Para Além da Liberdade e da Dignidade
30 de Janeiro de 2004 ⋅ Livros

Determinismo probabilístico

Antônio Ribeiro de Almeida
Para Além da Liberdade e da Dignidade, de B. F. Skinner
Lisboa: Edições 70, 2000
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Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) teve o seu discutido livro Beyond Freedom and Dignity, de 1971, reeditado em 2002 pela Hackett Publishing Company. No Brasil ele foi publicado com o curioso título de O Mito da Liberdade e não causou qualquer frissom entre os filósofos e psicólogos e passou quase desapercebido. Skinner, o mais notável psicólogo americano do século XX, desenvolveu ao seu limite o Behaviorismo de Watson e Pavlov. Graduado em Literatura Inglesa por Harvard, em 1938 ele defende uma criativa tese de doutoramento, The Behavior of Organisms, e foi além de Pavlov ao estabelecer o comportamento operante ou o comportamento que está sob controle de um estímulo que chama de discriminativo. Criou uma metodologia para a investigação do comportamento com a sua famosa caixa ou gaiola de Skinner na qual um rato aprende a pressionar uma barra quando ouve um determinado som e a não pressionar quando o som é de outra natureza. O rato aprendeu, portanto, um comportamento novo — pressionar a barra — e com isto ganhar uma bolota de alimento, estímulo reforçador.

Depois desta pesquisa, Skinner trabalhou com pombos e mostrou a capacidade de aprendizagem dos mesmos em dezenas de pesquisas criando os esquemas de reforçamento nos quais o tempo, seja fixo ou variável, controlam a resposta do pombo de bicar uma chave. Depois de extenso trabalho experimental, passou a teorizar e aplicar estes e outros conceitos básicos em seres humanos e a criticar os conceitos tradicionais como o faz neste livro. Ataca o conceito clássico de liberdade, de vontade, de mente e acredita que todo comportamento está controlado por muitas contingências ambientais e da história da pessoa. O comportamento humano livre não existe para Skinner e todo comportamento é determinado.

Neste Skinner ele não destrói o conceito de liberdade e ele mesmo mostra que ao reforçar um comportamento, seja de um rato, um pombo ou um ser humano, ele aumenta apenas a probabilidade da sua ocorrência. O determinismo de Skinner é, portanto, probabilístico, o que deixa ampla margem para a liberdade, isto é, para que o comportamento não ocorra. Skinner demonstrou, como Freud, o quanto o homem não é livre e o quanto está controlado por contingências, sejam atuais ou do passado. Desta forma, a liberdade humana estaria num estado potencial. A partir do momento em que o homem conhecer sua história de condicionamento e as variáveis ambientais e esquemas de reforçamento que o controlam ele está, do meu ponto de vista, em condições de emitir um comportamento livre, isto é, não controlado por estas variáveis. Apesar da fraqueza filosófica do livro, pois Skinner desconhece toda a contribuição da escolástica e dos modernos — Sartre, entre outros — para a discussão da liberdade, o livro merece ser lido porque a sua teorização partiu de intensa pesquisa básica.

Antônio Ribeiro de Almeida
almeida.35@uol.com.br
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