: uma condição suficiente para um animal ser um pássaro é ser um pardal; mas nem todos os pássaros são pardais.

Se juntarmos estes dois tipos de definição temos o melhor dos mundos: com a condição suficiente garantimos que só incluímos o que desejamos, e com a condição necessária garantimos que incluímos tudo o que queríamos. Contudo, não dispomos em geral de definições deste género. Desde Platão e Aristóteles que a filosofia procura clarificar os problemas associados aos diferentes tipos de definição; não quero entrar nessa matéria agora. O meu objectivo é apenas alertar o leitor para o facto de não ser nada de extraordinário que ninguém disponha de uma definição de filosofia deste género. Mas é claro que há outras formas disponíveis de definição, que não em termos de condições necessárias e suficientes.

Alguém sabe o que é a ciência, por exemplo? Possivelmente ninguém é capaz de oferecer uma definição em termos de condições necessárias e suficientes; mas toda a gente sabe, num certo sentido relativamente impreciso, o que é a ciência. Porquê? Bom, porque podemos reconhecer que a física é uma ciência, mas que a astrologia não é uma ciência; pelo menos, a astrologia não é uma ciência no mesmo sentido em que a física é uma ciência.

Quando perguntamos o que é a ciência e alguém nos responde com exemplos (como a química, a sociologia, a geologia, etc.), essa pessoa está a oferecer-nos uma definição implícita. Este tipo de definição distingue-se da definição através de condições necessárias e suficientes, que se chama definição explícita. Chama-se «implícita» a esta definição porque a pessoa que a usa está implicitamente a definir algo, apesar de não o fazer directamente. Apesar de não dispormos de definições explícitas de muitos dos nossos conceitos mais simples, não se segue daí que não saibamos do que estamos a falar. Por isso, também não é à partida grave que não tenhamos uma definição explícita de filosofia. Por exemplo, a maioria das pessoas é incapaz de definir explicitamente uma cor qualquer, como o azul, mas todos somos capazes de dizer se o céu está azul ou não, ou se o vestido da nossa namorada é azul ou não. Isto é, apesar de não termos à nossa disposição definições explícitas de certos conceitos, nem por isso deixamos de reconhecer quando um certo caso específico pode ou não ser classificado desta ou daquela maneira.

Macei o leitor com esta história toda das definições explícitas e implícitas porque me lembro que quando frequentava o 10.o de filosofia se andava à voltas com a definição de filosofia. O resultado (aliás nada surpreendente) deste tipo de ensino era o cepticismo do próprio aluno em relação ao projecto da filosofia. Pois se os próprios filósofos não eram capazes de definir claramente a sua própria actividade, como poderiam ser bons filósofos? Bom, acho que já respondi a essa pergunta: alguém tem dúvidas em reconhecer umas calças de ganga azuis, apesar de não saber definir explicitamente o azul? Passa-se o mesmo com a filosofia: desde que se consiga distinguir claramente o que é filosofia do que não é, não é grave que não tenhamos uma definição explícita de filosofia.

Mas será que os alunos do secundário têm uma boa definição implícita de filosofia? Aqui temos um grande problema. Os alunos do secundário têm de facto uma boa definição implícita de filosofia; mas de uma certa maneira de fazer filosofia. Uma maneira de tal forma bizarra que eu, e outras pessoas como eu, acham que isso não é filosofia. E é claro que há outras pessoas que acham que aquilo que eu faço e a que chamo filosofia não é filosofia.

Quero fugir da discussão de saber quem tem razão, porque não há nada para discutir. As pessoas são livres de chamar às suas actividades o que quiserem. Os praticantes do ocultismo, da astrologia e da alquimia chamam à sua actividade «ciência»; mas nem por isso aquilo que eles fazem se confunde com o que faz um geólogo, um biólogo, ou um físico, pois não? Da mesma maneira, a prática a que nos liceus se chama filosofia tem muito pouco a ver com o que eu faço e com o que reconheço como filosofia. E o que eu faço e o que eu reconheço como filosofia é o que se faz em quase todo o mundo, à excepção de meia dúzia de sítios, como Portugal, Espanha e Itália, que se deixaram influenciar pela cultura filosófica francesa.

Um dos maiores mistérios que gostaria de ver resolvido prende-se com a autoria dos programas de filosofia do ensino secundário. Não sei quem os fez, quem é responsável, com quem se pode discutir; sei vagamente que são vagamente parecidos aos programas do ensino secundário francês. E quanto mais filosofia aprendo, mais incríveis me parecem os conteúdos (se é que assim se pode chamar) com que os alunos são massacrados. Deixem-me dizer isto claramente: não percebo nada da maioria dos manuais do ensino secundário. São confusos, prolixos e têm erros gritantes. Estão ilustrados como se fossem banda desenhada, sem que se saiba porquê. E são na maioria dos casos uma manta de retalhos de pequenos textos igualmente ininteligíveis. Claro que esta é a perspectiva de alguém que tem uma prática filosófica muito diferente da que está instituída em Portugal e França.

Sejamos honestos: a filosofia em Portugal não tem prestígio. Os estudantes acham que a filosofia não tem pés nem cabeça; os melhores alunos são precisamente os que têm dificuldades com esta disciplina, apesar de nunca terem tido dificuldades com as outras disciplinas. Os alunos têm a sensação de que não há conteúdos específicos, que é tudo subjectivo, que tudo depende do professor. Por outro lado, os colegas dos professores de filosofia (os professores de física, de matemática, de informática) desprezam no seu íntimo a filosofia: acham que é uma aldrabice.

Esta situação é aliás semelhante à situação que conhecia o infame Canto Coral do meu tempo. Era uma coisa horrível, estupidificante, sem conteúdos e sem critérios de excelência académica. Toda a gente, alunos e professores, desprezava o Canto Coral — e com razão. Mas da mesma maneira que não podemos confundir o Canto Coral com a música, também não podemos confundir a filosofia que se ensina nos liceus (e até na faculdade) com a verdadeira filosofia. Repare-se, aliás, que este desprestígio da filosofia não ocorre só nos liceus: também na universidade a generalidade dos professores de física, química, informática, matemática, etc., despreza a filosofia.

É preciso que se diga, obviamente, que nem todos os professores universitários, assim como nem todos os professores do liceu, contribuem para este estado de coisas. As excepções são honrosas e são cada vez mais; se isso não fosse assim, nunca teria sido convidado a proferir esta conferência.

Não vou perder muito tempo a caracterizar a filosofia tal como é ensinada nos liceus e na faculdade: essa filosofia já o leitor a conhece e pode tirar as suas conclusões. Nessa filosofia fala-se do Ser (com letra maiúscula), do Saber (também com letra maiúscula), do Absoluto (igualmente com letra maiúscula) e de muitas outras coisas, todas com letra maiúscula. Na verdade, parece que tudo se inclina para Deus. Aliás parece que falar do Ser é uma maneira disfarçada de falar acerca de Deus. E sugiro a quem quiser comprovar a orientação religiosa dos programas do secundário que passe por uma igreja católica e leia atentamente os folhetos da catequese e dos vários grupos de acção religiosa; vão encontrar semelhanças gritantes.

O resultado último que aparentemente se procura atingir com a filosofia no liceu é uma espécie de catequese barata: supõe-se que o aluno deverá converter-se a Deus no final do 11.o ano — que constitui precisamente o último tópico do programa. Eu sou ateu, mas se fosse crente também não gostaria de ver os meus filhos convertidos a Deus de forma mais ou menos subliminar, escondida, envergonhada. Afinal, por que haveria de ter vergonha de crer em Deus? Contudo, o resultado último que se consegue atingir quando se disfarça a catequese barata de má filosofia é o horror criado no jovem estudante às duas coisas: à catequese e à filosofia.

Eu estou aqui para vos estimular e para vos mostrar que a filosofia, tal como eu e a maioria das pessoas do mundo inteiro a praticam, não é nada disto. Aliás, se olharem para o que Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Leibniz ou Hume fizeram, reparam que também eles não fizeram nada disto. Muita gente procura usar a filosofia para muitas coisas; aparentemente, a filosofia oferece-lhes uma cobertura conveniente para fazerem passar às escondidas o que não querem defender às claras. Mas isto não é filosofia: é usar a filosofia para fins obscuros.

Repare-se na concepção de filosofia que se tem. Que diria o leitor se eu me apresentasse como filósofo? Diria que eu era pretensioso. No entanto, uma pessoa exactamente com as mesmas qualificações do que eu que esteja no ramo da matemática é um matemático; e se estiver no ramo das artes, é um músico, ou um pintor, ou um escultor. Há uma boa razão para isto e uma má razão. A boa razão é que entendemos por filósofo apenas aquela pessoa que revolucionou a filosofia, como Einstein revolucionou a física; mas esta razão não é suficiente; se fosse suficiente, o número actual de físicos no nosso país seria reduzido a 0, assim como o de matemáticos, para já não falar nos músicos ou nos pintores.

É a má razão que explica por que não posso dizer que sou filósofo sem que o leitor ache que sou pretensioso. E a má razão é esta: a definição implícita de filosofia que lhe transmitiram faz dos filósofos uma espécie de poetas loucos, tocados pelos deuses, uma espécie de santos padroeiros do Saber (com letra maiúscula), mais ou menos como o São Francisco de Assis. É claro que vocês têm razão, felizmente: nesse sentido não sou, nem gostaria de ser, filósofo.

Mas acontece que a filosofia, tal como eu a vejo (e tal como Platão, Aristóteles, Descartes, Kant e Hume a viam), não é nada disso. A filosofia é uma actividade cognitiva cujo objectivo é compreender melhor um conjunto de problemas. Para compreender esses problemas os filósofos constroem por vezes teorias. E usam argumentos, claro. Os argumentos são a única forma de distinguir uma boa teoria de uma má teoria, uma boa formulação de um problema de uma má formulação de um problema. Como filósofo, estudo estes três tipos de coisas: problemas, teorias e argumentos.

Perante isto, o leitor dirá: está tudo muito bem, mas é tudo muito vago. Que tipo de problemas, que tipo de argumentos, que tipo de teorias é que interessam à filosofia? A resposta circular é: os problemas filosóficos, os argumentos filosóficos e as teorias filosóficas. Mas esta resposta circular não é informativa. No entanto, não posso dar-lhe uma definição explícita do que é um problema, uma teoria ou um argumento filosófico. É como no caso da cor azul. Mas, tal como posso dar-lhe exemplos de objectos azuis, também posso dar-lhe exemplos de problemas, argumentos e teorias filosóficos.

Eis 4 problemas filosóficos, a título de exemplo:

  • O problema da mente-corpo. O problema de saber qual é a natureza da mente e do corpo, se a mente se pode reduzir ao cérebro ou não e, caso não possa reduzir-se, que relações tem a mente com o cérebro.
  • O problema do bem. Que estamos a dizer quando dizemos qualquer coisa como «o João não devia ter beijado a Maria sem mais nem menos»? Estamos a descrever um facto, ou estamos unicamente a manifestar a nossa desaprovação?
  • O problema do cepticismo. Será que existe algum conhecimento imune à dúvida? Teremos razões para acreditar nas coisas mais básicas em que acreditamos, como na existência de outras pessoas e na existência de mundo exterior?
  • O problema da linguagem. Como é possível que uma palavrinha que eu pronuncio descuidadamente tenha o poder de referir coisas com as quais nunca estive em contacto? Quando digo «ouro» estou a referir todo o ouro que há, que houve e que haverá. Mas como podemos explicar essa relação entre a palavra «ouro» e o ouro?

Os filósofos tratam de coisas deste género: problemas acerca de alguns dos nossos conceitos mais básicos, quer sejam conceitos comuns, quer sejam conceitos científicos, religiosos ou artísticos. Os conceitos de realidade, conhecimento, significado, bem, mente, beleza, número, inferência e muitos outros, são o objecto de análise do filósofo. A tarefa do filósofo é pensar criticamente sobre esses problemas e esses conceitos. Pensar criticamente é avaliar cuidadosamente todas as afirmações, em vez de as aceitar só porque alguém as disse, ou porque são úteis ou confortáveis.

Por exemplo, parece que para algumas pessoas é espiritualmente confortável acreditar em Deus, porque é espiritualmente confortável acreditar que existe um desígnio no universo, desígnio no qual nós temos um papel importante. Na verdade, acho difícil que esta ideia seja espiritualmente confortável, a não ser que tenhamos espíritos particularmente tacanhos e pouco exigentes. Mas admitamos que é de facto espiritualmente confortável acreditar em Deus por estas razões. Deve o filósofo proclamar que Deus existe porque é espiritualmente confortável acreditar que Deus existe? Claro que não! O compromisso do filósofo, tal como o compromisso do cientista e do artista, é com a verdade e não com o conforto. O objectivo do filósofo, tal como o objectivo do cientista ou do artista, é atingir uma cognição mais perfeita, mais clara, mais lúcida do mundo — e não impedir a cognição por ser perigosa para o conforto espiritual. É por isso que podemos afirmar que a filosofia é, num certo sentido, um desporto radical: é arriscado como tudo, exige muito treino, muita dedicação e não há garantia de se ganhar a medalha, que no caso do filósofo é a descoberta de uma verdade importante e desconhecida. A diferença entre o surf e a filosofia é esta: a filosofia não é uma habilidade física, é uma habilidade cognitiva. O resultado da filosofia, ao contrário do resultado do surf, é conhecer melhor o mundo.

A actividade crítica da filosofia faz-se através de argumentos. Se alguém afirma que Deus existe, o filósofo pergunta que razões tem essa pessoa para afirmar tal. Essas razões são argumentos a favor da existência de Deus; o papel do filósofo é avaliar, discutir, analisar esses argumentos.

O mesmo se passa em relação às teorias. Uma teoria filosófica não tem valor por si mesma; vale exactamente o mesmo que valem os argumentos a favor da sua aceitação — e não apenas porque uma grande autoridade morta há 500 anos a defendeu. A teoria das ideias de Platão, a doutrina da substância de Aristóteles, a estética transcendental de Kant ou a filosofia da linguagem de Wittgenstein têm o valor que os argumentos favoráveis a essas teorias tiverem; não é a autoridade de Aristóteles que empresta plausibilidade às suas teorias; é ao contrário: é a plausibilidade das suas teorias que confere autoridade a Aristóteles.

O trabalho do leitor, e o meu trabalho, como estudantes de filosofia, é compreender os problemas, os argumentos e as teorias filosóficas. Isso faz-se através da formulação dos problemas, teorias e argumentos e não através da sua repetição. Formular um problema, uma teoria ou um argumento é mostrar que o compreendemos; é dizê-lo pelas nossas próprias palavras. Repetir é apenas um exercício de memória bacoco, estupidificante e vazio. A filosofia, tal como a ciência ou a arte, é uma actividade criativa e inteligente.

Penso que já ficaram com uma ideia do que é a filosofia. A filosofia é uma actividade cognitiva que trata de problemas, argumentos e teorias acerca de alguns dos conceitos mais básicos e gerais: o significado, o bem, a beleza, a arte, o conhecimento, o livre-arbítrio, a realidade, o número, a inferência e muitos outros. Vou agora dar-vos uma ideia do que é a lógica.

2. O que é a lógica?

Tal como a matemática estuda diversas disciplinas, como a aritmética e a geometria, também a filosofia estuda diversas disciplinas, como a epistemologia (que estuda o conhecimento), a estética e a filosofia da arte, a ética e a filosofia política, a filosofia da religião, a filosofia das ciências e a lógica.

É muito fácil definir a lógica: é a disciplina que estuda as inferências, os raciocínios ou os argumentos. Mas o que é uma inferência, um raciocínio ou um argumento? Bom, uma inferência ou um raciocínio é o processo de concluir uma certa frase a partir de um certo conjunto de outras frases. Há muitas formas de raciocínios: raciocínios dedutivos, indutivos, analógicos, por exemplo. O tipo de raciocínio dedutivo é o melhor conhecido e a palavra «lógica» usa-se por vezes como sinónima do estudo, ou até do resultado do estudo, do raciocínio dedutivo. Os silogismos que se estudam no 11.o ano constituem uma teoria (originalmente construída por Aristóteles, mas hoje ultrapassada) que pretende dar conta do raciocínio dedutivo.

O que é o raciocínio dedutivo e como se distingue dos outros tipos de raciocínio? A característica central da dedução é esta: se um raciocínio dedutivo for válido, isto é, correcto, e se as suas premissas forem verdadeiras, então a conclusão está também garantida como verdadeira. Por exemplo: se for verdade que o João e a Maria foram ao supermercado, então é verdade que o João foi ao supermercado. Este é um raciocínio dedutivo. Mas mesmo que seja verdade que o João costuma ir ao supermercado com a Maria às quintas-feiras, pode ser falso que o João tenha hoje ido ao supermercado, apesar de hoje ser quinta-feira e apesar de um raciocínio indutivo razoável concluir que o João foi hoje ao supermercado.

Um raciocínio dedutivo garante a verdade da sua conclusão se for correcto ou válido e se as suas premissas forem verdadeiras; mas um raciocínio por analogia, ou através de exemplos, ou um raciocínio indutivo podem ser correctos e ter premissas verdadeiras e no entanto a sua conclusão ser falsa. Tudo o que um argumento indutivo correcto com premissas verdadeiras pode garantir é que é provável que a conclusão seja verdadeira; mas não pode garantir que é realmente verdadeira.

O exemplo da Maria e do João é muito simples e há por vezes uma tendência para achar que a lógica dedutiva não pode ser informativa, uma vez que só trata de tautologias (como lhe chamou Wittgenstein). Isto é um disparate (apesar de não ser este o disparate que Wittgenstein tinha em mente). A lógica dedutiva é extremamente complexa; mas, tal como a aritmética, temos de começar por aprender as coisas mais básicas. Ninguém acha que a matemática é uma coisa básica porque começamos por aprender quanto é 2 + 2, pois não?

Já dei ao leitor uma ideia do que é a lógica. Vamos agora ver que papel tem a lógica na filosofia.

3. O papel da lógica na filosofia

A parte estritamente formal da lógica permite-nos isolar e estudar as propriedades dos argumentos válidos. É um estudo complexo e extremamente estimulante, cujo resultado tecnológico último foram os actuais computadores. Este estudo é importante para a filosofia porque permite perceber argumentos filosóficos complexos, o que em última análise nos permite saber se são bons argumentos ou não.

Tomemos um exemplo. Imagine que está numa aula e um dos textos que tem de ler é o seguinte:

O próprio facto de o Universo existir, com tudo o que contém, é uma evidência segura de que os cépticos se colocam numa perspectiva a que poderíamos chamar errónea. Na verdade, o conhecimento é uma possibilidade em aberto se o Universo, ou o Todo, existe, assegurando assim a facticidade do próprio Ser e a eloquente negação do Nada. Por outro lado, abre-se um abismo dilacerante no seio mesmo desta questão, pois a própria intangibilidade teorética do conhecimento se apresenta em alternativa paralela à intangibilidade da perspectiva céptica, o que, convenhamos, não corresponde à própria existência do Todo, nem à negação do Nada.

Perante este texto eloquentemente obscuro e ininteligível podemos fazer duas coisas: ou nos dedicamos antes ao surf, ou procuramos saber se isto quer de facto dizer alguma coisa, ao contrário do que parece. Antes de a lógica nos poder dizer se estamos na presença de um argumento válido, ou correcto, precisamos de saber se estamos sequer perante um argumento. À primeira vista estamos apenas perante uma logorreia bacoca e sem sentido.

Se eliminarmos aquilo a que na gíria do liceu do meu tempo se chamava «palha» ficamos com um argumento muito simples:

Se o universo existe, o conhecimento é possível.
Ou o conhecimento não é possível, ou os cépticos estão enganados.
Mas o universo existe.
Logo, os cépticos estão enganados.

Esta formulação já começa a fazer sentido. Temos uma conclusão clara e temos três frases como premissas do nosso raciocínio. A lógica permite-nos perceber que o raciocínio é correcto (na verdade é um raciocínio elementar que estava escondido por detrás da logorreia anterior, que por ser logorreia parecia profunda). Mas daí não se segue que a conclusão seja uma verdade. Porquê? Bom, porque a correcção lógica só nos garante que a conclusão é verdadeira se todas as premissas forem verdadeiras. Ora, a primeira premissa afirma que se o universo existe, o conhecimento é possível, o que é no mínimo discutível. Por isso temos de discutir agora esta premissa, pois a verdade da conclusão depende da verdade desta premissa.

Que ganhámos com isto? Ganhámos clareza e afastámos a obscuridade e a ilusão. Reparem que o próprio autor do parágrafo logorreico que vos li pode estar iludido, pensando que descobriu uma verdade filosófica importante, quando na verdade mais não fez do que apresentar um argumento infantil que, talvez por acaso, até é válido. Mas de pouco vale ser válido, pois uma das suas premissas é altamente discutível. Sem esta análise simples ficaríamos todos iludidos e o objectivo de alcançar uma cognição mais pura seria fracassado.

Ficámos assim a perceber para que serve a lógica: permite-nos dizer se um certo argumento é válido ou não. Se um argumento é inválido, isso significa que a conclusão pode ser falsa, ainda que todas as premissas sejam verdadeiras. Logo, o autor de um argumento inválido, ou incorrecto, não consegue defender a verdade da sua conclusão, uma vez que não está a oferecer-nos razões para acreditar na conclusão: nós podemos acreditar nas razões que ele invoca, isto é, nas premissas do seu argumento e mesmo assim não aceitar a conclusão.

E que acontece quando a lógica afirma que o argumento é válido? Ficamos a saber que se todas as premissas forem verdadeiras, a conclusão também é verdadeira. E agora podemos discutir cuidadosamente as premissas uma a uma para ver se serão todas verdadeiras.

Quer a análise lógica revele que um argumento é válido, quer revele que é inválido, pelo caminho fizemos um trabalho de clarificação imprescindível para o nosso objectivo: compreender melhor o mundo. Estes são dois dos papéis principais da lógica: clarificar os argumentos e as teorias filosóficas e dizer-nos se um argumento é ou não válido.

A estes dois junta-se um terceiro papel: a lógica permite-nos também saber se determinada teoria, ou se determinada proposição é ou não consistente com outras verdades, ou até se é auto-consistente. Uma teoria filosófica inconsistente com verdades mais básicas (quer sejam verdades comuns, quer sejam verdades científicas) está com certeza errada. E uma teoria filosófica auto-inconsistente não pode ser verdadeira.

Quero agora falar-lhe de uma coisa acerca da qual se fala muito hoje em dia: a retórica. Muitas pessoas insinuam (estas pessoas gostam de insinuar, porque é menos arriscado do que ser honesto e dizer as coisas directamente) que a lógica é insuficiente como instrumento filosófico por ser puramente formal e que cabe à retórica o verdadeiro papel criativo na argumentação filosófica. Esta posição está certa e está errada. Está certa se entendermos por retórica aquilo que ela deve ser: um conjunto de regras que têm por objectivo único tornar mais clara a expressão dos argumentos. Mas acontece que não é isto que estas pessoas em geral entendem por retórica: para eles, a retórica é a arte do engano (tão duramente criticada por Platão e Aristóteles), que consiste em conseguir convencer os outros sem que tenhamos boas razões para sustentar as nossas posições.

Vou dar-vos um exemplo do que é a verdadeira retórica. Imaginem que eu defendo o seguinte argumento:

P1) Se desejarmos apurar as capacidades cognitivas dos alunos, temos de lhes ensinar a formular com clareza, precisão e criatividade os problemas, teorias e argumentos filosóficos.
P2) Se concebemos a filosofia como uma actividade cognitiva, o objectivo do seu ensino será apurar as capacidades cognitivas dos alunos.
C) Logo, se concebemos a filosofia como uma actividade cognitiva, temos de ensinar os alunos a formular com clareza, precisão e criatividade os problemas, teorias e argumentos filosóficos.

Do ponto de vista estritamente lógico tanto faz apresentar o argumento por esta ordem, ou inverter a ordem e começar por (P2) em vez de (P1). No entanto, o argumento é mais facilmente compreensível se começarmos por (P2). A retórica, entendida no bom sentido da palavra, aconselha-nos a começar por (P2).

Mas a retórica, entendida no mau sentido da palavra, aconselha-nos a não mudar a ordem, precisamente pela mesma razão. A diferença é que enquanto a boa retórica é uma actividade honesta que tem como objectivo a clareza, a má retórica é uma aldrabice que tem por objectivo ocultar os argumentos, por forma a que seja difícil criticá-los e avaliá-los. Assim, enquanto a boa retórica tem por objectivo oferecer a possibilidade do pensamento crítico, a má retórica tem por objectivo impedir o pensamento crítico e convencer a outra pessoa, independentemente de existirem ou não boas razões para aceitar o que está em causa.

Os grandes mestres nacionais da má retórica são os políticos e as figuras públicas que aparecem na televisão e nos jornais: quando estas pessoas discutem, o objectivo delas não é a verdade; é ganhar a discussão para se auto-promoverem. Esta actividade burlesca é completamente estranha à forma de fazer filosofia que tenho defendido nesta conversa.

Já vimos, sumariamente, o que é a lógica e a retórica. Vimos também, de certa forma, que papel pode a retórica ter na filosofia: a retórica torna os argumentos mais facilmente compreensíveis. Mas a retórica não pode fazer isto sem o auxílio da lógica. Nenhuma retórica pode tornar um argumento logicamente incorrecto num argumento correcto; pode, com certeza, dar a ilusão ao interlocutor de que se trata de um argumento correcto. Mas não torna o argumento correcto. O mesmo acontece com quem é aldrabão e engana com muita habilidade as pessoas no troco do jornal; por mais habilidade que tenha, isso não faz com que o troco esteja certo; só faz com que a pessoa desprevenida não se dê conta de que está a ser enganada.

Não entendo a filosofia como uma arte da aldrabice e do engano. Também não reduzo a filosofia à história da filosofia; não embarco na adoração acrítica e para-religiosa dos grandes filósofos mortos. A filosofia é uma actividade viva, feita por pessoas vivas que estão perante problemas vivos. Também não reduzo a filosofia à adoração bacoca do Ser, essa atitude mística acrítica. O meu objectivo — o objectivo da filosofia que pratico — é a cognição, o conhecimento, a libertação cultural, mental e intelectual.

Enfim. O que quero dizer-lhe era só isto: se deseja saber pensar, estude filosofia. Verá que não se vai arrepender. Saber pensar é uma das habilidades mais extraordinárias a que o ser humano tem acesso. A Marguerite Yourcenar afirmou que «Um homem que lê, ou que pensa, ou que calcula, pertence à espécie e não ao sexo; nos seus melhores momentos escapa mesmo ao humano.» Era só isto que eu queria dizer-lhe. Agora já está dito.

Desidério Murcho
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